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domingo, 29 março, 2026
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Nenê Romano: a mulher que São Paulo matou duas vezes

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Os cemitérios parecem ser o espelho invertido das cidades que os abrigam. No Cemitério da Consolação, reduto final de boa parte da aristocracia paulistana, as alamedas ladeadas por mausoléus suntuosos narram a história oficial de uma metrópole que enriqueceu à sombra dos cafezais. Ali, na Quadra 83, repousa uma das esculturas mais emblemáticas da arte tumular brasileira:  “Interrogação”, obra em granito assinada pelo mestre Francisco Leopoldo e Silva. A peça retrata uma mulher nua, semi-reclinada, sentada com as pernas sobrepostas e parcialmente estendidas, com o rosto abaixado demonstrando pesar, formando um ponto de interrogação para demonstrar a incompreensão sobre a morte de Moacir Toledo Piza.”

A narrativa oficial, perpetuada por guias e enciclopédias, afirma que a estátua expressa a dor e a absoluta incompreensão diante do suicídio do homem ali sepultado: Moacyr de Toledo Piza, um jovem, brilhante e aristocrático advogado, jornalista e escritor. Contudo, a pedra fria de Leopoldo e Silva narra apenas a metade de uma história. A efetiva interrogação que a escultura lança sobre o Brasil não diz respeito ao fim trágico de um boêmio desiludido, mas ao silenciamento de um crime brutal. A estátua oculta, sob o véu da melancolia romantizada, o feminicídio cometido contra Romilda Machiaverni, eternizada na crônica urbana sob o nome de Nenê Romano.

Para compreender o peso dessa interrogação, é preciso voltar os olhos para a São Paulo da década de 1920. A capital paulista vivia a ebulição de uma modernidade vacilante. O dinheiro do café financiava a construção de palacetes nos Campos Elíseos, Higienópolis, Avenida Paulista e a importação de espetáculos líricos para o Theatro Municipal. Era uma cidade de contrastes violentos, onde a elite conservadora desfilava sua moralidade de fachada enquanto sustentava uma fervilhante vida noturna, regada a luxúria em cabarés e bordéis exclusivos.

Nesse cenário de transição, onde os imigrantes italianos já moldavam a demografia e a força de trabalho da cidade, nasceu Romilda Machiaverni, em 1897. Filha de pais que se conheceram e casaram em São Paulo, ela começou a trabalhar cedo como costureira e, depois, como camareira no prestigiado Hotel Bella Vista. Dona de uma beleza estonteante – descrita pelos contemporâneos como bella da venere -, Romilda logo chamou a atenção dos barões do café e figurões da “República Velha” que ali se hospedavam. Adotando os pseudônimos de Olga e, definitivamente, Nenê Romano para “não envergonhar” a família, ela deixou os lençois que arrumava para deitar-se naqueles de seda, tornando-se a mais célebre e cobiçada cortesã de São Paulo.

Nenê transitava livremente pelo grand monde, desfilando joias no Trianon e frequentando os mesmos espaços da elite que a desejava em segredo e a repudiava em público. Essa liberdade custou caro. Em 1916, sofreu um atentado a mando de Maria Eugênia, filha de Íria Junqueira, uma poderosa “sinhá do café”, de Cravinhos, enciumada porque seu pretendente havia beijado a mão da cortesã em plena Avenida Paulista. Os jagunços contratados desferiram uma navalhada no pescoço de Nenê, deixando-lhe uma cicatriz profunda.

Foi a busca por justiça que selou o destino de Nenê. Para processar seus agressores, ela contratou os serviços do eminente advogado Moacyr de Toledo Piza. Membro de uma das famílias mais tradicionais do estado, Piza era um intelectual afeito à sátira e à boemia. O encontro profissional rapidamente desaguou em uma paixão avassaladora. Moacyr tornou-se obcecado por Nenê. A relação, que durou cerca de dois anos, foi marcada pelo ciúme doentio e pela possessividade do advogado, que exigia exclusividade de uma mulher cuja sobrevivência e status dependiam de seus múltiplos e abastados “benfeitores.”

As tensões atingiram o ápice no agitado ano de 1923. Moacyr publicou o panfleto Roupa Suja (Polêmica Alegre), uma crítica cáustica à elite paulista e, em especial, ao então presidente do Estado (e futuro presidente da República), Washington Luís. Nos bastidores, comentava-se que Washington Luís era um dos frequentadores assíduos do leito de Nenê Romano. A obra de Piza, lavando a “roupa suja” da oligarquia, expôs a cortesã de forma velada, provocando a ira de Nenê, que não desejava ver seu nome arrastado para a lama das disputas políticas. Ela rompeu o relacionamento. Moacyr, financeiramente arruinado e com o orgulho ferido, não aceitou o fim.

Na noite de 25 de outubro de 1923, o advogado a interceptou quando ela entrava em um táxi. Pediu para acompanhá-la até a Avenida Angélica. No trajeto, durante uma discussão acalorada, Moacyr sacou um revólver e disparou cinco vezes à queima-roupa, brutalmente, contra a ex-amante. Em seguida, atirou contra o próprio peito. História recorrente no Brasil de ontem e de hoje, não?

O que se seguiu ao duplo disparo foi o implacável julgamento moral de uma sociedade patriarcal. A imprensa da época não hesitou em inverter os papéis. Moacyr Piza foi chorado nas páginas dos jornais como um “inditoso moço”, uma mente brilhante vitimada pelo “fogo da paixão torturante e louca.” A culpa pelo assassinato recaiu sobre a vítima. O jornal “O Combate” referiu-se a Nenê como “flor da rua e da lama”, a megera sedutora que havia enfeitiçado e levado à ruína um cidadão de bem. Ao assassino, reservaram-se as honrarias da memória; à mulher morta, o escárnio e o esquecimento:

“Matou-se Moacyr Piza, o brilhante, o audaz, o valoroso escriptor que todo São Paulo admirava. Matou-se depois de ter matado Nenê Romano, a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa (…) Nenê Romano, flôr de rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuia o sorriso que accendia os mais perigosos fogos da paixão torturante e louca; o mais completo symbolo da leviandade e da perversidade muliebre conseguiu, com a suggestão da mulher que faz soffrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte.”

O trecho é a síntese surreal da misoginia nacional. O tratamento dispensado aos corpos reflete com precisão cirúrgica a estrutura de classe e gênero do Brasil. Moacyr foi sepultado na Consolação, sob o peso artístico de A Interrogação, e em 1935 batizou uma rua no nobre bairro do Jardim Paulista. Ironicamente, a poucos quarteirões dali, outra via paulistana carrega o nome de Peixoto Gomide, ex-presidente do Senado Estadual que, em 1906, assassinou a própria filha, Sophia, com um tiro na testa antes de se matar. A geografia urbana de São Paulo é, literalmente, pavimentada com homenagens a feminicidas, uma ferida que recentes projetos de lei na Câmara Municipal tentam curar propondo a renomeação dessas vias para Rua Nenê Romano e Rua Sophia Gomide, respectivamente.

Enquanto isso, os restos mortais de Nenê Romano foram relegados ao Cemitério do Araçá. Sem herdeiros ou admiradores dispostos a manter sua memória, seu jazigo foi abandonado. Em abril de 1995, o túmulo foi desapropriado pelo Serviço Funerário e seus ossos foram transferidos para o ossário geral do cemitério, misturando-se ao anonimato absoluto. Há quem argumente que Nenê Romano foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada (Brás). Em todo caso, seu apagamento foi concluído com sucesso.

Viver e morrer na São Paulo dos anos 1920 era, para uma mulher dona de seu próprio corpo e destino, um ato de transgressão punível com a morte e o apagamento histórico. E as consequências dessa engrenagem patriarcal ecoam tragicamente nos dias de hoje. O Brasil de 2025 registrou o recorde histórico de 1.470 feminicídios – uma média aterradora de quatro mulheres assassinadas por dia. A estrutura que permitiu à sociedade paulistana chorar o algoz e culpar a vítima há um século é a mesma que, ainda hoje, questiona o comportamento ou as escolhas das mulheres brutalizadas por seus parceiros.

A estátua “A Interrogação” no Cemitério da Consolação não chora a morte de Moacyr Piza. Se a observarmos com as lentes de hoje, veremos que a mulher de pedra, com a cabeça baixa e o corpo nu, chora por Nenê Romano. Ela nos interroga, há cem anos, sobre a nossa conivência. Pergunta-nos até quando continuaremos erguendo monumentos aos assassinos enquanto atiramos as vítimas na vala comum do esquecimento. A interrogação não é sobre o amor que mata, pois o amor não deveria apertar gatilhos; a interrogação é sobre um país que ainda se recusa a confrontar os fantasmas de sua própria misoginia.

Retrato de Nenê Romano. Fonte: Sampa Histórica|Opera Mundi.
Escultura “Interrogação”, do artista Francisco Leopoldo e Silva, para a tumba de Moacyr Piza. Cemitério da Consolação, 1923. Quadra 83 – terrenos 12 e 13. Fonte: Consolare.

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Fontes

https://consolacao.elapide.com.br/obra-de-arte/52/interrogacao-de-francisco-leopoldo-e-silva-jazigo-de-moacyr-piza

https://piaui.uol.com.br/materia/uma-paixao-de-outrora/

https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/nene-romano-um-feminicidio-emblematico-na-sao-paulo-dos-anos-20/

A cidade de mulheres ocultadas

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