Por Valter Mattos da Costa*
Parte da grande imprensa passou finalmente a reconhecer algo que há muito já se tornou evidente dentro das escolas brasileiras: o professor virou alvo.
Crescem reportagens, editoriais e análises sobre agressões, intimidações, perseguições políticas e violência simbólica contra docentes (tem político com mandato chamando os professores de vagabundos).
O problema, agora visível demais para continuar sendo ignorado, começa lentamente a ocupar o debate público nacional.
O diagnóstico, porém, frequentemente permanece incompleto.
Descreve-se o incêndio, mas evita-se discutir quem espalhou gasolina sobre a escola brasileira nas últimas décadas.
Há algo de sintomático nisso.
Durante anos, diferentes setores políticos, econômicos e midiáticos ajudaram a consolidar a imagem do professor como suspeito ideológico permanente. Falou-se em “doutrinação”, “marxismo cultural”, “inimigo da família” e “ameaça aos valores nacionais”.
A figura do professor crítico foi lentamente transformada em inimigo público.
Hoje, quando a violência explode nas salas de aula e nas redes sociais, surge um espanto seletivo. Como se a degradação simbólica da autoridade docente tivesse surgido espontaneamente, como fenômeno inevitável da vida contemporânea.
Não surgiu.
Foi produzida.
A palavra “polarização”, frequentemente utilizada para explicar o cenário atual, muitas vezes funciona como cortina semântica confortável. Dilui responsabilidades históricas concretas e coloca agressor e agredido dentro da mesma abstração genérica.
A escola brasileira tornou-se arena de guerra cultural organizada.
O professor passou a ocupar, para determinados grupos, o lugar simbólico do inimigo a ser vigiado, filmado, denunciado e humilhado publicamente.
Mas existe outro silêncio ainda mais grave nesse tipo de abordagem.
Fala-se da hostilidade simbólica, porém quase nada se discute sobre a violência econômica estrutural contra o magistério brasileiro.
Não existe valorização docente sem valorização material.
Não existe vocação que sobreviva indefinidamente à precarização.
Não existe defesa séria da educação pública sem discutir salário, carreira e condições concretas de trabalho.
O Brasil possui um piso salarial nacional do magistério. Em tese, uma conquista histórica. Na prática, frequentemente descumprido, relativizado ou distorcido por estados e municípios.
O Estado brasileiro homenageia o professor em discursos e o desvaloriza no contracheque.
A contradição tornou-se obscena.
Discute-se inovação pedagógica enquanto milhares de docentes trabalham em múltiplas escolas para sobreviver. Exigem-se resultados sofisticados de profissionais exaustos, adoecidos e submetidos à intensificação permanente do trabalho.
A pedagogia da métrica transformou a escola em ambiente de pressão contínua.
Avaliações, plataformas, metas, formulários, relatórios, índices e produtividade burocrática passaram a consumir o tempo psíquico do professor. Ensinar tornou-se apenas uma parte da profissão.
A outra parte é sobreviver administrativamente.
As análises sobre violência escolar normalmente destacam agressões físicas e verbais, mas raramente percebem que existe também uma forma institucionalizada de violência cotidiana produzida pela própria estrutura educacional contemporânea.
Adoece-se pela humilhação pública, mas também pela exaustão crônica.
Adoece-se pela ameaça ideológica, mas igualmente pela insegurança financeira.
Adoece-se pela violência dos alunos, mas também pela violência burocrática do sistema.
Há algo ainda mais profundo ocorrendo.
A sala de aula deixou de ser apenas espaço pedagógico. Tornou-se ambiente de vigilância social permanente. O professor contemporâneo trabalha sob a possibilidade constante da exposição digital.
Um celular escondido pode transformar uma aula em espetáculo algorítmico.
O fenômeno recente do teacher-baiting, amplificado pelas redes sociais, revela isso com brutal clareza. Alunos provocam emocionalmente docentes, enquanto outros gravam clandestinamente reações para posterior viralização.
A autoridade pedagógica converte-se em entretenimento digital.
A humilhação vira conteúdo.
O sofrimento docente vira engajamento.
Nesse cenário, o apagão no magistério já começou.
Não se trata apenas de futura falta quantitativa de professores. O colapso já ocorre subjetivamente dentro das escolas brasileiras.
Muitos permanecem fisicamente presentes, mas emocionalmente esgotados.
Outros abandonam silenciosamente a profissão.
Outros sequer desejam entrar nela.
O problema não é apenas falta de mão de obra futura. É perda progressiva do desejo social de ensinar.
Paulo Freire compreendia que ensinar nunca foi simples transmissão mecânica de conteúdos. A educação envolve presença humana, reconhecimento simbólico e dignidade.
Nenhuma pedagogia resiste à destruição sistemática da dignidade docente.
Não há tecnologia capaz de substituir completamente aquilo que desaparece quando a autoridade pedagógica entra em colapso: o vínculo humano.
Talvez o ponto mais frágil dessas análises esteja justamente aí.
Parece existir a crença de que políticas pontuais de proteção poderão resolver o problema. Como se bastasse conter agressões isoladas sem enfrentar a engrenagem histórica que produz a degradação do trabalho docente.
O professor brasileiro não enfrenta apenas alunos hostis.
Enfrenta uma sociedade que exige resultados educacionais sofisticados enquanto normaliza salários insuficientes, precarização estrutural e erosão simbólica permanente.
Quer-se uma escola forte sem professor forte.
Quer-se excelência educacional sem valorização material concreta.
Quer-se inovação pedagógica sustentada pela exaustão humana.
Não funciona.
Nenhum país salva sua educação destruindo lentamente aqueles que sustentam diariamente a existência da escola.
O apagão docente não será evitado apenas com campanhas institucionais de conscientização ou discursos ocasionais de valorização.
Será evitado quando o professor deixar de ser tratado como custo operacional descartável e voltar a ser reconhecido como fundamento estratégico da própria democracia brasileira.
Darcy Ribeiro talvez tenha sintetizado o problema décadas atrás: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”
O problema é que, agora, o projeto começa a cobrar sua conta histórica.
*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História Social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.



