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Hoje, só por hoje, não tratarei de política. O motivo é dos mais elevados. Escute.
Falarei d´Ela, a voz, cujo corpo partiu desta para outra na quinta-feira (28/08), aos 84 anos. A causa da morte não foi revelada.
Ela flutuava além do bem e do mal de todos os poderes. Pairava sobre todas as tretas e polarizações.
Uma pausa na política para uma elegia à locutora Íris Lettieri, a carioca do bairro do Flamengo que se fez, por décadas, a voz dos aeroportos brasileiros.
A voz capaz de suprimir o medo de avião do mais panicado dos passageiros. A arte zen do budismo a cada sílaba, a cada vocábulo… A fonética pacificadora das chegadas e partidas.
Nada melhor do que ouvir a voz antes de embarcar, especialmente, no Antônio Carlos Jobim, o Galeão — onde reverberou por mais tempo.
Ela tinha a manha de nos levar aos céus antes mesmo de qualquer decolagem.
Na vastidão do Galeão, a voz nos pegava no colo, sussurrava ao miocárdio, dizia que uma fêmea, muitas vezes, sequer precisa de um corpo.
Mulher é metonímia, parte pelo todo. Basta um narizinho aqui, uma omoplata acolá, basta uma voz… e está ganha a vida.
A carioca dona da voz mais bonita do Brasil foi a primeira mulher a apresentar um telejornal no país, na TV Globo, anos 1970. Depois foi para a TV Manchete, foi modelo, cantora, embalou a Tradição na avenida, antes do samba-enredo dos aviões.
Homens do mundo inteiro desejaram fazer amor com a voz de Iris. O grupo “Faith No More”, por exemplo, incluiu, sem permissão, uma chamada de aeroporto na faixa “Crack Hitler”, do disco Angel Dust, de 1992. Deu um rolo danado. Achei uma bela homenagem, um “sample” singelo de quem deveras sentiu o sopro divino no cangote.
Para fazer amor com uma voz não é preciso gemido algum, não é aquela coisa explícita de Brigitte Bardot na música “Je t’aime moi non plus”. Menos, menos…
Na voz de Iris, basta ouvir a chamada de um Air France, voo 447, Rio/Paris… Basta um Gol, voo 1150, do Rio de Janeiro para o Recife, com afeto e com atraso.
A voz de Íris era a voz de uma viagem de férias contra o stress de todas as metrópoles.
A voz do Galeão superava, naturalmente, até os sussurros mortais de Scarlett Johansson no filme “Her”, você concorda?
A voz soava como o feitiço de Elza no ouvido de Garrincha.
A voz afinava com o Tom desembarcando de Nova York no Rio de Janeiro, com sede de chope e saudade do Vinícius.
A voz seguirá pedindo calma aos aflitos de todos os aeroportos.



