26.3 C
Manaus
quinta-feira, 14 maio, 2026
InícioBrasilPL se divide sobre Ciro Nogueira após operação da PF

PL se divide sobre Ciro Nogueira após operação da PF

Date:


Por Cleber Lourenço

Quase uma semana após a operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) no âmbito do Caso Master, o bolsonarismo ainda não conseguiu definir uma posição única sobre como lidar politicamente com um de seus principais aliados no Centrão.

As declarações dadas nos últimos dias por figuras centrais do PL e da oposição mostram um cenário de desconforto, contenção de danos e divergência estratégica dentro do próprio campo bolsonarista. Enquanto parte do grupo tenta preservar a relação com o PP pensando na eleição de 2026 e na estrutura partidária do Centrão, outra ala já começa a construir um discurso de afastamento político e até ideológico do senador piauiense.

O movimento mais evidente de contenção veio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que buscou reduzir qualquer associação direta entre sua imagem e o caso após a operação da PF.

Flávio afirmou que “não é porque as pessoas têm proximidade comigo que eu vou responder pelos atos delas” e também declarou que “querem me vincular ao Ciro Nogueira, mas o Banco Master é do Lula”. Nos bastidores de Brasília, as falas foram interpretadas como uma tentativa de blindagem política e eleitoral diante do desgaste provocado pela investigação.

A reação, porém, gerou desconforto em setores do Centrão e do próprio PL, principalmente porque Ciro vinha sendo tratado até recentemente como um dos principais nomes para compor uma eventual chapa presidencial ligada ao bolsonarismo em 2026.

Diante da repercussão, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, entrou em campo para tentar conter o desgaste da relação com o PP.

Em entrevista à CNN nesta terça-feira (12), Valdemar afirmou:

“Ainda queremos Ciro Nogueira no palanque de Flávio.”

A declaração foi interpretada em Brasília como um recado direto de que o partido não pretende abandonar o senador piauiense, apesar da operação da PF e do desgaste provocado pelo avanço do Caso Master.

O mesmo discurso de preservação da aliança apareceu nas declarações do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ).

Questionado pelo ICL Notícias sobre os impactos políticos da operação envolvendo Ciro, Sóstenes afirmou que “CPF não tem nada a ver com CNPJ” e reforçou que o partido pretende manter a aproximação política com o PP.

“Vamos continuar caminhando com a Federação”, declarou.

Ao ser perguntado se o PL ainda trabalha pela construção de uma federação com o PP, respondeu:

“Ainda não, mas queremos eles juntos conosco.”

Em seguida, completou:

“Jamais.”

A resposta foi dada após ser questionado se a hipótese de federação estaria descartada.

As declarações mostram que a cúpula partidária do PL trabalha para preservar a relação com o PP apesar do desgaste causado pelo Caso Master.

Mas nem todos os setores do bolsonarismo seguem a mesma linha.

O líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), adotou um discurso diferente e foi além da simples defesa de coerência institucional. Em vez de apenas evitar blindar Ciro, o parlamentar começou a construir uma separação explícita entre o senador piauiense e o núcleo ideológico da direita bolsonarista.

Ao comentar a operação da PF, Cabo Gilberto afirmou ao ICL Notícias:

“A operação contra o senador? Totalmente normal. Da nossa parte, quem errou que pague. A gente não vai esconder o que quer que seja.”

Na sequência, fez uma declaração que chamou atenção:

“Até agora ninguém de direita foi envolvido no Banco Master. Até agora.”

Questionado se estaria querendo dizer que Ciro Nogueira não seria de direita, respondeu de maneira direta:

“Exatamente.”

O deputado então passou a resgatar episódios antigos da trajetória política de Ciro e afirmou que o senador seria alguém de centro.

“Isso são fatos da história. Ele apoiou Haddad em 2018. Chamou Bolsonaro de fascista.”

Cabo Gilberto ainda afirmou que o bolsonarismo não pode abandonar o discurso de combate à corrupção dependendo de quem seja investigado.

“A gente não pode estar defendendo uma coisa e na hora que acontece defender outra. Sem coerência, a gente tem que manter a coerência.”

As declarações passaram a expor uma divisão e certa desorganização dentro do próprio bolsonarismo sobre como reagir ao avanço do Caso Master e sobre qual deve ser o tratamento político dado a Ciro Nogueira neste momento.

Na prática, as declarações revelam hoje pelo menos três movimentos diferentes dentro do entorno bolsonarista.

O primeiro é o de contenção de danos, representado por Flávio Bolsonaro, que tenta reduzir o impacto eleitoral da associação com o Caso Master.

O segundo é o pragmatismo partidário de Valdemar Costa Neto e Sóstenes Cavalcante, que trabalham para preservar a relação com o PP pensando na estrutura política de 2026, no tempo de televisão e na força do Centrão.

O terceiro é o movimento ideológico representado por Cabo Gilberto, que tenta construir a narrativa de que Ciro nunca pertenceu de fato ao núcleo da direita bolsonarista.

Nos bastidores, parlamentares do PL admitem reservadamente que o Caso Master criou um problema político delicado para o grupo. A avaliação interna é de que, mesmo que Flávio Bolsonaro eventualmente consiga viabilizar uma candidatura competitiva sem Ciro Nogueira, dificilmente conseguiria governar sem o apoio do senador e da estrutura política construída pelo Centrão.

Aliados lembram, em caráter reservado, do próprio governo Jair Bolsonaro, que após sucessivas crises políticas acabou entregando a Casa Civil a Ciro Nogueira em 2021 numa tentativa de estabilizar a articulação política e reduzir riscos de impeachment.

Na época, Bolsonaro chegou a declarar publicamente que estava entregando “a alma do governo” ao senador do PP. A nomeação marcou também o fortalecimento do Centrão dentro do Palácio do Planalto, incluindo a ampliação do controle político sobre emendas parlamentares e a articulação no Congresso.

A lembrança do episódio hoje circula dentro do PL como demonstração prática da dependência política que governos de direita acabam desenvolvendo em relação ao Centrão, especialmente em cenários de tensão institucional e fragilidade parlamentar.

O senador piauiense era tratado até recentemente como um dos principais aliados do bolsonarismo no Congresso e chegou a ser apontado como nome forte para compor uma eventual chapa presidencial ligada ao campo conservador em 2026.

Agora, diante do avanço da investigação, parte dos aliados tenta reduzir a proximidade pública enquanto outra atua para impedir um rompimento definitivo.

A dificuldade do bolsonarismo em encontrar uma posição única sobre Ciro Nogueira revela o tamanho do impacto político provocado pela operação da Polícia Federal.





ICL Notícias

spot_img
spot_img