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Donald Trump, em sua versão laranja 4.0, tem assombrado o mundo com uma fúria que mistura o grotesco e o trágico. Suas bravatas, ameaças e sequestros, que antes poderiam ser vistos como delírios de um reality show, materializaram-se em ações concretas, como a recente operação militar que levou à queda de Nicolás Maduro na Venezuela. O espetáculo, transmitido quase que ao vivo para uma audiência global atônita, serviu como um trailer sombrio do que estaria por vir. Sem qualquer verniz linguístico, em um circo midiático calculado e invariavelmente patético, Trump agora volta suas ameaças para Cuba, Colômbia e México, prometendo expandir suas operações e redesenhar fronteiras ao sabor de seus caprichos imperiais.
Enquanto o mundo observa a expansão dessa doutrina de força bruta, algo igualmente assustador ocorre dentro de suas próprias fronteiras. A sua polícia de imigração, o ICE, tornou-se um esquadrão que parece operar acima da lei, ceifando vidas de cidadãos americanos com uma desfaçatez arrepiante. O caso de Renee Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, assassinada a sangue frio por um agente do ICE em Minneapolis em 7 de janeiro de 2026, é um retrato brutal dessa realidade. Good, que estava em seu carro observando uma ação do ICE em seu bairro, foi baleada na cabeça. Sua esposa, presente na cena, resumiu a disparidade trágica da situação: “Nós tínhamos apitos. Eles tinham armas”. A administração Trump, em uma inversão orwelliana dos fatos, classificou-a como “terrorista doméstica”.
Diante de tal cenário, a famosa citação de Shakespeare ecoa com uma pertinência assustadora. Em “Hamlet”, não é o príncipe, mas o oficial Marcellus quem, ao avistar o fantasma do rei assassinado, declara: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (Something is rotten in the state of Denmark). A frase, que se tornou um sinônimo para corrupção e decadência moral, parece talhada para descrever o momento atual. E, por uma ironia da história, a Dinamarca literal, e não apenas a de Shakespeare, encontra-se no centro de uma das mais recentes obsessões de Trump: a Groenlândia.
O desejo de Trump pela maior ilha do mundo não é um mero capricho. A Groenlândia possui uma importância estratégica monumental, tanto por sua localização geográfica no Ártico, uma nova fronteira geopolítica, quanto pela Base Espacial de Pituffik (antiga Thule), a instalação militar mais ao norte dos EUA. Além disso, seu subsolo é um tesouro de recursos naturais, incluindo vastos depósitos de terras raras, minerais essenciais para a tecnologia moderna e para a chamada “energia verde”, cujo fornecimento global é hoje dominado pela China. A compra ou anexação da Groenlândia seria, na visão de Trump, um golpe duplo: garantiria a hegemonia militar americana no Ártico e quebraria a dependência de um rival estratégico.
A insistência de Trump gerou até mesmo um meme que viralizou nas redes sociais, sugerindo uma “solução diplomática” do tipo do “Antigo Regime” dos monarcas europeus: que seu filho Barron se casasse com a princesa Isabella da Dinamarca, recebendo a Groenlândia como dote. A piada, embora absurda, revela a percepção pública de que as ambições de Trump remetem a uma era de impérios e conquistas dinásticas. Mas essa história de cobiça não é de hoje e, como sabemos, a história da hoje “limpinha” Dinamarca também tem suas páginas de colonização e imperialismo.
A Dinamarca iniciou a exploração e colonização da Groenlândia e de seus povos nativos, os Inuit, no século XVIII. Em 1721, o missionário Hans Egede chegou à ilha com o apoio da coroa dano-norueguesa, marcando o início de um longo período de dominação colonial que só “terminaria” formalmente em 1953, com a integração da Groenlândia ao reino dinamarquês. Os Estados Unidos, por sua vez, também têm um longo histórico de interesse na ilha. Em 1946, o presidente Harry Truman chegou a oferecer secretamente 100 milhões de dólares em ouro para comprar o território, uma oferta que a Dinamarca recusou.
Hoje, na nova e esfacelada ordem mundial, a investida de Trump pela Groenlândia, somada à sua violência doméstica e externa, mostra Shakespeare na longa duração. A podridão não está apenas no reino de Donald, mas em um sistema que normaliza a ganância, a violência e a dominação como ferramentas legítimas de poder. O fantasma que assombra o castelo de Elsinore não é apenas o de um rei traído, mas o do próprio capital, em sua busca incessante por novos territórios para explorar e novas vidas para consumir. Há, de fato, algo de muito podre no reino do Capital.

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