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domingo, 3 maio, 2026
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Um combatente da palavra – ICL Notícias

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Por Rodrigo Vianna

O jornalismo de resistência, que dribla a censura e as imposições do capital, não nasceu na internet. Houve um tempo em que ele se fazia no papel, em jornais que precisavam ser impressos em pequenas gráficas — sempre sob risco de empastelamento ou de serem recolhidos antes de chegar às bancas. Alguns profissionais também encontravam frestas para resistir dentro das redações convencionais. Naquela época, a censura vinha do Estado, não das big techs e dos algoritmos.

Raimundo Rodrigues Pereira começou no jornalismo nesse período áspero da vida brasileira, logo após o golpe militar de 1964. E consolidou seu nome como um dos mestres da reportagem, enfrentando a ditadura e depois, já na democracia, testando os limites de um jornalismo dominado por patrões que agem como fazendeiros da República Velha.

No último sábado, 2 de maio, o maiúsculo jornalista faleceu no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Raimundo Pereira era viúvo, deixou quatro filhas e quatro netos.

Craque de apuração e texto, repórter combativo, fundou em 1975 o famoso jornal “Movimento” – de resistência à ditadura. Trabalhou ainda na Veja e na Realidade (editora Abril), entre outras redações.

Certa vez, me contou que escondeu uma caixa de armas e munição no forro da casa em que vivia com a mulher e as filhas, no bairro da Freguesia do Ó, em São Paulo. Quando o contato dele na guerrilha foi preso (início dos anos 1970), Raimundo despejou todas as armas de uma ponte no rio Tietê.

Ele mesmo jamais entrou na luta armada. Era franzino. Lutava com as palavras. Eu disse “com” as palavras, jamais contra elas.

Mais tarde, já na abertura democrática, Raimundo fundou “Retratos do Brasil”. Lembro dele passando pelas salas de aula da Faculdade Cásper Libero, vendendo assinatura da revista de grandes reportagens, para os jovens estudantes de jornalismo, como eu… Fui assinante da Retratos do Brasil. Dividia com meu irmão uma coleção da revista, em capa dura. Parte da minha primeira formação sobre temas brasileiros veio daquelas leituras.

Em 2006, já era repórter da Globo e me aproximei mais dele, quando Raimundo apurava informações para uma reportagem, que publicaria na revista Carta Capital, mostrando que a Globo deixara de noticiar no JN um acidente com aeronave da Gol, para reservar todo o nobre espaço do telejornal a uma denúncia contra Lula (isso a três dias do primeiro turno). A internet ainda engatinhava. A matéria de capa de Raimundo foi fotocopiada e correu de mão em mão, no segundo turno de 2006.

Depois que a reportagem saiu, a Globo iniciou uma caça às bruxas interna. Fui me consultar com Raimundo, para perguntar se ele achava que eu devia pedir demissão logo. Com jeito discreto e firme de sertanejo pernambucano (nascido em Exu, em 1940), Raimundo disse a frase que pra mim virou mantra: “ao inimigo não se pede nada; nem clemência, nem muito menos demissão.”

Pouco depois, fui de fato demitido e saí de cabeça erguida. Àquela altura eu não sabia, mas tinha me formado — na prática — pela escola Raimundo Pereira de jornalismo.

Reencontrei o mestre semanas depois, num alegre almoço, organizado pelo amigo e colega Rogério Pacheco Jordão, de quem Raimundo era sogro. O veterano repórter me recebeu com sorriso cúmplice, mas contido, que hoje revisito para lembrar desse grande brasileiro.

O jornalista de formação sólida (estudou engenharia no ITA e Física na USP) era seco, econômico nas palavras faladas, mas carregava ternura no olhar.

Tivemos alguns encontros depois: na pequena e empoeirada redação da revista Reportagem (outra criação de Raimundo), na Vila Madalena, São Paulo. Ou nas ruas simpáticas de Laranjeiras, Rio de Janeiro, onde o jornalista decidiu passar os últimos anos — ainda na ativa, publicando aqui e ali suas reportagens. Teve destaque, por exemplo, ajudando a desmontar a farsa do Mensalão — com informação, descendo às minúcias dos fatos.

Uma de suas últimas grandes reportagens foi durante a pandemia. Com 80 anos, Raimundo subia o Morro do Alemão na garupa de uma moto-táxi, para apurar chacinas cometidas pela PM do Rio. Era um jornalista em movimento.

Raimundo assistiu, esperançoso mas desconfiado, o crescimento dos blogs e sites progressistas – quase todos fruto de iniciativas individuais. Numa tarde, ali por 2010 ou 2012, ele me procurou para dizer: é necessário criar um grande veículo de imprensa que não tenha patrão, e seja financiado pelos leitores, num sistema de quotas vendidas para assinantes perpétuos. Esse sempre foi o grande sonho do jornalista.

Raimundo era socialista. Foi próximo ao PCdoB, e também transitava junto à turma de Miguel Arraes e Eduardo Campos — mantendo-se fiel às raízes pernambucanas. Era um homem de esquerda, apaixonado pelo Brasil e pela ideia de desenvolvimento nacional.

Na internet, algum desavisado me perguntou logo após a morte: “afinal, ele era jornalista ou militante?” Minha resposta: Raimundo era jornalista profissional, sem nenhum prurido em assumir que tinha lado nas disputas da informação. Mas fiel aos fatos, à boa técnica de apuração e redação.

Viva Raimundo Pereira, combatente da palavra e da reportagem… E mestre maior do jornalismo de resistência!





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