Um dos pontos mais marcantes dos tristes tempos em que a força-tarefa da Lava Jato mandava e desmandava no Brasil foi a apresentação do Power Point de Deltan Dallagnol. No diagrama, exibido em 2016, todos os crimes reais e irreais atribuídos aos acusados convergiam para um só mandante: Lula. Perguntado sobre as provas para sustentar as acusações, Dallagnol mostrou apenas “convicção”. Apesar disso, a apresentação virou manchete em sites, jornais e telejornais – nove anos depois, condenado pelo Power Point, Dallagnol teve que pagar R$ 146 mil a Lula, por danos morais.
Em pouco tempo, a Vaza Jato, série de reportagens publicada no site Intercept Brasil, e o trabalho de alguns poucos jornalistas e sites independentes revelaria a extensão da farsa de Dallagnol, Sergio Moro e cia. Como se sabe agora, era tudo um jogo de cartas marcadas para incriminar Lula e seus aliados para, assim, tirar o petista da corrida presidencial.
Pois bem: a estratégia de incriminar os petistas sem provas está de volta ao cardápio da imprensa neste ano eleitoral.
O caso Master, a maior fraude bancária da história do Brasil, nasceu e foi fermentada durante o governo de Jair Bolsonaro e sob a omissão do presidente do Banco Central indicado por ele, Roberto Campos Neto. Como parceiro e “amigo de vida”, o próprio dono do banco, Daniel Vorcaro, apontou o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, que chegou a sugerir lei direcionada a beneficiá-lo. No papel de braço direito de Vorcaro, Fabiano Zettel doou R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para campanha a governador de Tarcísio de Freitas.
Todos esses envolvidos são personagens ligados à direita e à extrema direita.
A megafraude só foi interrompida em novembro, com a ação firme de Gabriel Galípolo, o presidente do Banco Central indicado por Lula. Sob a gestão do petista, a Polícia Federal teve total autonomia para mergulhar fundo nas investigações — e o resultado foi tão efetivo que não restou alternativa a Vorcaro, agora preso, senão negociar uma delação.
Depois de meses de cobertura do caso, a Globonews resolveu mostrar no programa Estúdio I desta sexta-feira (20) um quadro para resumir os principais nomes da República ligados a Vorcaro. Surpreendentemente, no alto do “power point” apresentado pela jornalista Andréia Sadi, quais figuras apareceram? Lula, Gabriel Galípolo, Guido Mantega e a estrela do PT! As figuras da extrema direita e do Centrão estavam no “power point da Sadi” em segundo plano.
As “justificativas” para o destaque de Lula e Galípolo? Os dois tiveram uma reunião com Vorcaro no Palácio do Planalto. Apesar de feito fora da agenda, o encontro foi testemunhado por várias pessoas e não teve nenhum caráter secreto. O banqueiro foi ao presidente pedir ajuda para o seu negócio, não recebeu a resposta que gostaria e, meses depois, o Master foi enquadrado nos rigores da lei.
Repetindo: a fraude do Master nasceu na gestão Bolsonaro/Campos Neto e foi interrompida na gestão Lula/Galípolo.

Onde está Campos Neto?
E Campos Neto, a autoridade que teve maior nível de negligência no caso? Esse nem aparece no “power point” apresentado na Globonews. O fato de o ex-presidente do BC hoje estar à frente do Nubank, banco que tem a sociedade da família Marinho, dona do Grupo Globo, teve influência nessa omissão? Cada um que tire suas conclusões. .
O fato é que sempre que Lula ou alguém do governo lembra a responsabilidade de Campos Neto no caso Master recebe críticas de Andréia Sadi, que classifica a acusação como “jogo de empurra”.
A sexta-feira lavajatista do Grupo Globo não parou no Estúdio I. Se estendeu ao Jornal Nacional, que deu espaço generoso ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que é relator do caso Master.
O principal telejornal da emissora reproduziu uma fala totalmente desimportante em que Mendonça faz o papel de “herói que não quer dizer que é herói”. Com voz messiânica de pastor, ele exibiu falsa modéstia em evento realizado na OAB do Rio de Janeiro:
“Eu não tenho a pretensão de ser alguma esperança ou alguém diferente em algum sentido, com algum dom especial. Não. Tenho só a expectativa de fazer o certo, pelos motivos certos. Acho que esse é o papel de um bom juiz. O papel de um bom juiz não é ser estrela”, disse. O discurso clichê recebeu aplausos dos presentes, e as palmas foram exibidas em rede nacional.

Quem é André Mendonça
A quem especula que Mendonça seja o novo Sergio Moro, no sentido da imagem heroica construída pela mídia, é preciso refrescar a memória sobre quem é este personagem.
Como ministro da Justiça, foi Mendonça que ordenou em 2020 a confecção de um dossiê que seria usado contra jornalistas, políticos, servidores e ativistas considerados antifascistas. Se esse candidato a herói se opõe aos que se classificam como antifascistas, podemos dizer que ele próprio se admite fascista?
No cargo de advogado-geral da União em julgamento do STF ocorrido em abril de 2021, Mendonça defendeu a realização de cultos religiosos durante a pandemia. Pastor evangélico, chegou a afirmar que os cristãos “estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião”.
Foi também Mendonça que, já como ministro do STF, protagonizou uma discussão em plenário em que responsabilizou o governo Lula pela invasão dos golpistas do 8/1.
Está formada a espinha dorsal para uma nova campanha de mentiras contra Lula e o PT. Basta que Vorcaro cite em sua delação alguém que tenha ligação mesmo longínqua com o governo e o circo estará novamente armado. Esse roteiro é o que está se desenhando: cheios de dubiedade, algumas das figuras foram citadas no programa da Globonews como suspeitas apenas por “ter relações” com o dono do Master — a expressão foi repetida várias vezes.
A questão central para separar o joio do trigo é: essas “relações” foram legais ou ilegais?
Mas, assim como o famoso comunicador Chacrinha, o lavajatismo (uma denominação diferente para antipetismo) não surgiu para esclarecer nada, mas para confundir.
Apertem os cintos, lá vamos nós outra vez.



