Por Ranieri Costa
Aos 31 anos, o mineiro de Governador Valadares Raphael Abdalla rompeu um hiato histórico que durava quase oito décadas. Desde 1948, quando Rubens Lopes assumiu a presidência da Convenção Batista Brasileira (CBB) aos 34 anos, a denominação não entregava seu cajado a alguém tão jovem. Eleito para o biênio 2026-2028, Abdalla agora lidera um gigante estatístico: 14.092 locais de culto e 1.813.621 membros espalhados pelo território nacional. “Em 118 anos de fundação da Convenção Batista Brasileira, tivemos 27 presidentes, dos quais apenas 6 com menos de 35 anos”, destaca ele.
Mas a juventude de Abdalla não é apenas um dado cronológico; é o epicentro de uma disputa de narrativas sobre o futuro do protestantismo histórico no Brasil. Enquanto ele define sua chegada como um sinal de “continuidade com atualização” para preservar fundamentos, críticos apontam para uma estratégia de manutenção de poder da ala mais conservadora da igreja.
A trajetória de Raphael Abdalla é marcada, como ele mesmo explica, por uma maturidade forjada na escassez. Filho de uma família que enfrentou falência financeira grave e adicções, cresceu cuidando do pai tetraplégico, falecido precocemente aos 44 anos. “Fui o primeiro da família a abraçar a fé cristã”, revela o pastor.
Formado em Direito pela UFES e em Teologia pelo Cetebes (Centro de Educação Teológica Batista do ES), com MBA em Liderança pela PUC-RS, Abdalla não é um novato na gestão. À frente da Primeira Igreja Batista (PIB) em Guarapari desde 2018, ele transformou o templo em um centro de serviço social. Através do projeto “Redes de Voluntários”, a igreja já prestou mais de 14 mil atendimentos, de odontologia a psicologia. “A igreja aderiu à ideia. No primeiro mutirão me emocionei quando entrei no banheiro e estavam lá o limpando dois membros da igreja de realidades econômicas bem distantes, porém unidos na missão.”, conta.
Entre o Senado e o The Send
A visibilidade de Abdalla transcende os púlpitos. Suas redes sociais registram passagens pela tribuna do Senado Federal e da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Mais recentemente, em outubro de 2025, o pastor esteve em Israel em audiência com o presidente Isaac Herzog.
Sua participação no The Send – evento que reuniu milhares em estádios brasileiros, mas foi criticado pela presença de figuras políticas como Silas Malafaia e Deltan Dallagnol – é vista por ele como um despertar missionário. “Valorizo qualquer movimento que desperte vocação. O The Send consegue unir a pluralidade da igreja evangélica brasileira”, afirma Abdalla, ignorando as críticas de instrumentalização política do evento.
Questionado sobre a relação com o Estado de Israel, ele diferencia a teologia da geopolítica: “O Israel bíblico é uma categoria teológica; o Estado moderno é uma realidade política. Minha postura é pastoral e humana: lamentar mortes, condenar atrocidades, pedir cessar de violência, proteção de civis, libertação de reféns e caminhos reais de paz. Não há vencedores em uma guerra. Na publicação que fiz em minhas redes sociais sobre o encontro com o presidente Hergoz, eu escrevi: expressamos nossa oração por Israel e também pelo povo palestino, pois à luz da Bíblia, reconhecemos o valor inegociável de toda vida humana.”
A ascensão de uma liderança tão jovem, porém, não é isenta de questionamentos. Para o pastor Edvar Gimenes de Oliveira, da Primeira Igreja Batista em Casa Forte (Recife), há uma “nuvem de apreensão”. Gimenes critica o processo eleitoral, sugerindo que a máquina da Convenção foi usada para promover Abdalla antes do pleito, o que seria, segundo ele, imoral.
“O cargo que era visto como uma oportunidade de serviço, agora passou a ser visto como um espaço de poder e controle eleitoral para se manter o povo batista afinado a uma ideologia: a da extrema direita, inspirada na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos”, dispara Edvar.
O crítico aponta o alinhamento de Abdalla com grupos como a Lifeshape Brasil e sua participação no evento Consciência Cristã, em Campina Grande, como sinais de uma agenda política subjacente. “A esperança, porém, é que ele não aja como alguns ex-presidentes e consiga respeitar a democracia batista, evitando o uso do cargo, direta ou indiretamente, para envolver a CBB no processo eleitoral”, completa o pastor pernambucano.

A neutralidade à prova: o ano eleitoral de 2026
Ciente das tensões, Raphael Abdalla tenta blindar sua imagem institucional. Embora seja classificado pelos críticos como um pastor de posições pessoais e políticas conservadoras, ele garante que a neutralidade será a marca de sua presidência. “Enquanto presidente da denominação, não fiz e nem farei apoio nominal a candidatos. Te asseguro que não haverá manifestação”, afirma categoricamente.
Sobre temas espinhosos como a ordenação feminina – ponto de discórdia entre os batistas –, Abdalla mantém a diplomacia baseada na estrutura da denominação. Ele explica que, devido à autonomia da igreja local, os batistas convivem com práticas diferentes e que, historicamente, a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) “delegou a cada seção estadual a deliberação quanto ao ingresso de mulheres ao ministério pastoral”. Segundo o pastor, a OPBB reconhece as pastoras nos estados onde o tema foi aprovado, destacando inclusive que a última diretoria da Ordem contou com a participação de duas mulheres.
Abdalla recusa rótulos simplistas. Embora próximo de expoentes do calvinismo brasileiro, como Hernandes Dias Lopes e Augustus Nicodemus – ambos presbiterianos –, ele se define apenas como um “Batista comprometido com as Escrituras”. Sobre as teologias contemporâneas, como a do Domínio ou a da Prosperidade, ele é sucinto: subscreve a Declaração Doutrinária da CBB e foca no que chama de “fidelidade bíblica”.
Aos jovens que o veem como uma janela de representatividade, ele deixa um recado focado na espiritualidade clássica: “Busquem vida com Deus no secreto, amem a igreja local, estudem a Bíblia com seriedade e mantenham o coração ensinável”.
Se a gestão de Raphael Abdalla será o início de uma nova era de oxigenação institucional ou apenas a face jovial de um conservadorismo tradicionalista, os próximos dois anos dirão. Por ora, ele caminha entre a diplomacia política e o fervor missionário, tentando provar que, para os batistas, o comando pode até ter rosto jovem, mas a direção deve ser, acima de tudo, histórica.



