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sábado, 12 setembro, 2026

Mãe do Igapó

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Ilustração: Cinna.monmoon, Mãe do Igapó

Cícero sabia desde pequeno que não existia lugar melhor para pescar e  nem água mais gelada para se divertir do que no igapó. Cedo, remou com seu irmão caçula e a curuminzada para pescar e brincar de saltar por entre os troncos e raízes, gostavam de disputar quem chegava mais rápido no topo das árvores e quem dava o melhor dos saltos.

Ele encarava o arapari com ousadia, enfiava as mãos pelo seu tronco retorcido e cipós entrelaçados dispostos por toda sua extensão, uma confluência emaranhada na qual utilizava as mãos e subia com firmeza.

— Não vale — queixou-se Catarina, fazendo bico de perdedora. — Você sempre chega primeiro no topo!

— É porque o pai dele é um macaco — debochou João, subindo logo atrás de Cícero, ao som de gargalhadas.

— O teu que é — rebateu Cícero.

— Cícero chega mais rápido porque é caneludo, Catarina. Um dia tu também cresce — explicou Evangelina, chegando no topo junto com os meninos.

Naquele lugar, engolidos pelo silêncio do igapó, onde o banzeiro se tornava sereno, o vento virava brisa, e todo o tipo de som não se elevava acima de um sussurro. Cícero inflou o peito satisfeito e orgulhoso de si, pois nada temia. No esplendor do cume do arapari encarou as águas escuras, sem temor pelos mistérios escondidos na quietude.

— Cícero, tá muito alto! — gritou Marcelo da canoa, seu irmão caçula.

— Tá nada, te sossega aí que tu não sabe nem nadar — respondeu displicente, cheio da esperteza dos jovens.

— Marcelo tá certo — advertiu Catarina. — Cícero, tá muito alto.

— Vai logo, medroso! — provocou João.

— Pula! Pula! Pula! — vibraram Anísio e Evangelina em uníssono.

Não havia nada pior para ele do que duvidarem de sua ousadia. O mergulho foi profundo, por alguns segundos o mundo  ficou com o som abafado do ouvido submerso, com bolhas de ar fazendo cócegas por seu corpo enquanto começava a flutuar, até sentir o pé preso. O emaranhado de raízes havia enlaçado seu pé direito, feito-o refém das profundezas.

Ele sabia que o desespero o faria se afogar. Com calma, desceu as mãos até o pé e começou a desenroscar cada uma das raízes que o prendiam. O peito começou a arder, o corpo desejava se debater e a cabeça parecia prestes a explodir, quando soltou a última raiz e flutuou até a superfície cuspindo água.

— Minha santinha Aparecida! — gritou Evangelina flutuando ao seu lado.

Todos seus amigos haviam saltado para procurar por ele, até Marcelo estava ensopado.

— Calma, gente, eu tô bem.

— Até o Marcelo pulou na água para te encontrar — disse Anísio com o caçula enroscado no pescoço.

— Ué, deixa de leseira, Marcelo — esbravejou Cícero. Então franziu o cenho ao notar certa ausência. — Cadê a canoa?

João, Anísio e Cícero mergulharam juntos para emergir a canoa que Marcelo afundou num ato de desespero para alcançar o irmão. Precisaram empurrar para frente e para trás, causando um rebuliço na água presente no interior, fazendo-a sair pelas pontas da canoa.

Antes de partirem, Cícero tomou uma decisão.

— É hoje que tu aprendes a nadar, Marcelo. Vou te dar piaba e nunca mais tu se afoga.

— Não pode, Cícero — advertiu João. — Está tarde, ninguém pode ficar no igarapé depois das seis da tarde, a mãe d’água castiga.

— Outro dia, não. Hoje! — declarou Cícero, sem se intimidar.

— É verdade — concordou Anísio. — Eu até pulo de árvore alta para mergulhar, mas morro de medo mesmo é daquilo que ninguém vê.

— Vamos embora — interveio Evangelina —,  a piaba fica para outro dia, está ficando noite.

— Hoje! — insistiu ele.

— Com que malhadeira? — questionou Anísio. — Tu tá sendo só teimoso. Está ficando escuro.

Cícero saltou dentro da água, mesmo com os protestos. Ele recordou do dia em que seu pai deu-lhe duas piabas vivas e mandou que engolisse sem mastigar para aprender a nadar. Na mesma hora, aprendeu a mergulhar e boiar tão rápido quanto um peixe. Foi assim com seu avô, com seu pai e com ele, seria assim também com Marcelo. Cícero mergulhou uma, duas, três vezes, mas estava sem rede, não tinha como capturar uma piaba, nem peixe algum, ao mesmo tempo em que sentia alguém lhe observando de longe, como se estivesse vigiando aquelas águas. Estava escuro quando a teimosia de Cícero arrefeceu, disse, por fim, ao dar-se por vencido:

— A piaba fica para outro dia.

Partiram remando às pressas, era um péssimo momento no igapó, os jacarés apareciam aos montes quando escurecia e eles estavam sem lamparina, guiados por um parco luar que mal refletia algo sobre o rio.

Cícero precisou deixar cada um em casa antes de partir para a sua com Marcelo.

Quando chegaram em casa, a janta já estava pronta, comeram depois de ouvir o sermão de como é perigoso dois moleques remando de noite sozinhos. Quando foram dormir, Cícero sonhou.

Ele nadava na água escura e gelada, sem fôlego, sentindo o calor do corpo esvaindo e o peito doendo sempre que puxava o ar. Algo estava nadando à espreita de seu corpo, não sabia o que ou quem era, mas parecia furiosa.

“Cícero!”, escutou ao longe. “Cícero, o que você está fazendo?!”

Uma dor lancinante despontou no alto do cocuruto fazendo-o despertar exasperado. O curumim debateu o corpo eufórico, estava na beira do rio, não lembrava como havia parado ali.

— O que você está fazendo? — gritou Marcelo da beirada com uma pedra na mão. — Você saiu andando de olhos fechados. Cícero?!

— Tu jogou uma pedra em mim? — perguntou atordoado pela dor no alto da cabeça.

— Pra tu acordar!

— Eu vou sair da água.

Deu a primeira braçada, então a segunda, terceira, até avistar Marcelo apontado para trás de si, com os olhos esbugalhados. Cícero virou, nunca antes sentira tanto medo quanto agora. Os olhos daquela coisa eram brilhantes como de peixe, os braços e rosto revestidos por uma escama vermelha como a do pirarucu, a cabeça adornada por uma coroa de flores de ucuuba e cabelos longos encharcados misturados com a folhagem que só havia no igapó.

Ela fechou a mão envolta do seu braço, puxando-o para o fundo. Cícero se debateu até sentir a força esvair-se. Seu último pensamento foi que morrer deveria ser mais dolorido, mas era como dormir na varanda noite fria, após passar o dia chovendo. De repente, o rosto começou a arder e ele despertou cuspindo a água do pulmão.

Marcelo deu outro tapa em seu rosto, despertando sua consciência para a vida, lembrando-o de puxar o ar para dentro. Cícero arfou assustado ao ver o caçula todo ensopado.

— Dá próxima vez, é melhor a gente voltar cedo para casa.

— Que doideira foi essa? Quando tu aprendeu a nadar?

— Sei lá. Mas acho que não preciso mais de piaba.

Ao longe, a figura estranha esgueirou o corpo pelo rio e mergulhou para as profundezas.

Revisão: Deuziane Sackmulth

Ilustração: Cinna.monmoon

 

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