A Justiça de Roraima revogou nesta segunda-feira (11) a prisão preventiva dos influenciadores digitais investigados por participação em um esquema milionário de divulgação do chamado “jogo do tigrinho”. A decisão da Vara de Entorpecentes e Organizações Criminosas beneficiou oito investigados, entre eles Gildázio Cardoso e Dione dos Santos, apontados pela Polícia Civil como integrantes de uma organização suspeita de lavagem de dinheiro e crimes contra o consumidor.
Com a medida, todos os envolvidos na operação passaram a responder ao processo em liberdade, porém submetidos a uma série de medidas cautelares determinadas pela Justiça. O grupo estava preso desde o dia 27 de abril, totalizando 14 dias de detenção.
Além de Gildázio Cardoso e Dione dos Santos, a decisão também favorece Adrielly Araújo, Raniely Carvalho, Amanda Faria, Vitória Reis, Laís Ramos e Patrik Adhan. As prisões preventivas foram substituídas por restrições judiciais consideradas suficientes para garantir o andamento das investigações.
Medidas cautelares impostas pela Justiça
Apesar da revogação das prisões, os investigados não terão liberdade plena. A juíza Daniela Schirato acolheu parcialmente o pedido do Ministério Público e estabeleceu uma série de medidas cautelares para Dione e Gildázio.
Entre as determinações impostas pela magistrada estão o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica, a proibição total de acesso e utilização de redes sociais, o impedimento de deixar Boa Vista sem autorização judicial e o recolhimento domiciliar no período das 22h às 6h, incluindo finais de semana, feriados e dias de folga.
No caso específico de Gildázio Cardoso, que reside no estado de Goiás, a Justiça estabeleceu adaptações para o cumprimento das medidas. Segundo a decisão, ele deverá manter contato periódico com a Justiça por meio do WhatsApp.
Também será expedida uma carta precatória para a comarca onde ele reside. O documento judicial servirá para garantir o cumprimento do alvará de soltura e possibilitar a instalação e fiscalização da monitoração eletrônica fora de Roraima.
Investigação aponta esquema milionário
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontam que os influenciadores digitais integravam um esquema voltado à promoção ilegal de plataformas de apostas online conhecidas popularmente como “jogo do tigrinho”.
Segundo os investigadores, o grupo teria movimentado cerca de R$ 260 milhões em um período de dois anos. A suspeita é de que os envolvidos utilizavam as redes sociais para atrair novos apostadores com promessas enganosas de ganhos rápidos e fáceis.
De acordo com a polícia, os influenciadores eram recrutados diretamente por plataformas de jogos para divulgar os aplicativos e estimular seguidores a realizarem apostas.
O delegado Eduardo Patrício, responsável pelo caso, afirmou que as investigações identificaram uma estrutura organizada para ampliar o alcance das plataformas nas redes sociais.
“As investigações demonstraram que havia uma atuação organizada, com uso estratégico das redes sociais para alcançar um grande número de vítimas. Trata-se de uma prática criminosa com elevado potencial de dano coletivo”, destacou o delegado.
Uso de contas ‘demo’ enganava seguidores
Um dos principais pontos apontados pela investigação envolve a utilização de contas “demo”, também chamadas de contas de demonstração. Segundo a Polícia Civil, esses perfis eram programados para apresentar apenas resultados positivos e ganhos constantes.
Na prática, os influenciadores gravavam vídeos e publicavam imagens mostrando supostos lucros fáceis obtidos nas plataformas de apostas. Porém, os investigadores afirmam que os resultados exibidos não representavam apostas reais.
Os conteúdos divulgados eram acompanhados de links específicos que direcionavam seguidores diretamente para os sites de apostas. A estratégia, segundo a polícia, criava uma falsa sensação de facilidade nos ganhos e induzia usuários ao erro.
As autoridades acreditam que milhares de pessoas possam ter sido impactadas pelas publicações feitas pelos investigados nas redes sociais.
Ostentação fazia parte da estratégia
Outro elemento identificado durante as investigações foi a utilização de uma rotina de ostentação para reforçar a credibilidade das plataformas de apostas.
A Polícia Civil afirma que os influenciadores exibiam viagens, carros de luxo, procedimentos estéticos e bens materiais como forma de transmitir aos seguidores a ideia de enriquecimento rápido proporcionado pelos jogos online.
Os investigadores apontam que esse estilo de vida era constantemente associado às apostas divulgadas nas redes sociais, funcionando como mecanismo de convencimento para atrair novos usuários.
A prática teria ampliado significativamente o alcance das plataformas e aumentado o número de pessoas interessadas em participar dos jogos.
Caso repercute nas redes sociais
A operação ganhou ampla repercussão nas redes sociais desde a prisão dos influenciadores, principalmente pelo alcance digital dos envolvidos e pela popularidade do chamado “jogo do tigrinho” em diversas regiões do país.
Nos últimos meses, autoridades brasileiras intensificaram o combate à divulgação irregular de plataformas de apostas online, especialmente quando há suspeitas de publicidade enganosa, lavagem de dinheiro e manipulação de resultados.
Especialistas alertam que o uso de influenciadores digitais nesse tipo de estratégia pode potencializar o alcance das apostas, principalmente entre jovens e pessoas vulneráveis financeiramente.
O caso segue em investigação e a Polícia Civil não descarta novas diligências para identificar outros possíveis envolvidos no esquema.



