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quinta-feira, 23 abril, 2026
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Visitas a general condenado por golpe inclui militares ligados a assédio e tortura

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Por Cleber Lourenço

O general da reserva Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, condenado por participação na tentativa de golpe, intensificou nas últimas semanas uma estratégia de articulação enquanto se prepara para um dos momentos mais críticos de sua carreira: o julgamento no Superior Tribunal Militar (STM), que pode resultar na perda do posto e da patente.

Nesse contexto, o militar tem ampliado os pedidos ao ministro Alexandre de Moraes para autorização de visitas na prisão. A lista inclui nomes do alto e médio escalão das Forças Armadas, indicando a tentativa de manter uma rede ativa de interlocução às vésperas do julgamento.

Entre os nomes está o almirante de esquadra Ademir Sobrinho, ex-integrante do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, posição estratégica dentro da estrutura militar. Também aparece o general da reserva Ubiratan Poty, acusado de assédio sexual em 2024 e exonerado do Ministério da Defesa após o episódio.

Outro nome que chama atenção é o do então major Fulgêncio Leitão de Castro e Silva Júnior. Ele aparece em um relatório de sindicância citado em investigação jornalística sobre abusos dentro do Exército. Segundo os documentos, Fulgêncio integrava a cadeia de comando em um episódio ocorrido em Fortaleza, no qual um recruta foi submetido a agressões físicas, humilhações e privação de alimentação em um contexto descrito como motivado por homofobia.

A própria apuração interna reconheceu os maus-tratos, mas não houve responsabilização efetiva dos envolvidos. O caso foi posteriormente esvaziado dentro da estrutura militar, com tentativas de atribuir o quadro do soldado a problemas psicológicos preexistentes. A vítima acabou dispensada sem direito a reparação, em um episódio que passou a ser citado como exemplo de falhas nos mecanismos internos de responsabilização.

Além de Fulgêncio, o pedido de visitas também inclui sua esposa, Elma Henrique. Na petição encaminhada ao STF, a defesa de Paulo Sérgio solicita que a visita do casal seja autorizada de forma conjunta e, preferencialmente, aos domingos. O trecho do documento registra: “Destarte, contando com a sensibilidade dessa nobre Relatoria requer que a visita para o casal Elma Henrique e Fulgêncio Leitão seja autorizada para ser realizada em conjunto e, preferencialmente, que ocorra num domingo.”

A lista inclui ainda oficiais com passagem pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), como Marcius Cardoso Netto, Bruno Krepke Leiros Peixoto e Asdrubal Rocha Saraiva, todos identificados em registros como primeiros-tenentes de Infantaria. A presença desses nomes indica vínculos construídos ao longo da carreira, especialmente em unidades operacionais da Amazônia.

O novo pedido amplia uma relação que já vinha sendo construída pelo militar, com autorizações concedidas recentemente para encontros com outros integrantes das Forças Armadas. A movimentação aponta para a formação de uma rede de apoio neste momento pré-julgamento, combinando articulação jurídica e alinhamento político.

O julgamento no STM é considerado decisivo. A perda do posto e da patente representa a sanção mais severa para militares condenados, com impactos diretos sobre a carreira, benefícios e reconhecimento institucional. Na prática, também pode alterar o regime de cumprimento de pena, já que o general deixaria as instalações militares e poderia ser transferido para um presídio comum.

A presença de Poty chama atenção por conectar dois episódios recentes envolvendo oficiais de alta patente, em contextos distintos, mas que seguem orbitando espaços de poder mesmo após crises institucionais.

Paulo Sérgio e Ubiratan Poty foram colegas de formação na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), onde ingressaram no fim da década de 1970. A relação construída ainda na formação militar ajuda a explicar a manutenção de vínculos mesmo após os episódios que os colocaram no centro de investigações e controvérsias.

No caso de Poty, a denúncia de assédio sexual envolve uma funcionária terceirizada e teria ocorrido durante uma agenda oficial em Manaus, quando ele ainda era diretor do Programa Calha Norte. À época, o Ministério da Defesa abriu investigação e o general deixou o cargo.

Apesar da acusação, Poty não foi afastado do circuito político. Recentemente, ele foi nomeado para atuar como secretário parlamentar no gabinete do deputado federal Zé Adriano, mantendo presença em Brasília mesmo após o episódio.

Nesse cenário, o acesso ao general na prisão deixa de ser apenas uma formalidade administrativa e passa a integrar a preparação para o embate no tribunal militar, onde o histórico, as relações e o apoio interno podem ter peso relevante.

O caso expõe como relações construídas ao longo da carreira militar permanecem ativas mesmo diante de investigações e condenações, conectando figuras que, apesar dos episódios recentes, seguem com trânsito em diferentes esferas de poder.

 

 

 





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