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sábado, 7 março, 2026

O tempo e o tento

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O senhor Firmino Ventura estava determinado a tirar a própria vida. Numa mão segurava uma faca de pesca amolada, própria para limpar e ticar peixe; na outra, segurava um velho relógio de bolso, de prata gasta, há muito sem polimento.

Não havia sido tarefa fácil chegar até ali, enquanto caminhava na direção da antiga casa de farinha, ele sentiu uma forte câimbra na panturrilha esquerda, porém, seu propósito era claro, sua força de vontade pesou mais que os noventa e um anos que foi obrigado a suportar sozinho.

Com passos de quem mal se aguenta de pé, avançou até a segurança do tronco firme de tento-amarelo, onde recostou o corpo decrépito. A árvore, enterrada próxima do rio, encontrava-se em período de floração, havia salpicado o chão com suas sementes, ovaladas e achatadas. Um tapete amarelo de sementes. Era belo demais para quem exigia pouco da vida.

O dia já se recolhia, as luzes laranjas do sol esvaiam-se aos poucos, o céu cedia gradativamente seu tom azul-claro para um anil com estrelas, os pássaros não mais trinavam, e a noite ameaçava ser fria. Ofegante, lamentou:

— É meu amigo, você já me viu em dias melhores.

Há oitenta anos, ele e seu melhor amigo, enterraram a semente que germinou e deu origem aquela árvore, que brotou na frente da casa de torrar mandioca.

Ficava perto do rio, pois assim funciona a lógica da produção de farinha, sempre próxima das águas, levando em conta o tempo que a mandioca precisa ficar de molho para facilitar o descascar e ralar.

Firmino sorriu. As lembranças que o levaram até ali eram a razão pela qual decidira ser responsável pelo próprio fim. Eram lembranças tão antigas que podiam ser confundidas com histórias assustadoras de pescador para fazer criança danada dormir mais cedo.

Na juventude, quando o avô decretou que ele era homem o bastante para pegar numa enxada, ensinou-o a plantar mandioca, colher, pôr de molho, descascar, ralar e,  por fim, torrar num grande tacho de ferro sobre a lenha abrasiva. No interior não se tinha muito o que esperar da vida, afinal, o mundo começava na beira do rio e acabava nas margens da floresta. Aprender a fazer farinha era ofício para não morrer de fome.

O neto pediu permissão para levar o melhor amigo junto. Firmino e Matias eram inseparáveis; quando um tomava sereno, o outro espirrava. Na época eram curumins sapecas, espevitados e atrevidos; mais aprontaram estripulias do que ajudavam o avô. Disputavam quem pescava mais, quem remava melhor, quem conseguia prender o fôlego por mais tempo debaixo da água.

O tempo os fez crescer, junto com o tento-amarelo que haviam plantado juntos. Aquela árvore era especial, quase uma amiga, uma confidente. Foi na frente dela que seu avô ensinou Firmino e Matias a fazer farinha, quando a doçura da infância foi sendo gradativamente substituída pela dureza da vida adulta. Eles gostavam de deitar na sombra frondosa da árvore, jogando conversa fora, salivando o azedume do fruto do mari-mari.

O tento-amarelo testemunhou o dia em que Firmino tomou coragem para se declarar para seu melhor amigo. Em um mundo de brutalidade, onde o afeto era reservado somente para mulheres, Matias tomou a atitude mais inesperada e beijou-o. Um gesto delicado e firme, como quem tivesse ânsia por ouvir aquelas palavras de confissão. Tirou as roupas de Firmino, e, sem convite, explorou cada centímetro de seu corpo com os lábios e um toque de grossas mãos calejadas de trabalho.

Firmino compreendeu um significado de homem diferente do que o avô desejava para ele. De corpos suados, com o prazer alcançado, deixou-se ser conduzido para o peito de Matias, onde conseguia ouvir seu coração. Nada jamais voltou a ser como aquele momento. Ousou sonhar em ter uma vida ao lado dele, uma projeção de felicidade tão mais próxima de um delírio do que da realidade.

Outros dias como aquele tornaram a se repetir até o amor se tornar vício. Matias era ousado quando estava somente na presença do tento-amarelo, entretanto, mantinha distância e sustentava uma indiferença quase cruel na presença de outrem. Casou-se e teve filhos, passou a viver uma felicidade silenciosa, reclusa e natural.  A vida pacata era um disfarce, para o qual Firmino jamais se prestou.

Firmino preferia uma vida solitária a viver de aparências.

A vida nunca pede permissão para arrancar algo que sustenta o que se é. Quando a notícia da morte de Matias chegou ao seu ouvido, Firmino chorou ao lado do tento — a única testemunha dos momentos mais felizes de sua vida. As lágrimas foram por um amor que nunca pode viver em plenitude.

Foi no ínterim do seu sofrimento que conheceu o Mascate, o homem de sorriso faceiro e bigodes penteados, que vendeu para ele o relógio a preço de sucata, alertando que o objeto era uma benção e um tormento.

Na mesma noite, quando deu corda no relógio, adormeceu. Firmino se viu voltar para os dias mais felizes de sua vida, naquela casa de farinha, debaixo do tento-amarelo, à beira do rio, com seu melhor amigo e seu amor secreto. Sonhou que era jovem, voltou para os dias despreocupados, de amor e ternura, do único amor.

Um amor que pôde apenas saborear breves momentos de prazer e alegria, nada capaz de satisfazer sua crua necessidade, do tanto que amava e desejava Matias. Poucas coisas são tão amargas quanto um amor que tinha tudo para ser vivido, um amor que cometeu o erro de surgir no tempo e no lugar errado.

Noite após noite, Firmino voltava os ponteiros do relógio no sentido anti-horário, apenas para retornar em seus sonhos para os dias da juventude. No princípio, era uma alegria, mas o Mascate não mentira, tão breve virou um tormento. Embriagado pelo saudosismo, retornou para o pé de tento-amarelo, o relógio numa mão e a faca na outra. O dia partira por inteiro. Uma última vez, retrocedeu com os ponteiros e garantiu a si mesmo um sono do qual jamais acordaria.

Sonhou que era jovem, num tempo onde a vergonha não mais existia.

Somente Matias e ele.

 

Autor: Eber Bentes.

Revisão: Deuziane Sackamulth

Imagem: Alexander Bermudez

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