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Ando matutando que a sabedoria de Ifá – o corpo literário que condensa em 256 odus (signos) o sofisticado e amplo repertório filosófico do culto ancestral aos orixás – previu a internet, os dilemas que envolvem redes sociais, os usos da inteligência artificial etc. Exemplifico.
Diz um itan (narrativa) de Ifá que Ossain, o orixá que conhece os segredos das plantas, guardou as folhas curadoras da floresta numa cabaça, que pendurou no galho de uma árvore. Ao fazer isso, Ossain despertou a curiosidade dos orixás, desejosos de ter o poder da cura que cada folha apresenta.
Para saber o que Ossain guardava na cabaça , Iansã chamou o vento, elemento que comanda. A ventania derrubou o galho da árvore, quebrando a cabaça e espalhando as plantas pela floresta. Os orixás começaram a correr e recolher as folhas.
Exu pegou o abéré, que nós chamamos de picão. Ogum pegou o ewé-lorogún (abre-caminho) e o peregun (pau-de-água). Oxalá pegou o odundum (saião) e o jimi (língua-de-vaca), capaz de curar problemas de pele com o seu chá. Oxossi catou o koriko-oba (capim-limão) e o kaneri (carqueja). Iansã pegou as folhas do agbolá (fedegoso). Oxum, a senhora dos rios e do amor, ficou com o ododo iyéiyé, a flor do girassol. Como protege as crianças, Oxum pegou também o àrusò, a alfazema, que cura as febres dos bebês. Obaluaiê escolheu o àpèjebi, que nós chamamos de rabujo. Com essa folha, ele cura a asma e as picadas de cobra.
Cada orixá escolheu as suas plantas, folhas e flores.
Havia, porém, um problema. A planta só se transforma em remédio se for despertada pelas sassanhas – as cantigas que acordam as folhas. Apenas Ossain sabia entoá-las. O encantamento pelo verbo é capaz de dotar a folha do poder da cura. O canto errado, porém, transforma em veneno o que era para ser o bálsamo. O que cura vira desencanto e pode matar.
Veneno e remédio são irmãos que moram na mesma folha – essa é a lição de Ossain. De certo modo, é o que ocorre nos avanços tecnológicos e nas redes que andam a nos conectar difundindo beleza, saber, ignorância, aflição e ódio.
Veneno e remédio.
O pensamento ancestral – lembremos disso – é contemporâneo; ele sempre fala sobre os nossos dias.
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