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segunda-feira, 27 abril, 2026
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Desaprender a ser canalha ou fazer curso da Machosfera?

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“Se o macho está perdido, não sou eu que vou procurá-lo”.

Retomo a filosofia (para além do para-choque) do escritor Marçal Aquino. O interesse, óbvio, é falar sobre o feirão de cursos, simpósios e até expedições a montanhas (nada mágicas) ofertados no universo da Machosfera.

Ainda na virada para os anos 2.000, usei a frase de Aquino de epígrafe do meu livro “Os machões dançaram” (um diálogo troncho com “Os machões não dançam”, de Norman Mailer), volume que tratava também dessa tal perdição da macharada diante das irrefreáveis conquistas das mulheres.

Parece que a pedagogia da testosterona oprimida virou moda de novo. Talvez nunca tenha deixado de ser – este cronista bocomoco é que estava desatualizado, analógico e fora de órbita.

Repare no bafo em torno de “O Farol e a Forja”, curso presencial oferecido pelo ator Juliano Cazarré, um intensivão que propõe, entre outras reflexões, curar o “desamparo da figura masculina”.

O competente ator de novelas e de filmes como Febre do Rato (2011) e Boi Neon (2015), sob o pretexto da fraqueza dos ditos provedores do lar, promete devolver os rapazes desvirtuados à condição de bons e abençoados machos. Seja lá o que isso represente em 2026.

Esse tipo de curso, como vimos agora do documentário “Por dentro da Machosfera” (do bamba Louis Theroux na Netflix), costuma render muita grana aos promotores e servir como departamento de RH para recrutamento da extrema direita.

Se o macho está perdido, camarada Marçal Aquino, não sou eu que vou curar o ressentimento da triste figura. Tampouco autorizá-lo, com um diploma masculinista, a se reafirmar diante das mulheres com horas-aula de macheza envenenada.

A questão é mais de martelo e bigorna do que de forja – aqui revivo a convivência com os parentes de Potengi, no Cariri cearense, a terra dos melhores ferreiros desse país.

A questão é mais de deixar o metal maleável do que moldá-lo na velocidade da ejaculação precoce do mais novo “red pill” ou “celibatário involuntário” das redes sociais.

A questão é… de terapia, de saúde pública, de escuta. Nem que seja a escuta de boteco ou a psicanálise canina – falar com o seu cachorro, amigo, nas confissões mais íntimas, também ajuda. Desabafe com o seu pet chique ou vira-lata.

A questão é mais de desaprender a canalhice obsoleta que de se matricular nesse tipo de supletivo para recuperar a macheza perdida.

Quer valorizar o homem, a mulher, os filhos – em pé de igualdade –, quer valorizar a família? Melhor lutar pelo fim da escala 6×1 do que fazer curso para ser “macho” de novo.

Com um dia de folga a mais, a maioria dos brasileiros e brasileiras, serão, naturalmente, melhores homens e mulheres.

Não forje, relaxe e goze.





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