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segunda-feira, 9 fevereiro, 2026
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Deixai descansar os mortos

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Eber Bentes

O aroma marcante da colônia de alfazema inundava a casa, indicando que sua esposa acordara cedo e já estava de banho tomado. Ele ergueu-se da cama indo de encontro à cozinha e de uma esposa com cara amarrada.

Quando viu o marido, Célia pegou os canecos de alumínio emborcados no jirau e pôs à mesa com demasiada falta de sutileza, descarregando sua raiva na louça. Então voltou-se para a panela de alumínio, delicadamente revestida de sabão pelo lado de fora para não pretejar, e mexeu o café que borbulhava no interior.

Osvaldo, a razão da birra da esposa, desejou um bom dia sem esperar resposta. Apesar disso, obteve em troca um olhar colérico. Ele colocou o vasilhame de barro com os pães sobre a mesa, a faca de inox e a lata de manteiga aberta, cará-roxo cozido, e beiju de massa lavada, o preferido de Célia.

Célia coou o café, serviu os canecos e puxou a cadeira com brusquidão para sentar. Osvaldo esboçou um sorriso acanhado, contendo a graça, pois sabia que a raiva era preocupação, e o silêncio, protesto contra o que ele planejava fazer. Ele aguardou Célia quebrar o desjejum com o café e os pães, enquanto ela mastigava o beiju de massa lavada com manteiga, Osvaldo rompeu a guerra silenciosa dizendo:

— Essa noite vou com a Jerusa ter no lago.

A esposa cerrou os punhos, ainda em régio silêncio.

— Sei que tu não gosta, mas quero ajudar a pobre mulher.

— Ajudar? — rompeu Célia, iracunda. — Ajuda é consertar desmentidura, é virar criança na barriga de grávida, é fazer um chá de japana branca pra dor de estômago. Ajudar Jerusa é doideira, a mulher tá precisada de um doutor de cabeça, já tu tá querendo descobrir qual é o pau que a gente dá em doido.

— Deixa a ruindade de lado, Célia. Filho é filho, mãe é mãe. Jerusa só quer enterrar o filho.

— Aquele lá já tá nos quintos. Se matou de medo, pois sabia bem ele que o pai e os tios de Filomena iam arrancar o couro dele na peixeira. Onde já se viu homem feito desonrar cunhantã de onze anos? Osvaldo, Osvaldo… — Ela meneou a cabeça de um lado para o outro, como quem tenta afastar as péssimas ideias. — Se conselho fosse bom a gente vendia. Por isso é a última vez que te digo, não faz isso homem. Quem tem pena do desgraçado, fica no lugar dele.

— Não vai acontecer nada, em nome de Nossa Senhora e dos guias.

— Rum — resmungou Célia, levantando da mesa com um olhar ranzinza para o marido — Até teus guias sabem que não é boa ideia. Que Nossa Senhora te guarde!

Ao cair da noite, Osvaldo foi ao encontro de Jerusa até a beira do rio. A noite fria e sem luar, fez a escuridão da água se misturar com a escuridão da noite, o mundo estava obscuro e sereno, como se todas as formas de vida tivessem se calado para testemunhar o que estava prestes a acontecer. Ele seguiu a única luz que brilhava perdida na penumbra, a lamparina que Jerusa segurava, apreensiva à beira do rio.

— Osvaldo! Que bom que tu vieste, compadre — Sua voz esganiçada estava carregada de súplica, fazia-o sentir dó da mulher — Eu pensei que não viria.

— Dei minha palavra que vinha. Simbora começar que a noite é longa e quero voltar para meu barraco. Célia tá pior que jiboia em maio, não posso me demorar.

Osvaldo ergueu a cuia que levava em mãos e puxou do bolso uma vela branca. Tinha inteirado dez dias da morte do filho de Jerusa, depois do rapaz bater na porta do pai de Filomena para pedir a menina em casamento e o pai dela recusar, com razão, pois o homem tinha para lá dos trinta, o desgraçado tomou a menina na base da força. Quando a comunidade soube, caçou Joaquim até em buraco de tatu.

Numa noite qualquer, viram Joaquim bêbado remando a canoa para longe da margem e saltar. Desde então, o corpo não boiou. Jerusa achava que ele tinha se afogado sem querer, Osvaldo acreditava que a cachaça deu a coragem que faltava para o rapaz tirar a própria vida.

O rezador acendeu a vela na lamparina, encaixou no fundo da cuia e caminhou para dentro do rio, até a altura dos joelhos. Osvaldo largou a vela na água, enquanto fazia sua prece. A cuia flutuou levando a vela para longe. Não havia vento, nem banzeiro para interferir. Era como os antigos diziam quando ele era criança “são os espíritos que guiam a direção da vela até o corpo”.

— Onde a vela parar, é ali que tá Joaquim. Depois tu pede para alguém mergulhar e tirar, eu só faço esse serviço. Corpo é outro setor.

A vela parou, não muito longe dali.

— Meu filho… — lamentou Jerusa, chorosa. — Meu Joaquim, meu único filho. Meu filhinho, volta pra casa.

— Para com isso! — ralhou Osvaldo. — Ninguém deve chamar os mortos.

— Joaquim! — ela gritou, ignorando as advertências. — Volta pra casa!

A vela começou a flutuar na direção deles lentamente, depois mais rápido. Osvaldo engoliu em seco, quando a vela parou na sua frente e bolhas de ar começaram a flutuar ao redor de sua luz, semelhante a uma pessoa que solta o ar debaixo da água. O rezador não titubeou, alcançou a vela e apagou num sopro.

— Não! — protestou Jerusa. — Meu filho ia voltar pra casa.

— Morto não volta! Eu te avisei que ia fazer isso pra te ajudar a enterrar o corpo, senti por ti e por tua dor, mas te instruí a ficar calada assistindo. Mas Célia está certa, tu perdeu o juízo!

— Maldito — gritou Jerusa, enervante. — Que teus dias sejam curtos nessa terra!

— Fogo e sangue na tua língua! — rebateu ele. — Boa noite.

Osvaldo foi embora, arrependido, mas decidido, pediria o perdão da esposa na primeira oportunidade. Ao chegar em casa, ele entrou com desconfiança, pisando no assoalho de madeira que rangia mais nos dias quentes de verão. Entretanto, avaliou a casa com estranheza, pois Célia sempre acendia um pavio de barbante numa latinha de querosene, jamais dormindo no escuro.

Naquela noite, a casa estava entregue ao breu. Dirigiu-se ao quarto. Para seu alívio, a esposa estava deitada, bastante quieta. Pegou uma caixa de fósforos e acendeu o pavio do barbante na latinha de querosene, esforçava-se para ser um bom marido, não desejava que Célia despertasse assustada no escuro.

Ele retirou as roupas para dormir, caminhou até a cama e deixou a lamparina sobre um banco de madeira que ficava na cabeceira. Quando puxou os lençois até a altura do peito, sentiu-os molhados.

— Mas que diacho…

Foi quando seus olhos encontraram os de Célia, abertos e congelados de pânico. A madeira do chão rangeu, o pavio apagou, levando consigo toda a coragem de seu sangue. Mãos frias envolveram seu pescoço, eram fortes e molhadas. O grito prendeu na goela. Seu último pensamento foi no cheiro de alfazema que ainda estava no quarto.

Créditos
Revisão: Deuziane Sackamulth
Foto: Sha Antunes

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