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quinta-feira, 23 abril, 2026
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Luiz Antonio Simas sobre São Jorge: ‘Não é santificação do homem, é humanização do santo’

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Por Chico Alves

Em várias regiões do Brasil, e no Rio de Janeiro em especial, muita gente vai às igrejas nesta quinta-feira (23) para celebrar o dia de São Jorge. O santo católico ganhou entre os brasileiros uma versão ligada às religiões afro-brasileira, onde é associado a Ogum. Em terras cariocas a data não é apenas momento para oração: tornou-se feriado que mobiliza multidões em encontros de festa, samba e feijoada.

Essa forma peculiar de devoção, que mistura sagrado e profano, ganha especial significado em um momento do país em que o fundamentalismo religioso tenta impor visão única de mundo e apagar a diversidade. O jeito brasileiro de adoração é o ponto principal do livro “São Jorge: O santo do povo e o povo do santo” (Editora Planeta), que está sendo lançado pelo historiador e colunista do ICL Notícias Luiz Antonio Simas.

É a primeira obra de uma série em que Simas pretende abordar a vida e a devoção brasileira a outros santos. Nessa entrevista o autor explica os motivos da popularidade de São Jorge no Brasil e como os fiéis por aqui o acolheram de uma forma muito especial, trazendo da dimensão sagrada para o universo popular.

ICL Notícias – Por que São Jorge conquistou uma popularidade tão grande no Brasil e, em especial, no Rio de Janeiro?

Luiz Antonio Simas – São Jorge é um santo mundial. Esse é um detalhe muito curioso, porque ele é católico, ele é ortodoxo, ele é anglicano. Está presente, aliás, em todas as vertentes da ortodoxia. É padroeiro de uma quantidade impressionante de países e cidades em diversos continentes. O culto a São Jorge no Brasil chega com a colonização portuguesa, mas se fortalece muito no Rio de Janeiro com a chegada da corte de Dom João. Até porque Dom João, a família Bragança eram devotos de São Jorge. Mas o que eu acho curioso é que no Rio de Janeiro e no Brasil, de uma forma mais ampla, São Jorge acaba sendo temperado no azeite de dendê das africanidades que nos formam. E ele vai tendo uma popularidade cada vez mais acirrada e uma popularidade impressionante.

Eu saí desse livro com essa impressão: São Jorge é um santo muito vinculado aos perrengues do cotidiano.  O próprio mito do dragão fala nisso, o combate ao dragão da falsa idolatria, da maldade, as agruras do dia a dia. Então ele é muito próximo do fiel, é aquele santo que está presente mesmo nas coisas mais miúdas do dia a dia, nos perrengues mais miúdos que a gente tem. Não só é um santo vinculado a grandes causas.

E esse perfil do guerreiro, esse perfil do enfrentamento do dragão da maldade, esse perfil do sujeito que defende contra os perrengues, eu acho que isso foi dando uma popularidade enorme a São Jorge. E no caso do Rio de Janeiro, acho que é muito impactante a relação que ele tem com um orixá muito popular [Ogum]. É um orixá ligado a guerra, um orixá ligado à metalurgia e o ferro. E São Jorge tem muito disso também. São Jorge em Portugal era o padroeiro dos ferreiros, padroeiro dos cuteleiros, padroeiro dos barbeiros, dos que trabalham com navalha. E a lâmina entre os iorubás pertence a Ogum. Eu acho que isso é muito forte no Rio de Janeiro, mas a impressão que eu tenho é que a popularidade dele decorre desse caráter urbano e cotidiano, de quem está ali no dia a dia, socorrendo o sujeito de todos os perrengues que a gente possa imaginar.

São Jorge é o santo que melhor representa a ideia de sincretismo religioso ocorrido no Brasil?

Eu acho que o sincretismo, no caso de São Jorge, é um jogo de mão dupla, porque o sincretismo é um fenômeno complexo. Inclusive falo sobre sincretismo no livro dizendo isso. Porque é um sincretismo que, ao mesmo tempo em que cristianiza o orixá africano, africaniza o santo católico. No caso de São Jorge, eu acho que você tem uma africanização do santo mesmo, de uma forma muito vigorosa. É muito pertinente a ideia de que talvez seja o sincretismo mais forte, mais impactante que a gente tenha.

É muito curioso, porque eu conversei com muita gente para fazer o livro, conversei com devotos de São Jorge, fui para o meio da rua, e a maioria das pessoas, ao contrário da lógica que às vezes a gente vê em rede social , elas são devotas de São Jorge, são devotas de Ogum, sabem que Ogum não é São Jorge, que São Jorge não é Ogum. Mas não veem problema nenhum em terem devoção pelos dois, pelo Orixá e pelo santo, achando que entre o Orixá e o santo há pontos de similitude e de semelhança. É uma encruzilhada de cristianização das africanidades e de africanização de elementos do cristianismo, que opera de uma forma muito complexa na formação da cultura brasileira, problemática muitas vezes, enfim. São Jorge me parece muito emblemático disso.

Você explicou que, de acordo com essa mistura que acontece no Brasil, o livro tem uma mudança no estilo do texto…

É exatamente isso. O livro não é uma biografia do santo, até porque a gente tem pouquíssimas informações históricas mais consistentes para trabalhar uma biografia. Então, a rigor, é um livro sobre a devoção a São Jorge. Começa falando do Império Romano, situando os relatos a respeito da vida dele na Capadócia e aí vai fazendo um passeio pelo culto a São Jorge, na própria Turquia, em Belém, em Jerusalém, no antigo Império Bizantino, na Europa, na África e chega ao Rio de Janeiro. Quando chega ao Rio, o livro realmente tem uma outra postura, porque a própria linguagem tem um sentido mais próximo da ideia de que São Jorge está descendo dos altares para cavalgar nas ruas.

Então, a partir do capítulo santo suburbano, ele chega de Portugal e vai morar no subúrbio do Rio de Janeiro. E a própria estrutura linguagem do livro ganha outra característica. A ideia é exatamente essa. E, portanto, é como se fosse uma cavalgada, que começa lá na Capadócia, o antigo Império Romano, até que chega ao Rio de Janeiro. E aí tem essa mudança até na maneira como o livro foi redigido. O texto se transforma num livro, digamos, mais informal a partir desse momento.

Celebração em homenagem a São Jorge. Foto: EBC

Nesse momento em que o fundamentalismo religioso tenta desumanizar quem é diferente, essa ideia de um santo mais humano ganha especial importância, não?

Eu sempre costumo dizer que uma característica da fé brasileira é operar na sacralização do profano e da profanação do sagrado. É o que eu acho bonito em São Jorge. É a alteridade, porque você não consegue conceber São Jorge sem o dragão. Esse dragão tem múltiplas facetas.

São Jorge é aquele que está no dia a dia combatendo os mais diversos perrengues. Agora, o que é um perrengue para você pode não ser um perrengue para mim. O que é um perrengue para o outro pode não ser um perrengue para você. Então, São Jorge é um santo que opera numa dimensão de pluralidade. Opera numa dimensão cotidiana de relação com a alteridade. E é essa dimensão festeira também, essa dimensão da feijoada, essa dimensão do samba, essa dimensão da alegria. Ela não quebra a sacralização, porque você não tem uma dicotomia entre o que é profano e o que é sagrado. E a profanação do sagrado é a sacralização do profano.

É uma encruzilhada de formação da cultura brasileira que é fascinante. E é triste a gente ver o avanço de setores extremistas que operam numa lógica tacanha do eu ou você, é isto ou aquilo. Quando São Jorge mostra, a rigor, que não é assim.  São Jorge aposta na diversidade, no dia a dia, no cotidiano, naquilo que é a luta pelo bem, na minha concepção, que pode não ser exatamente na sua, mas nós temos as nossas lanças e nós lutamos contra os nossos dragões. Então, essa dimensão plural, essa dimensão de alteridade, essa dimensão festeira de profanação do sagrado, de sacralização do profano, ela humaniza a São Jorge.

Por isso é que eu digo que o que me interessa mais nesse livro não é a santificação do homem, mas é a humanização do santo. E o santo demasiadamente humano, que eu acho, paradoxalmente, por isso mesmo é santo. Essa é a beleza do São Jorge.





ICL Notícias

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