Durante participação no programa ICL Notícias – 1ª Edição desta segunda-feira (1º), o economista José Kobori avaliou que a recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode abrir espaço para pressões econômicas e institucionais sobre o Brasil.
Segundo Kobori, a medida deve ser analisada para além do combate ao crime organizado. Em sua avaliação, Washington historicamente utiliza determinadas narrativas para justificar intervenções e ampliar sua influência internacional. O economista citou como exemplo a política externa norte-americana após o fim da Guerra Fria, quando o terrorismo passou a ocupar o papel de principal ameaça global.
“O terrorismo foi transformado na grande narrativa dos Estados Unidos após a queda do bloco soviético. O problema é que essa classificação muitas vezes acompanha interesses geopolíticos e não necessariamente critérios objetivos”, afirmou.
Ao comentar a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) no debate da segurança internacional norte-americana, Kobori argumentou que a medida pode gerar consequências econômicas relevantes para empresas e instituições financeiras brasileiras.
De acordo com ele, o principal impacto imediato seria o aumento dos custos de compliance, uma vez que companhias nacionais poderiam passar a enfrentar maior escrutínio em operações financeiras e comerciais com parceiros internacionais.
“Os Estados Unidos se atribuem o direito de aplicar sanções extraterritoriais. Uma empresa brasileira pode ser questionada ou punida por manter relações comerciais com agentes que, segundo critérios definidos unilateralmente por Washington, estejam vinculados a organizações consideradas terroristas”, disse.
Pix e sistema financeiro entram no radar
Kobori também relacionou as críticas norte-americanas ao Pix a interesses de grandes corporações do setor financeiro e tecnológico. Segundo ele, o sistema brasileiro de pagamentos reduziu significativamente a dependência de meios tradicionais, afetando empresas que atuam no mercado de cartões e serviços digitais.
Na análise do economista, existe o risco de que a classificação das facções seja utilizada futuramente como instrumento de pressão sobre instituições financeiras brasileiras, especialmente em razão da relevância do sistema bancário internacional controlado pelos Estados Unidos.
Ele mencionou preocupações envolvendo o acesso de bancos ao sistema SWIFT, principal rede global de comunicação financeira, caso Washington decida ampliar sanções contra agentes econômicos brasileiros.
“O risco não está apenas na acusação em si, mas no poder de barganha que ela cria. Trata-se de uma ferramenta que pode ser utilizada em futuras negociações comerciais e políticas”, afirmou.
Mundo multipolar e fortalecimento dos Brics
Ao abordar o cenário internacional, Kobori argumentou que a ordem global caminha para uma configuração multipolar, com a consolidação de polos de poder liderados por Estados Unidos, China e Rússia.
Nesse contexto, defendeu uma aproximação maior do Brasil com mecanismos de cooperação internacional, especialmente no âmbito do Brics (fórum internacional que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, entre outros). Segundo ele, o fortalecimento dessas alianças seria uma forma de ampliar a capacidade de negociação do país diante das pressões exercidas por grandes potências.
Para o economista, a política externa do presidente Donald Trump tende a concentrar esforços crescentes na América Latina, após os impasses enfrentados pelos Estados Unidos em conflitos internacionais recentes.
Kobori avalia que Washington busca ampliar sua influência regional por meio de acordos militares, alianças estratégicas e instrumentos de pressão econômica, o que colocaria o Brasil em posição central na disputa geopolítica do continente.
Brasil como foco estratégico
O economista também afirmou que o Brasil tende a permanecer como alvo prioritário da política externa norte-americana por representar a principal potência regional não totalmente alinhada aos interesses de Washington.
Segundo Kobori, o país deve acompanhar com atenção os desdobramentos da nova estratégia de segurança dos Estados Unidos, uma vez que medidas relacionadas ao combate ao terrorismo e ao crime organizado podem ser utilizadas como instrumentos de influência econômica e diplomática.
“O desafio para o Brasil será preservar sua autonomia institucional e econômica em um cenário de crescente disputa geopolítica entre as grandes potências”, concluiu.
Veja a participação completa de José Kobori no N1 no vídeo abaixo:




