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segunda-feira, 13 julho, 2026
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Todas as bussolas apontam para o Norte

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Eu chamava por ti e nem bem sabia porquê.

Te via rolando em noites mal dormidas, povoada de sonhos com lugares que nunca viu; a cabeça perdida em imagens de pedra e beco, em cor e saudade.

Queria poder explicar.

Sem nem saber pra onde ia, tu vieste. Norte, dizia o teu coração.

Eu chamei, pois, sim, chamei até tu vir.

E tu chegaste, num fim de tarde entre laranjas e púrpuras tingindo de cor as pedras da calçada e cobrindo o azul que já sumia.

O ar morno rodou à sua volta, fazendo dançar a saia rodada. Subiu, rodeando teu corpo. Contornou teu rosto. Quase como uma carícia — delicada, invisível, rara. A surpresa te fez puxar o ar todo de uma vez, e ele entrou, preenchendo teus pulmões com o calor de São Luís.

Queria que todos vissem pelos meus olhos, que ouvissem a minha voz.

Ah, mas esse povo não me escuta.

Agora que tu chegaste, perguntas: “E agora, para onde vou? Onde fico?”.

Não precisa correr. Eu te guio.

Esse ar que te envolve, tão quente, quase sufocante — é meu sopro. Sinto quando te inebria, quando te embriaga com promessa de novidade. E é meu também esse gosto de caju guardado em caixa de madeira, que brota na tua boca sem nunca teres mordido a fruta. Não te espantes: eu falo contigo assim, em cheiro, em gosto, em lembrança.

Ah, menina, chegue mais perto, mas cuidado onde pisa. Estas pedras sabem mais do que o que contam.

Venha. Caminhe comigo, só não olhe pra trás.

Tudo aqui esconde segredos, alguns guardados por séculos de poeira, mas tão vivos na minha memória que poderia gritá-los se alguém me ouvisse. Agora posso te mostrar tudo, visse? Eu falei, falei baixinho. Tu não ouviu? Pois ouviu, sim.

Vou te mostrar dores, amores e terrores.

Anda por aqui, com cuidado. Onde hoje tem pedra gasta já teve sangue. 

Calma, pode respirar devagar. Não precisa se assustar, é só lembrança do passado, daquelas que podiam virar história de assombração, mas que foram esquecidas pelo tempo. Ouve teus passos, a chinela batendo nesse chão em que antes só tinha pé descalço.

Olha bem essas casas. Vês que parecem quietas, alheias a tudo? Pois não são. Estão cheias de vozes velhas, sussurros apagados pelo tempo.

Escuta melhor. Esse eco de ferro batendo não vem do nada, não. Esses murmúrios abafados que arrepiam tua pele também não são invenção da tua cabeça. É meu passado que fala e tu, menina, és a primeira em muito tempo a ouvir. Por isso, quero que tu vejas e sinta. 

Sim, aqui andaram, sofreram, choraram e morreram tantos deles. Tantos com sonhos e esperança, assim como tu, pequena. Eram correntes batendo, gritos de dor, desespero estampado no olhar. Não tem um canto de mim que não ouça esse choro. 

Não se avexe, só sinta, pra que outros possam lembrar e aprender.

Foi muito tempo guardando silêncio, égua, tempo demais assim.

Venha. Agora aqui. 

Olha só que coisa linda. Eu não sou feita só de dor, também guardo beleza, ainda que escondam cicatrizes. Esses também estão aqui há muito tempo. Azulejos cheios de cor pra embelezar e suavizar a memória da tortura. Cores pra esconder dores.

Ah, tu consegue sentir. Teus olhos brilham com encanto, mas vai com calma, num te engole na beleza, visse?

Incrível como as mesmas mãos que geraram tanta beleza também criaram tanto sofrimento, não é não?

Não fique triste, é assim que é. Ainda bem que posso dividir isso contigo.

Tem outra história que quero te contar, mas pode andar em frente. Tá cansada, não tá? Por aqui a gente encontra onde tu vai ficar.

À noite, menina, sou outra. Tem umas que me visto de festa, e sigo vagando entre o som dos tambores. Amo essas noites de música e sorrisos, e corpos suados da dança. Tem outras que o céu escuro traz muitas agonias. 

Hoje é uma dessas. Já consegues sentir? O ar muda. Olha como fica pesado. As noites guardam tantos segredos. Quando o sol se apaga e a brisa arrefece é quando as memórias se desprendem, como sombras. Aí, sim, aparecem os que não descansam.

Hoje é quinta-feira… pois, sim, dia de assombro certo. Então temos que nos apressar. Quando ficar escuro, ela vai aparecer pra te assombrar. Ou será que ia gostar de ti?

Minha noite sempre foi refúgio de amantes escondidos, de beijos suspensos, de suspiros contidos, mas também é a hora preferida de Donana passear.

Aqui, todo mundo sabe quem ela foi. O que se esquecem é que ela sofreu de amor e isso fez dela a mulher forte que se tornou. Ninguém gostava de mulher forte. Ainda não gostam, pois não?

Por isso ela passa por aqui, bem nessa ruinha. Vem dentro do coche, espreitando pela janela. É uma imagem forte de se ver. Reta e altiva como uma rainha. A rainha do Maranhão no tempo em que mulher nem podia olhar pro lado. Ela era malvista, pois, sim, era. Mas era uma mulher à frente de seu tempo. Vem com um homem sem cabeça. E os cavalos? Também sem cabeça. Será que só ela pode continuar vendo o que quer?

Até em sua pele de fantasma, a mulher continua mandando.

Ela anda por aqui pra que não se esqueçam de dar valor ao que uma mulher pode se tornar. Assim, como tu, que pode ser o que quiser. Ela vestia a mesma coragem que tu. Como não reconhecer? Não é qualquer um que vem me encontrar.

Não corre. Sei que tu não vai querer ver isso, pequena.

Se acalme, estamos chegando.

É aqui que te deixo. Essa casa linda vai te receber.

Te chamei porque só tu poderia me ouvir minhas dores, guardar meus segredos e minhas belezas no coração. Teus sonhos me acharam, tua sensibilidade me abriu a porta, e eu assim, abri as minhas.

Sou eu, menina, São Luís de pedra e vento, de beco e azulejo, de muro pintado de sal, de tambor e assombração. Fique quanto quiser, mas enquanto aqui estiver e teus pés pisarem essas pedras, vou falar contigo.

Até que tu partas. Ou até que eu me cale outra vez.

Agora tu sabe quem eu sou.

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