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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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‘Operação Roque’ prende quatro advogados suspeitos de ligação com o Comando Vermelho em Manaus

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A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Amazonas (Ficco/AM) prendeu, nesta quinta-feira (6), quatro advogados suspeitos de colaborar com o Comando Vermelho (CV) dentro do sistema prisional de Manaus. A ação, batizada de Operação Roque, também cumpriu cinco mandados de busca e apreensão em residências e escritórios ligados aos investigados, que teriam facilitado a comunicação entre líderes presos e integrantes da facção fora das penitenciárias.

De acordo com a Polícia Federal (PF), a investigação aponta que os profissionais usavam as prerrogativas da advocacia para intermediar comunicações ilícitas, permitindo que ordens criminosas fossem transmitidas e executadas de forma coordenada dentro e fora do estado.

Comunicação ilegal travestida de advocacia

Segundo nota divulgada pela PF, “durante as investigações, apurou-se que profissionais com acesso privilegiado ao sistema prisional vinham replicando ordens, bilhetes e deliberações estratégicas de uma facção com atuação predominante na Região Norte, simulando atos de advocacia para ocultar comunicações ilícitas e repasses financeiros”.

A corporação afirmou ainda que “as prerrogativas profissionais desses advogados estavam sendo utilizadas de forma indevida, com o objetivo de manter a hierarquia da organização criminosa dentro e fora do sistema prisional”.

As ações da PF resultaram na apreensão de equipamentos eletrônicos, mídias digitais, documentos e valores em espécie, que serão submetidos à perícia. Os materiais recolhidos poderão servir de base para novos desdobramentos da investigação.

Ligação com operações anteriores

A Operação Roque é um desdobramento direto da Operação Xeque-Mate, deflagrada pela PF em outubro deste ano. Na ocasião, os investigadores focaram em um esquema de lavagem de dinheiro do Comando Vermelho que contava com a participação de contadores e empresários.

Um dos mandados de busca desta quinta-feira foi cumprido justamente no escritório de um contador investigado na Xeque-Mate, reforçando a hipótese de interconexão entre os núcleos financeiro e jurídico do grupo criminoso.

A Operação Xeque-Mate, por sua vez, teve origem na Operação Torre, deflagrada em 2024. Essa operação identificou o proprietário de parte de um carregamento de mais de duas toneladas de drogas apreendido em Manaus. Na época, a PF revelou que o grupo utilizava um “complexo esquema financeiro envolvendo fintechs, empresas de fachada e estruturas paralelas de pagamento” para disfarçar os lucros ilícitos.

Estrutura integrada de combate ao crime

A Ficco/AM, responsável pela ação, é composta por diversos órgãos de segurança pública, incluindo a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, as polícias Civil e Militar do Amazonas, e secretarias estaduais e municipais de segurança, inteligência e administração penitenciária.

A integração entre as forças tem sido apontada como um modelo de enfrentamento ao crime organizado, especialmente em regiões onde o poder das facções é mais disseminado.

Em nota, a PF destacou que a atuação dos advogados investigados reforça o desafio de combater o uso indevido de prerrogativas profissionais para a prática de crimes. O órgão informou ainda que novas fases da operação não estão descartadas, uma vez que as análises periciais dos materiais apreendidos poderão revelar novas ramificações da rede criminosa.

Expansão nacional da facção

Embora o Comando Vermelho tenha origem no Rio de Janeiro, a Polícia Federal ressalta que a facção tem expandido sua atuação de forma cada vez mais abrangente, alcançando o Norte e outras regiões do país. No Amazonas, o grupo disputa espaço com outras organizações criminosas e mantém forte influência nas penitenciárias locais.

A estratégia de infiltração em diferentes áreas — jurídica, financeira e logística — tem sido utilizada para garantir o fluxo de comunicação e o controle das ações criminosas, mesmo após a prisão de líderes da facção.

Investigação deve avançar sobre outros profissionais

Os investigadores acreditam que outros advogados e contadores possam estar envolvidos na rede de apoio ao CV. A PF pretende aprofundar as análises sobre transações financeiras suspeitas e registros de visitas prisionais, buscando identificar a extensão da atuação dos profissionais.

As prisões preventivas foram decretadas pela Justiça Federal com base em provas que indicam uso indevido da atividade advocatícia para o cometimento de crimes de associação criminosa e lavagem de dinheiro.

O nome “Operação Roque” faz referência a uma peça do xadrez que protege o rei — uma alusão à função dos advogados de proteger líderes da facção enquanto davam sustentação às operações criminosas externas.

Impacto e próximos passos

As prisões desta quinta-feira representam um novo golpe contra a estrutura do Comando Vermelho na região Norte. A expectativa da PF é de que a operação cause desarticulação temporária das comunicações internas do grupo e reduza sua capacidade de coordenação interestadual.

Os suspeitos detidos foram conduzidos à Superintendência Regional da Polícia Federal em Manaus e devem responder por crimes previstos na Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013), além de possíveis infrações ético-disciplinares junto à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

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