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sábado, 21 março, 2026
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Bolsonaristas perseguem e invadem gabinete de vereadora que combate feminicídio em Campinas

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Por Explicador-Geral da República/ Portal do Ricardo Mello

A vereadora Guida Calixto (PT) de Campinas sofreu uma série de ataques coordenados por um grupo bolsonarista ligado a vereadores da extrema-direita no Município. A perseguição começou quando ela apresentou o Projeto de Lei nº 70/2026, que institui o Sistema Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio, e se intensificou com invasão ao seu gabinete, ameaças às assessoras e constrangimento público.

Um boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Defesa da Mulher na noite de quarta-feira (18/3) detalha que a escalada da violência política começou na segunda (16/3), quando duas assessoras de Calixto distribuíam material sobre o combate ao feminicídio na Praça da Catedral, no Centro de Campinas. Três homens se aproximaram, começaram a gravar as mulheres contra sua vontade e as intimidaram com provocações políticas. Conforme relatado no boletim de ocorrência, os agressores esperavam que as assessoras reagissem às ofensas, criando um cenário de confronto, o que não aconteceu. A Polícia Militar foi acionada, interveio e solicitou que os homens se retirassem do local.

No dia seguinte, terça-feira (17/3), o mesmo grupo foi até uma escola onde estava instalado um outdoor da vereadora sobre a campanha contra o feminicídio. “Eles constrangeram o diretor da escola, exigindo a remoção do outdoor”, contou Guida. A pressão funcionou, o outdoor foi removido.

Naquele mesmo dia, os investigados invadiram o gabinete de Guida, gravaram vídeos intimidando uma de suas assessoras e fazendo ameaças. “Você é funcionária pública, amanhã vou postar seus vídeos nas redes sociais”, disse um dos autores.

Para conseguir entrar na Câmara Municipal, os agressores informaram que visitariam o gabinete de um vereador bolsonarista e receberam autorização para entrar. “Nós sabemos que esse grupo que tenta nos calar é incitado por vereadores que se opõem à nossa pauta de combate à violência contra a mulher”, comenta a parlamentar.

Na quarta-feira (18/3), quando Guida se reunia com representantes do Ministério das Mulheres em uma agenda do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, o grupo retornou à Câmara, desta vez acompanhado por outros militantes bolsonaristas conhecidos por provocar opositores políticos e publicar as cenas nas redes sociais. “Eles tentaram entrar no meu gabinete, mas eu não estava. Um dos meus assessores desconfiou e foi atender os homens na recepção da Câmara. Ele passou a ser hostilizado e gravado sob ameaça de exposição nas redes sociais”, contou Guida.

Durante a sessão, o grupo tentou acompanhar os trabalhos legislativos, mas foi temporariamente impedido pela segurança. Nesse dia, Guida utilizou seu tempo na tribuna para denunciar publicamente a perseguição. “Passei a ser ameaçada e perseguida por um grupo de homens bolsonaristas, machistas, misóginos, que odeiam as mulheres”, disse. Segundo Guida, o real motivo dos ataques é o projeto de lei que institui monitoramento eletrônico para agressores de mulheres. “O medo é que seja colocada tornozeleira eletrônica no agressor. Eles querem proteger esses homens feminicidas”, acusa.

Bolsonaristas perseguem e invadem gabinete de vereadora que combate feminicídio em Campinas
Bolsonaristas perseguem e invadem gabinete de vereadora que combate feminicídio em Campinas

Ação na Justiça

Além do registro do crime, a parlamentar vai solicitar à Justiça a concessão de uma medida cautelar impedindo o grupo de se aproximar dela. “Eu não tenho medo de canalha. Sou uma mulher negra, nascida na periferia, e sei muito bem os perigos que uma mulher sofre. Eu vou até as cabeças com quem está perseguindo o meu mandato”, disse Guida, em vídeo publicado nas redes sociais.

A Câmara Municipal de Campinas divulgou nota condenando “qualquer tipo de agressão, física e moral, principalmente contra as mulheres” e informou estar à disposição para ajudar na investigação. No entanto, a Casa disse que não pode proibir a entrada dos acusados no prédio sem uma determinação judicial.

Histórico de violência política de gênero

A violência política de gênero em Campinas fez outras vítimas na cidade. A vereadora Mariana Conti (PSOL) conta que sofreu ameaças de morte desde o início do seu mandato e reconheceu o padrão de violência política contra mulheres parlamentares. “A violência política de gênero é cotidiana na Câmara”, afirmou Mariana.

Recentemente, Mariana, que se licenciou do mandato para participar da Flotilha Global Sumud, sofreu pedido de cassação apresentado por vereadores bolsonaristas baseados em fake news, incluindo acusação falsa de tráfico de drogas publicada na rede social de um vereador bolsonarista. “Nós acionamos a Justiça e conseguimos uma liminar para que ele removesse o conteúdo. Estamos processando esse vereador civil e criminalmente”, reforça. O pedido de instalação de uma Comissão Processante contra Mariana foi rejeitado após votação.

Os casos de Guida Calixto e Mariana Conti exemplificam como grupos extremistas utilizam intimidação, gravação não consentida e ameaças de exposição pública como ferramentas de silenciamento contra mulheres que avançam agendas progressistas. A perseguição não é isolada, mas parte de uma estratégia coordenada para deslegitimar e afastar parlamentares que defendem políticas de proteção às mulheres ou outras pautas inclusivas.

Confira a nota da Câmara na íntegra

“A Câmara Municipal de Campinas condena qualquer tipo de agressão, física e moral, principalmente contra as mulheres. A denúncia é muito grave e a Câmara está à disposição para ajudar na investigação. Caso o Judiciário conceda a medida protetiva de urgência, os acusados serão impedidos de entrar no prédio do Legislativo. Para enfrentar a escalada de casos dessa natureza, a Câmara promoverá um seminário no dia 26 de março sobre direitos, garantias, prevenção e políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. O encontro terá a presença de representantes da Delegacia dos Diretos da Mulher, da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, da Ordem dos Advogados do Brasil e da sociedade civil”.





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