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domingo, 3 maio, 2026
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A janela e a dor na metrópole

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Salvo engano da memória, eu nunca tinha sido internado por mais de uma semana num hospital durante a vida adulta. Não que eu não tenha tido alguns motivos, mas um tanto mais jovem, os ignorei. A cama com proteção, o cheiro de antisséptico e a luz fria do quarto compõem um cenário onde o tempo parece suspenso, mas lá fora ele corre com a pressa de quem tem metas a bater. O tempo passou na janela, Carolina não viu e meu ciático surtou. Dizem que é a idade, dizem que é a falta de exercício, dizem uma série de coisas enquanto você está lá, tomando remédio na veia. Mas o gotejar do soro-veneno marca os segundos de um relógio que a cidade ignora.

A tal sociedade do cansaço não nos permite parar. De muitas maneiras, aprendemos a ser algozes de nós mesmos, chicoteando nossas próprias costas em nome de algum tipo de produtividade, de sucesso, de engajamento. O corpo, essa máquina utópica-distópica, que teimamos em tratar como infinita, uma hora cobra a conta. E a conta vem em forma de dor aguda, de travamento, de um grito silencioso das vértebras que dizem: basta.

Mas da janela melancólica dos dias, às voltas com uma hérnia de disco, eu via São Paulo. De longe, a Serra da Cantareira ao norte; o Pico do Jaraguá a oeste; e, do outro lado, o sul e a Serra do Mar. A geografia imponente abraçando a selva de pedra. Cidade montada no trabalho, escravo e liberto. Cidade construída por imigrantes, italianos, nordestinos, japoneses, sírios, todos que vieram forjar o famigerado progresso com o suor de seus rostos e o desgaste de seus ossos.

Ali, prostrado, na janela, eu tentava narrar a cidade-sociedade que me lançou na vertigem delirante da metrópole. O que fazia eu ali, adoecido no rush das milhões de almas, dos milhões de carros, das milhões de dúvidas? A resposta ecoava nas paredes brancas do quarto, no bip do monitor cardíaco, no zumbido distante da avenida. Eu trabalhava…eu trabalhava…

Todos já sabemos que no capitalismo tardio, o trabalho, que deveria ser a via de emancipação, tornou-se a nossa masmorra invisível. Não batemos mais ponto, não temos mais correntes de ferro, mas estamos acorrentados aos smartphones, aos e-mails de madrugada, à culpa de não estar produzindo enquanto o outro descansa. A tristeza que me invadia não era apenas pela dor física, mas pela constatação de que minha hérnia era um troféu às avessas de um sistema que nos esmaga moendo nossos discos intervertebrais para lubrificar a engrenagem do capital.

Daquela janela, São Paulo parecia um imenso formigueiro onde cada um carrega um peso maior que si mesmo. A fumaça dos escapamentos se misturava à neblina matinal, criando um véu cinzento sobre os prédios espelhados. Eu me perguntava quantos, naqueles prédios, estavam engolindo analgésicos para suportar mais um dia. Quantos estavam ignorando a pontada na lombar, a taquicardia leve, a ansiedade latente, tudo para entregar algum tipo de relatório no prazo.

Por pouco tempo, a imobilidade forçada me devolveu algo que o produtivismo havia roubado: a capacidade de contemplar. Sem poder correr para a próxima reunião, restou-me olhar o céu mudando de cor sobre o Jaraguá. Restou-me ouvir a chuva batendo no vidro, lavando a fuligem da metrópole. Restou-me o eco constante das vozes difusas e zumbidos metálicos da metrópole: eu trabalhava! eu trabalhava! E enquanto eu trabalhava, a vida acontecia sem mim.

São Paulo vista através da rede de construção em torno do edifício Copan. Foto de João Pina. Fonte: National Geographic.





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