No dia 22 de fevereiro de 1942, já os Estados Unidos tinham entrado na Guerra, Stefan Zweig escrevia um comovente texto a que chamou “declaração”. Dizia assim: “Antes de deixar esta vida por minha vontade própria e em pleno domínio das minhas faculdades, sinto-me impelido a cumprir um último dever: agradecer profundamente a este país maravilhoso, o Brasil, que me proporcionou a mim e ao meu trabalho um repouso tao bom e hospitaleiro”. Não conheço mais belo elogio ao Brasil.
Mais a frente, disse o escritor: “Assim, considero melhor encerrar, em tempo oportuno e de cabaça erguida uma vida…” Estas palavras ainda hoje me arrepiam — em tempo oportuno e de cabeça erguida, disse ele. Quer dizer, sou eu que decido quando acaba, mais ninguém. Eu tenho a última palavra.
Lembro-me de, ainda muito miúdo, ter ido ao cemitério da aldeia dos meus pais visitar o túmulo da minha avó. A certa altura, alguém me disse que “ali”, separados dos restantes, estavam os outros. Quis saber quem eram os outros e insistiram — os outros. Mas quem eram os outros? Os outros eram os que se mataram. Silêncio. Os que se mataram? E o perdão? Sim, o perdão é para todos os que confessam os seus pecados, mas não para os que violaram a lei de Deus pondo termo a vida e sem tempo para receber a extrema unção. A esses restavam as chamas eternas do inferno. Saí dali a correr.
E no entanto, a autonomia individual radical é isto: sou o dono de mim próprio, o mestre do meu destino, o capitão da minha alma como escreveu belissimamente o poeta Ernest Henley. Nada nesta bela declaração tem a ver com covardia, mas com grandeza — eu assumo a responsabilidade final. Diz ainda: “Saúdo todos os meus amigos! Que lhes seja dado ainda ver o amanhecer depois desta longa noite! Eu, demasiado impaciente, parto antes deles.” A paz só chegaria dois anos depois e ele já não tinha paciência. Parto antes. Que palavras.
Stephen Zweig foi um dos grandes intelectuais europeus a quem foi dado como destino viver as duas guerras mundiais. Viveu tempos sombrios. Pela minha parte, sempre dediquei as minhas simpatias, aos nômades, aos aventureiros e aos amantes da liberdade. O seu exílio foi no Brasil e nele sempre foi um homem livre. No final da declaração escreveu que na sua vida “ o trabalho intelectual significou a mais pura alegria e a liberdade pessoal, o bem mais preciosos sobre a terra”. Hoje é 25 de abril em Portugal, Dia da Liberdade e lembrei-me deste texto de Stephen Zweig. Foi a forma que arranjei de ligar o 25 de abril ao Brasil. Para Stephen Zweig, o Brasil, foi uma terra de liberdade.



