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quarta-feira, 20 maio, 2026
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o Brasil quer salvar a escola sem pagá-lo

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Por Valter Mattos da Costa*

Parte da grande imprensa passou finalmente a reconhecer algo que há muito já se tornou evidente dentro das escolas brasileiras: o professor virou alvo.

Crescem reportagens, editoriais e análises sobre agressões, intimidações, perseguições políticas e violência simbólica contra docentes (tem político com mandato chamando os professores de vagabundos).

O problema, agora visível demais para continuar sendo ignorado, começa lentamente a ocupar o debate público nacional.

O diagnóstico, porém, frequentemente permanece incompleto.

Descreve-se o incêndio, mas evita-se discutir quem espalhou gasolina sobre a escola brasileira nas últimas décadas.

Há algo de sintomático nisso.

Durante anos, diferentes setores políticos, econômicos e midiáticos ajudaram a consolidar a imagem do professor como suspeito ideológico permanente. Falou-se em “doutrinação”, “marxismo cultural”, “inimigo da família” e “ameaça aos valores nacionais”.

A figura do professor crítico foi lentamente transformada em inimigo público.

Hoje, quando a violência explode nas salas de aula e nas redes sociais, surge um espanto seletivo. Como se a degradação simbólica da autoridade docente tivesse surgido espontaneamente, como fenômeno inevitável da vida contemporânea.

Não surgiu.

Foi produzida.

A palavra “polarização”, frequentemente utilizada para explicar o cenário atual, muitas vezes funciona como cortina semântica confortável. Dilui responsabilidades históricas concretas e coloca agressor e agredido dentro da mesma abstração genérica.

A escola brasileira tornou-se arena de guerra cultural organizada.

O professor passou a ocupar, para determinados grupos, o lugar simbólico do inimigo a ser vigiado, filmado, denunciado e humilhado publicamente.

Mas existe outro silêncio ainda mais grave nesse tipo de abordagem.

Fala-se da hostilidade simbólica, porém quase nada se discute sobre a violência econômica estrutural contra o magistério brasileiro.

Não existe valorização docente sem valorização material.

Não existe vocação que sobreviva indefinidamente à precarização.

Não existe defesa séria da educação pública sem discutir salário, carreira e condições concretas de trabalho.

O Brasil possui um piso salarial nacional do magistério. Em tese, uma conquista histórica. Na prática, frequentemente descumprido, relativizado ou distorcido por estados e municípios.

O Estado brasileiro homenageia o professor em discursos e o desvaloriza no contracheque.

A contradição tornou-se obscena.

Discute-se inovação pedagógica enquanto milhares de docentes trabalham em múltiplas escolas para sobreviver. Exigem-se resultados sofisticados de profissionais exaustos, adoecidos e submetidos à intensificação permanente do trabalho.

A pedagogia da métrica transformou a escola em ambiente de pressão contínua.

Avaliações, plataformas, metas, formulários, relatórios, índices e produtividade burocrática passaram a consumir o tempo psíquico do professor. Ensinar tornou-se apenas uma parte da profissão.

A outra parte é sobreviver administrativamente.

As análises sobre violência escolar normalmente destacam agressões físicas e verbais, mas raramente percebem que existe também uma forma institucionalizada de violência cotidiana produzida pela própria estrutura educacional contemporânea.

Adoece-se pela humilhação pública, mas também pela exaustão crônica.

Adoece-se pela ameaça ideológica, mas igualmente pela insegurança financeira.

Adoece-se pela violência dos alunos, mas também pela violência burocrática do sistema.

Há algo ainda mais profundo ocorrendo.

A sala de aula deixou de ser apenas espaço pedagógico. Tornou-se ambiente de vigilância social permanente. O professor contemporâneo trabalha sob a possibilidade constante da exposição digital.

Um celular escondido pode transformar uma aula em espetáculo algorítmico.

O fenômeno recente do teacher-baiting, amplificado pelas redes sociais, revela isso com brutal clareza. Alunos provocam emocionalmente docentes, enquanto outros gravam clandestinamente reações para posterior viralização.

A autoridade pedagógica converte-se em entretenimento digital.

A humilhação vira conteúdo.

O sofrimento docente vira engajamento.

Nesse cenário, o apagão no magistério já começou.

Não se trata apenas de futura falta quantitativa de professores. O colapso já ocorre subjetivamente dentro das escolas brasileiras.

Muitos permanecem fisicamente presentes, mas emocionalmente esgotados.

Outros abandonam silenciosamente a profissão.

Outros sequer desejam entrar nela.

O problema não é apenas falta de mão de obra futura. É perda progressiva do desejo social de ensinar.

Paulo Freire compreendia que ensinar nunca foi simples transmissão mecânica de conteúdos. A educação envolve presença humana, reconhecimento simbólico e dignidade.

Nenhuma pedagogia resiste à destruição sistemática da dignidade docente.

Não há tecnologia capaz de substituir completamente aquilo que desaparece quando a autoridade pedagógica entra em colapso: o vínculo humano.

Talvez o ponto mais frágil dessas análises esteja justamente aí.

Parece existir a crença de que políticas pontuais de proteção poderão resolver o problema. Como se bastasse conter agressões isoladas sem enfrentar a engrenagem histórica que produz a degradação do trabalho docente.

O professor brasileiro não enfrenta apenas alunos hostis.

Enfrenta uma sociedade que exige resultados educacionais sofisticados enquanto normaliza salários insuficientes, precarização estrutural e erosão simbólica permanente.

Quer-se uma escola forte sem professor forte.

Quer-se excelência educacional sem valorização material concreta.

Quer-se inovação pedagógica sustentada pela exaustão humana.

Não funciona.

Nenhum país salva sua educação destruindo lentamente aqueles que sustentam diariamente a existência da escola.

O apagão docente não será evitado apenas com campanhas institucionais de conscientização ou discursos ocasionais de valorização.

Será evitado quando o professor deixar de ser tratado como custo operacional descartável e voltar a ser reconhecido como fundamento estratégico da própria democracia brasileira.

Darcy Ribeiro talvez tenha sintetizado o problema décadas atrás: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”

O problema é que, agora, o projeto começa a cobrar sua conta histórica.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História Social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.





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