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quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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Militares usam crise na Venezuela para defender aumento de orçamento

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Por Cleber Lourenço

A crise aberta pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela virou o motor para uma estratégia que está em curso na caserna e que deve ser usada, nos bastidores, como argumento pelas Forças Armadas para pressionar por mais orçamento e maior fatia de recursos públicos. O ataque a Caracas e a captura de Nicolás Maduro são tratados internamente como um sinal de alerta geopolítico, explorado para reforçar a narrativa de que o Brasil estaria vulnerável e precisaria ampliar investimentos em Defesa.

Publicamente, a postura das Forças Armadas segue sendo de cautela: monitoramento da fronteira norte, discursos de tranquilização e afirmações de que não há qualquer anormalidade no território brasileiro. Internamente, porém, o episódio já é visto como um ativo político e estratégico, capaz de sustentar demandas por mais verbas e maior controle sobre recursos públicos.

Segundo relatos obtidos pelo ICL Notícias, essas preocupações já foram levadas ao Ministério da Defesa e ao Palácio do Planalto. A movimentação ainda não se traduziu em pedidos formais de recomposição orçamentária, mas o recado foi transmitido: a operação norte-americana na Venezuela é interpretada como sinal de que o ambiente regional se tornou mais instável e imprevisível, exigindo maior capacidade de resposta do Estado brasileiro.

A argumentação apresentada sustenta que crises externas podem produzir impactos rápidos sobre o Brasil, sobretudo na Amazônia e na faixa de fronteira em Roraima. Militares avaliam que a atual estabilidade não decorre de folga operacional, mas de esforços mantidos no limite da capacidade financeira existente, o que reforça uma visão recorrente nos quartéis de que o país opera com restrições orçamentárias incompatíveis com o cenário geopolítico da região.

Nesse contexto, experiências como a Operação Acolhida são usadas como referência. A presença militar contínua em Roraima é apontada como exemplo da importância das Forças Armadas na gestão de crises humanitárias e de segurança, mas também como demonstração do alto custo de manter estruturas permanentes prontas para cenários de agravamento regional. A ação dos EUA na Venezuela passou a integrar esse raciocínio como fator adicional de pressão.

A estratégia em curso envolve a organização de dados, relatórios e avaliações técnicas para embasar pedidos futuros de recomposição orçamentária. Entre os pontos destacados estão investimentos em logística e mobilidade na Amazônia, reforço da vigilância e do controle de fronteiras e garantia de financiamento contínuo para operações consideradas estratégicas.

Além da fronteira imediata, militares passaram a discutir um cenário geopolítico mais amplo. Avaliações internas indicam preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos ampliarem sua atuação na América Latina após a operação na Venezuela, especialmente em áreas de interesse energético e mineral. Declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas quais ele destacou a busca por novas fontes de petróleo e minerais críticos, reforçaram essa leitura.

Segundo avaliações militares, a Margem Equatorial reúne características capazes de atrair atenção internacional, tanto pelo potencial de reservas de petróleo quanto pela proximidade com regiões amazônicas ricas em minerais críticos e estratégicos, como lítio, terras raras, grafite e nióbio. Esses recursos são considerados centrais para a transição energética e para a indústria de Defesa.

O debate também começa a gerar reações fora da ativa. O militar da reserva, sociólogo e fundador da revista Sociedade Militar, Robson Augusto, avalia que a discussão sobre orçamento e Defesa costuma ignorar um problema estrutural das Forças Armadas.

Defasagem no plano de carreira

Em conversa com o ICL Notícias, Robson afirmou que investimentos concentrados apenas em equipamentos e tecnologia tendem a ser ineficazes se não houver mudanças na estrutura de carreira e na política de pessoal. “Não adianta investir em equipamentos e tecnologia de ponta se as melhores mentes para operá-los estão correndo para a iniciativa privada. E estão saindo mesmo, não só pelas condições salariais, mas pela estrutura hierarquizada antiquada”, afirmou.

Segundo ele, embora os salários das cúpulas estejam próximos ao teto do funcionalismo, a base da carreira sofre com defasagem crescente, o que tem provocado evasão de quadros qualificados. Robson também destaca a disparidade interna como fator de desestímulo. “Nos Estados Unidos, o topo da carreira ganha no máximo sete vezes o que recebe a base. Aqui, essa diferença chega a 17 vezes”, disse.

A crítica dialoga com a reação no meio político. O ICL Notícias conversou com o deputado federal Alencar Santana, coautor de um projeto que busca limitar a atuação de militares na política. Para ele, a discussão sobre investimentos em Defesa não pode ser conduzida de forma corporativa nem baseada apenas em pressões conjunturais.

“O que eu defendo é que o governo tivesse um plano robusto de defesa nacional de investimento, mas dentro de uma política de governo. Não pode ser algo simplesmente desejo de militares. Tem que ter uma coisa muito pensada, muito bem elaborada, muito estratégica, utilizando logicamente os equipamentos tradicionais e pensar em novos equipamentos diante do mundo tecnológico que temos hoje. (…) O país precisa, de fato, ter um plano robusto de defesa nacional para defender nossos interesses e garantir nossa segurança, mas isso tem que ser uma política de governo”, afirmou.

Para a professora Anna Penido, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ, a crise na Venezuela expõe dificuldades comuns a países periféricos.

“No caso do Brasil em particular, é pertinente a reivindicação da gente ter investimentos em defesa. O grande problema é que essa reivindicação ela é feita sem repensar, sem revisar, sem discutir como os recursos são aplicados”, afirmou.

Segundo Penido, parte central do debate passa pela forma como o orçamento é gasto:

“Uma parte da discussão passa sim por orçamento, mas outra parte importante é sobre como que a gente gasta esse orçamento. Não faz sentido nenhum você comprar um equipamento sobre o qual você não tem autonomia”.

A professora também alertou para o risco de dependência externa e de investimentos insustentáveis no longo prazo: “Você tem que conseguir manter ele funcionando por 20, 30, 40, 50 anos. Essas discussões são anteriores às discussões sobre gastar mais ou gastar menos. Tem que saber gastar”, concluiu.

A leitura predominante entre militares é que eventuais vulnerabilidades brasileiras não seriam apenas militares, mas também econômicas e políticas. Sem investimentos consistentes e presença estatal robusta, o país poderia ficar mais exposto a pressões externas diretas ou indiretas sobre áreas estratégicas. Ao mesmo tempo, críticas vindas da reserva e do Congresso reforçam que a ampliação de verbas, isoladamente, não resolve distorções internas históricas.

Assim, a crise venezuelana deixa de ser tratada apenas como um episódio regional e passa a ser incorporada a uma narrativa mais ampla, que combina soberania, energia, minerais estratégicos e disputa por recursos públicos. O debate expõe uma tensão persistente: a diferença entre a construção de uma política de Defesa de Estado, planejada e estruturada, e o uso de cenários internacionais como instrumento de pressão corporativa por mais verbas.



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ICL Notícias

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