
Toda noite de Yaci era assim.
Guaraci vinha e arrastava a canoa, resmungando. Assoviava uma, duas melodias. Falava com a lua e saía de novo, puxando a canoa e claro, resmungando de panema.
Noite de lua não era noite de peixe. Ele já devia saber disso, mas sempre voltava.
E eu aqui, esperando.
Essa noite foi diferente. Depois de se aborrecer de tanto esperar por peixe, puxou a canoa e se sentou na margem do rio. Sacou uma garrafa de Caxiri pela metade e bebeu tudo de um gole só.
Foi questão de minuto e meio para ele notar o meu brilho, só uma casquinha, entre o barro fosco da margem.
Me agitei de esperança, o coração duro e frio quase batendo no peito. Quase.
Pé ante pé como quem não sabe o que vê, ele veio até mim. Me segurou com o cuidado de quem segura um tesouro — gostei disso — e me banhou na água de lua.
— Vixe , mas tu és bonita pedra. Brilha até mais que olho de jacaré no escuro.
“Eu não sou só pedra. Sou memória de lua.”
— Ave Maria…quem foi que falou isso? Tem gente aí?
“Aqui. Na sua mão. Você me ouviu porque me reconheceu.”
— Cruz credo! Isso é coisa do fundo! Eu tô ficando é doido…Falando com pedra agora. Deve ser é fome ou o Caxiri, sei lá.
“Não, homem do rio. Preciso voltar pro Yaci-Uaruá. Já levo muito tempo esperando. Me leve, antes que seja tarde.”
Ele coçou a barba, desconfiado, com um ar de quem escuta história de assombração.
— Tu falas de lago? Eu nem sei pra onde tu queres ir criatura. E se o povo me vê conversando contigo vão dizer que fui pego pelo boto! Mas espera, pode isso? Boto pega homem?
Eu quase ri. Quase.
“Se não me levar, tua alma vai secar como igarapé na seca.”
Ele arregalou os olhos e me apertou, para se certificar que eu tava ali, que não era miragem nem conversa de pescador.
— Eita que tu tás viva mesmo, né? Pois me diga o caminho então, mas se eu morrer de medo, a culpa vai ser tua!
“Melhor morrer de medo que morrer seco. Anda logo, homem do rio”
Guaraci entrou na canoa. Uma mão me segurava com força, a outra tentou alcançar o remo, mas, assim que pegou, logo largou. Não precisava dele. O caminho estava escolhido. Não teria vento de ventania, tronco caído ou jacaré de olho brilhante que ia nos desviar de ir embora rio abaixo.
O homem do rio afrouxou a mão, olhando pra mim com a boca aberta e olhos de espanto. Fez um sinal da boca para o peito três vezes, se ajeitou na canoa e estreitou os olhos para enxergar melhor na escuridão.
Eu quase suspirei. Quase.
O rio, que era uma serpente de água corrente, se afunilou, a mata fechou, bloqueando espaço e tempo.
“Não olhe pra trás, homem do rio”
Nem Yaci mudou, nem o dia clareou, nem Guaraci se mexeu. Era como se ele tivesse virado estátua. O céu virou planta, a água virou capa de estrelas, o silêncio dominou corpo de carne e corpo de pedra. Se eu fosse o homem teria morrido de susto, não de secura.
A canoa encalhou numa beira de mato. Ele piscou, uma, duas vezes.
— É aqui, pedra?
O canto das minhas irmãs vibrou em mim.
“Você não está ouvindo, homem?”
— Ouvindo o quê? Tô ouvindo é nada faz tempo. Fique de arara virada não, que tô é lhe fazendo um favor.
Puxei pela mão dele e ele veio. Meio bêbado, meio curioso. Saiu da canoa e passou a mão livre pela água para molhar o rosto. Quando olhou para a mão molhada, ia tendo um piripaque.
Soltou um grito e quase me deixou cair. O rosto pingava um vermelho sangue, a mão reluzia o carmesim da tinta de urucum e aí eu tive a certeza.
“Estamos perto. Não se preocupe que não é ferida. É só ilusão de memória.”
Ele engoliu em seco, mas não respondeu.
O som que antes estava fraco, aumentou de força e volume. Minhas irmãs brindavam minha volta.
Guaraci avançou, uma mão apertada, a outra cobrindo o ouvido.
O lago se banhou de prata, quando Yaci pairou, majestosa, sobre nós. Os vultos das guerreiras guardiãs brilhavam, etéreos e eternos, meio submersos no Yaci-Uaruá enquanto moldavam o barro verde.
“Tá vendo isso, homem do rio? É tempo de renascer. Elas me esperam para moldar, de novo, corpo e lenda. Vamos, me deixe descer.”
Ele caminhou, entrando na água até à cintura. Meu corpo rochoso se agitou e então, muito devagar, ele abriu a mão. O contato com a água criou um redemoinho de luz prateada e gotas verdes e tinta de guerra.
Éramos todas barro, pedra, talismã. Eu voltei a ser rã e Guaraci, se o Caxiri deixasse, tinha uma bela história de pescador para contar.



