A Agência Internacional de Energia (AIE) discute a possibilidade de liberar entre 300 milhões e 400 milhões de barris de petróleo de reservas estratégicas, em uma intervenção que pode se tornar a maior já coordenada pela instituição. A decisão pode ser tomada ainda nesta quarta-feira (11), segundo informações da agência Bloomberg.
Com sede em Paris, a agência coordena ações conjuntas entre países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para estabilizar o mercado energético em momentos de crise. A proposta surge como resposta direta à escalada das tensões no Oriente Médio e ao impacto da guerra sobre o fluxo de petróleo.
A medida está sendo discutida também entre os líderes do G7 (as sete nações mais ricas do mundo). O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, afirmou que os países já manifestaram apoio, em princípio, a “medidas proativas”, incluindo o uso de reservas estratégicas — embora ainda sem detalhes sobre o volume final da intervenção.
Caso confirmada, a operação superaria o recorde anterior, quando membros da AIE liberaram 182 milhões de barris em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Guerra e choque nos preços
A pressão sobre o mercado global de energia se intensificou com o agravamento da guerra no Oriente Médio e a interrupção quase total do tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o comércio de energia.
Na segunda-feira passada, o petróleo negociado em Londres chegou a se aproximar de US$ 120 por barril, refletindo o temor de um choque severo de oferta. Desde então, os preços recuaram parcialmente, influenciados pela expectativa de que governos recorram às reservas de emergência.
Na manhã desta quarta-feira, o barril do Brent crude oil era negociado a US$ 90,60, com alta de 3,19%, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) subia 3,59%, cotado a US$ 86,45.
Cortes de produção e gargalos logísticos
Ao mesmo tempo em que consumidores buscam ampliar a oferta emergencial, alguns grandes produtores aprofundam restrições na produção. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque já reduziram volumes que equivalem a cerca de 6% da produção global.
A situação se agravou após os Emirados suspenderem operações na Ruwais Refinery, a maior refinaria do país, depois de um ataque de drone na região.
Além disso, o bloqueio no Estreito de Ormuz criou um paradoxo logístico: enquanto o petróleo deixa de chegar aos mercados consumidores, os tanques de armazenamento no Golfo Pérsico começam a se encher por falta de rotas de exportação.
Limites das reservas estratégicas
Mesmo com uma liberação recorde, analistas questionam se os estoques emergenciais seriam suficientes para compensar a perda de oferta.
Segundo estimativas da Citigroup, entre 11 milhões e 16 milhões de barris por dia do Golfo Pérsico podem estar sendo retirados do mercado devido às interrupções logísticas e aos cortes de produção.
A principal reserva do mundo, a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos, tem capacidade máxima de retirada de 4,4 milhões de barris por dia, de acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos. Mesmo assim, o petróleo leva cerca de 13 dias para chegar ao mercado após uma decisão presidencial.
Um instrumento usado apenas em crises
Desde sua criação, a AIE coordenou apenas cinco intervenções desse tipo, incluindo a preparação para a Guerra do Golfo de 1991, os impactos dos furacões Furacão Katrina e Furacão Rita em 2005, a guerra civil na Líbia em 2011 e duas liberações em 2022 relacionadas à guerra na Ucrânia.
Atualmente, os 32 membros da AIE mantêm mais de 1,2 bilhão de barris em reservas públicas de emergência, além de cerca de 600 milhões de barris adicionais em estoques industriais sob obrigação governamental.



