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sábado, 18 julho, 2026
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Petroquímica de Manaus admite atraso de alerta ambiental em vazamento de gás

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Por Cley Medeiros*

A petroquímica Innova levou 1 hora e 7 minutos para comunicar ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) o início do grande vazamento de gás estireno em sua unidade de 70 mil metros quadrados, no Polo Industrial de Manaus, ocorrido na última quarta-feira (15). Para especialistas, a decisão pode ter prolongado efeitos tóxicos da exposição.

Cerca de 149 pessoas foram atendidas em hospitais por intoxicação pelo composto, classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um agente com potencial cancerígeno. O vazamento durou cerca de quatro horas, e as autoridades locais investigam se a morte de um idoso na região possui relação com a inalação da substância.

De acordo com nota divulgada pela empresa horas depois do acidente, o rompimento das válvulas de emergência ocorreu por volta das 17h20. Contudo, em resposta exclusiva enviada à reportagem, a companhia admitiu que o Ipaam — órgão estadual responsável por coordenar a resposta a crises ambientais — só foi notificado às 18h27. O horário aproximado foi confirmado pelo Ipaam, às 18h30.

A Innova justificou o intervalo afirmando que o acionamento do Corpo de Bombeiros e do alarme interno ocorreu de imediato, “pois era visível o porte da ocorrência e a necessidade de ajuda”, e que a ligação para o órgão ambiental foi feita “após o entendimento do cenário e seu impacto ambiental”.

A companhia afirma que, com a chegada dos bombeiros, os militares assumiram a comunicação com a comunidade e a Defesa Civil, seguindo os protocolos de seu Plano de Atendimento a Emergências (PAE). A Innova minimizou os efeitos do acidente, alegando que o episódio se tratou de uma “liberação de vapores” controlada e garantindo que a contenção ocorreu “sem vazamento de líquidos”.

Fissuras, drones e R$ 10 milhões em multas

Inicialmente multada em R$ 4,5 milhões na quinta-feira por poluição atmosférica, a Innova sofreu uma nova autuação de R$ 5,3 milhões na tarde desta sexta-feira (17), elevando o total de multas para quase R$ 10 milhões.

Com o uso de drones equipados com câmeras térmicas, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmas) descobriu um cenário muito mais crítico: há fissuras em parte do próprio tanque e o vazamento do gás estireno continua. A nova autuação pune a petroquímica por poluição direta do solo e de corpos hídricos.

O flagrante do escoamento do produto para fora da área de segurança confirma o pior cenário traçado por especialistas para a fauna local.

Segundo a Karenn Fernandes, especialista em química da atmosfera, professora e vice-coordenadora do curso de Licenciatura em Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a contaminação hídrica por estireno apresenta risco de letalidade imediata, mesmo em concentrações ínfimas (1 a 10 mg/L).

“O estireno na água flutua e forma uma película oleosa. O contato asfixia, danifica as brânquias e causa morte imediata dos peixes. Se o produto atingir o lodo anóxico no fundo, a biodegradação se torna extremamente lenta”, adverte.

O estireno é mantido líquido graças a inibidores químicos. Quando ocorre falha no sistema de resfriamento e a temperatura ultrapassa os 100°C, essa proteção é vencida, explica a professora Karenn Fernandes.

“A aproximadamente 100°C, o estireno auto-polimeriza a uma taxa de 2% por hora. A reação libera calor, o que aumenta a temperatura e a velocidade do processo exponencialmente”, explica. Foi essa reação exotérmica violenta que gerou a pressão interna, forçando a abertura das válvulas de segurança do tanque.

O Ministério Público do Amazonas (MP-AM) anunciou que abriu investigação para apurar possíveis crimes ambientais.

Os primeiros 60 minutos

A ausência do Ipaam no minuto zero do vazamento deixou as autoridades completamente cegas, isso porque o órgão é o principal subsidiador de informações sobre a direção do vento e o comportamento químico na atmosfera.

De acordo com seu regimento, ao ser notificado sobre um acidente químico, o Ipaam ativa o Acionamento do Protocolo de Atendimento a Emergências Ambientais.

É através desse mecanismo que o Ipaam implementa uma simulação matemática que calcula, em tempo real, a concentração e a rota exata da pluma de poluição tóxica, chamada de Modelagem de Dispersão Atmosférica.

Ele orienta tecnicamente as forças de segurança pública e a Defesa Civil a emitirem ordens de evacuação e definirem o perímetro de isolamento urbano.

Sem a notificação imediata, o principal órgão responsável por atuar em acidentes ambientais de grande proporção fica impedido de aplicar as diretrizes rígidas de controle de poluição estabelecidas na Lei nº 1.532, que criou a Política Estadual de Meio Ambiente.

“Sem saber a quantidade de gás no minuto zero, o software de modelagem não calcula se o estireno está saindo como uma explosão isolada ou de forma contínua. Sem a concentração exata e a direção do vento daquele momento, as equipes de resgate correm o risco de mandar a população fugir para dentro da nuvem tóxica”, explica a Dra. Karenn Fernandes, que também é coordenadora do Laboratório LAMESP (Laboratório de Métodos Espectroscópicos) da Ufam.

A pesquisadora ressalta a impossibilidade de traçar rotas seguras com atraso na comunicação. “O microclima amazônico oscila com muita rapidez, com mudanças bruscas de temperatura e correntes de ar em questão de minutos. Tentar prever o comportamento e a dispersão de um gás na nossa região usando dados retroativos, coletados horas depois da liberação, é tecnicamente impossível e invalida a modelagem”, detalha Silveira.

Por conta da comunicação tardia, as equipes da Gerência de Fiscalização Ambiental (Gefa) e os químicos do Ipaam só conseguiram ir a campo de forma defasada.

Em vez de atuarem na contenção ativa da pluma, os técnicos limitaram-se a auditar a execução tardia do plano de emergência da unidade, avaliando o direcionamento de efluentes para os diques de contenção e o resfriamento do tanque feito pelo Corpo de Bombeiros.

Especialistas consultados pela reportagem apontam que o atraso pode ter consequências jurídicas. Embora a petroquímica possua Licença de Operação (LO) válida até outubro de 2026, a omissão em reportar o acidente químico imediatamente pode configurar o descumprimento de condicionantes ambientais obrigatórias.

O Ipaam informou que realiza uma avaliação preliminar dos impactos e investiga a extensão de eventual contaminação para subsidiar a aplicação das penalidades administrativas necessárias.

Simulações recentes e a falha real

O “apagão” de comunicação de 67 minutos com o órgão ambiental contrasta com as credenciais de segurança obtidos pela petroquímica. De acordo com o Relatório Anual de Sustentabilidade de 2025 da Innova, a Unidade IV de Manaus — exato local do desastre — havia acabado de concluir a implementação da sua “Política de Gestão de Continuidade de Negócios”.

No documento oficial, a companhia assegura que a preparação na planta amazonense envolveu “o mapeamento de processos críticos, revisão de controles, definição de planos de contingência específicos e simulações para validação das estratégias estabelecidas”.

A empresa também destaca em seus balanços a realização de mais de 20 mil treinamentos voltados a normas regulatórias e habilidades técnicas ao longo daquele ano, além de garantir que segue as rigorosas certificações internacionais ISO 14001, de Gestão Ambiental, e ISO 45001, de Segurança Ocupacional.

Bombeiros realizam resfriamento de tanque de gás estireno, na Petroquímica Innova, Manaus. Foto: Ato Press/Folhapress
Bombeiros fazem resfriamento de tanque de gás estireno, na Petroquímica Innova, Manaus. Foto: Ato Press/Folhapress

Armadilha e riscos

Sobre o impacto na saúde, Silveira detalha o efeito da inalação: “Ao ser inalado em altas concentrações, o gás age como um eletrófilo potente que pode fazer ligação covalente com o DNA. O esgotamento das defesas naturais do corpo, como a enzima glutationa, gera radicais livres que atacam os ácidos graxos insaturados das membranas celulares. Isso destrói a integridade da membrana, fazendo a célula vazar íons e levando à necrose”, alerta.

Ela aponta que o horário do acidente também agravou o cenário, criando o que chama de “armadilha térmica”. Nesse momento, os movimentos convectivos que dispersam o ar para as camadas mais altas da atmosfera começam a diminuir.

“Nesse horário, os movimentos que levam o ar quente para cima começam a perder força. Isso deixa o poluente preso na parte mais baixa da atmosfera, onde respiramos, tornando a dispersão horizontal muito mais agressiva”, detalha.

Ao reagir com a umidade e o calor, a nuvem degrada-se em compostos como formaldeído e ozônio (O3), gerando um quadro de irritação severa que explica os sintomas agudos — tontura, náusea e falta de ar — registrados nos hospitais locais.

Para a rede estadual de saúde, a ausência de um alerta imediato prejudicou a capacidade de resposta. “Sem esse aviso prévio aos hospitais sobre a toxicidade do evento, a rede opera de forma reativa, recebendo as vítimas quando o dano biológico já ocorreu”, avalia a pesquisadora.

Volume será contabilizado

Questionada pela reportagem, a Innova declarou que o volume exato de gás liberado sobre a cidade ainda será contabilizado. A empresa assegurou que a planta opera normalmente e sem impactos ao abastecimento de clientes.

Até a manhã desta sexta-feira (17), mais de 41 horas após o início do incidente, equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) permaneciam no local realizando o resfriamento da parte externa dos tanques e monitoramento térmico por laser para prevenir riscos de explosão.

A Defesa Civil informa que as medições indicam que a qualidade do ar nas proximidades permanece dentro dos parâmetros de monitoramento, com concentrações inferiores a 20 ppm.

Sobre a Innova

Com uma receita operacional bruta de R$ 5,63 bilhões e lucro líquido de R$ 549,67 milhões declarados em seu último balanço, a Innova atua no setor petroquímico e de transformados plásticos, sendo responsável por fornecer a base química para a indústria de borrachas, filmes BOPP e embalagens.

A companhia opera com plantas industriais estratégicas em Triunfo (RS) e Manaus (AM), onde possui uma capacidade produtiva total anunciada na casa de 900 mil toneladas anuais — incluindo a produção de monômero de estireno —, consolidando seu papel como uma das principais referências do setor estirênico no mercado nacional.

 





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