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O 15 de outubro de 1987 ficou gravado como uma ferida aberta na história de Burkina Faso. Halouné Traoré, único sobrevivente do massacre na sede do Conselho Nacional Revolucionário, em Uagadugu, onde Thomas Sankara e outros 12 colegas foram fuzilados, relembra aquele dia como” um choque de grandes proporções” nas bases da revolução, iniciada quatro anos antes.
Traoré, antigo companheiro do ex-presidente de Burkina Faso (1983-1987), explica como foi sobreviver ao golpe de 1987, que pôs fim à vida do ícone do pan-africanismo revolucionário.
“Tínhamos uma reunião marcada nesta sala por volta das 16h. O camarada presidente chegou por último, estávamos esperando por ele na sala de reuniões aqui e, assim que ele chegou, a reunião começou. Como eu tinha acabado de ser enviado ao Benin para uma missão, tive a palavra. Deu tempo apenas de dizer “saí de Ouagadougou” e começar meu relatório, quando ouvimos tiros vindos de fora e alguém gritar em um tom bastante forte: ‘Saia! Saia! Saia!’. Então, após essas ordens, o camarada presidente se levantou, ajeitou suas roupas e saiu daquele jeito, com as mãos para cima. Ele foi baleado à queima-roupa na entrada daquela sala”, relatou.
Thomas Sankara foi assassinado em em uma conspiração liderada por seu então amigo Blaise Compaoré, que se tornou presidente do país até 2014, com apoio do governo da França.
Compaoré negou durante muito tempo as suspeitas de ter organizado o massacre. Ao longo dos seus 27 anos no poder, a morte do seu antigo companheiro de revolução foi sempre um tabu. Até abril de 2008, contra todas as evidências, a certidão de óbito de Sankara foi classificada como morte natural.
Somente após a insurreição popular de 2014 e o fim do regime de Blaise Compaoré, que o país conseguiu finalmente dar início às investigações e o julgamento da morte de seu líder.
Ao longo desse período, diversos pedidos de acesso aos arquivos franceses com o objetivo de tentar apurar se a antiga força colonial esteve envolvida na morte de Sankara foram ignorados por Paris.
Os autores do crime foram julgados 34 anos depois da chacina, em outubro de 2021, na capital do país, Uagadugu. Durante o processo, foram ouvidas mais de 110 testemunhas.
As investigações estabeleceram a responsabilidade direta de Compaoré após confirmada a presença de soldados de sua guarda próxima entre os comandantes do massacre. Os assassinos partiram da residência de Compaoré, segundo a investigação, alguns levando emprestado um dos seus veículos.
Compaoré foi condenado à prisão perpétua pela Justiça Militar de Burkina Faso e “pediu perdão” à família de Sankara. A Justiça também condenou com a mesma pena o comandante da sua guarda pessoal, Hyacinthe Kafando, e o general Gilbert Diendéré, um dos líderes das Forças Armadas na época do golpe de 1987.
Em entrevista feita na época da condenação, que o Brasil de Fato exibe com exclusividade nesta quarta-feira (15), há exatos 38 anos do massacre, Halouné Traoré relata o clima de ruptura que marcou a morte de Sankara, analisa a relação com Blaise Compaoré e reflete sobre o legado político do líder revolucionário para a luta contra o neocolonialismo no Sahel.
“Camaradas de luta”
A morte de Sankara pôs fim ao projeto revolucionário iniciado em 1983. No poder, Compaoré restaurou as oligarquias, desfez as nacionalizações dos recursos naturais, reabriu o país ao FMI e ao Banco Mundial e desmontou as reformas sociais do projeto sankarista.
Traoré acredita que o crime não pode ser compreendido apenas como uma disputa de poder, mas como “uma ruptura entre camaradas de luta”. Para ele, Sankara morreu acreditando na lealdade de Compaoré.
“Quando você vê Blaise hoje, um homem cheio de remorso pelo que disse sobre Thomas no dia seguinte ao 15 de outubro, pode-se dizer que a verdade é que Blaise conhece Thomas melhor do que todos nós”, refletiu.
Halouné descreveu que, dada a profunda relação entre os dois líderes, o processo judicial não deveria ser visto como uma mera condenação, mas, sim, como uma oportunidade de perdão e reconciliação nacional. Só assim, segundo Traoré, a amizade entre as famílias Sankara e Compaoré poderia “sobreviver” ao trauma de 15 de outubro.
“Eles tinham uma relação íntima e ele mesmo disse: ‘Se ouvirem que Blaise está preparando um golpe contra mim, não se preocupem. Ele já conseguiu’. Portanto, ele confiava plenamente em Blaise. Então, Thomas partiu com essa ideia para o reino de Deus. Eu conheci os dois juntos. O presidente me disse que, se ele não estivesse mais aqui, seria Blaise”, completou.

O sobrevivente do massacre detalhou, no período do julgamento, que era preciso recuperar o “elemento agradável” da amizade de Compaoré com Thomas Sankara.
“Não há ninguém melhor do que ele para falar de Thomas, por isso é preciso ter cuidado para não humilhar, não frustrar Blaise, porque se atacares Blaise, atacas Thomas”, defendeu na entrevista.
“Ele (Compaoré) percebeu, depois de 15 de outubro, que o orgulho que sentiu foi um erro. Olhem para os quatro anos de Sankara. Os quatro anos representaram a unidade, o amor, a verdade, a juventude, a sinceridade. E é isso que não encontramos nos 27 anos de Blaise”, colocou.
Exploração de recursos no Sahel
A denúncia da exploração mineral e do neocolonialismo econômico em relação as empresas estrangeiras que operavam as minas de ouro do país já eram feitas por Halouné na época da entrevista.
“Eles vêm do planeta do capital financeiro internacional, dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália. São abutres. Quando ganham 10 mil, dão 5 francos a Burkina Faso”, detalhou.
O sobrevivente do assassinato de Sankara lamentou que, passadas décadas, Burkina Faso ainda não tinha uma companhia nacional capaz de explorar seus próprios recursos.
Segundo ele, o imperialismo contemporâneo é soft, civilizado e invisível. “Ele te domina e você não sabe quem te dominou.”
Essa dominação, disse Traoré, agora se exerce “pela internet, pela rede, pelo WhatsApp”, que substitui “a dominação militar por uma dependência mental”.

Nesse ponto de vista, Halouné Traoré valorizou a “dignidade nacional” que Sankara cultivava com seu exemplo de recusar privilégios, “comendo e se vestindo como o povo”.
“Em sinceridade, ele [Sankara] superou o comum. Em honestidade, a mesma coisa. Em moralidade, a mesma coisa. Aqui está alguém que não tinha uma conta bancária, não tinha uma conta no estrangeiro. Ele desafia até as gerações atuais, com exceção de alguns raros presidentes. Em todo o continente, as pessoas têm contratos no estrangeiro. É assim que as pessoas amam o seu país”, refletiu Traoré.
“Todos os povos que tiveram sucesso enfrentaram grandes obstáculos, os grandes povos. É assim que se resolve uma grande questão de âmbito nacional”, finalizou.
*Com colaboração do Centro Thomas Sankara pela Liberdade e União Africana
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Fonte: Brasil de Fato




