Enquanto grande parte das escolas brasileiras ainda mantém o ensino distante da realidade dos alunos, uma comunidade no interior do Amazonas vem fazendo exatamente o oposto: transformando a floresta em ferramenta de aprendizado. Na comunidade Igapó-Açu, no município de Manicoré, a 260 quilômetros de Manaus, rio, árvores, brincadeiras e conhecimentos tradicionais passaram a ocupar espaço central dentro da educação escolar.
A experiência ganhou ainda mais força durante o 2º Encontro de Formação Pedagogia da Floresta, realizado pela Casa do Rio com financiamento integral da Katia Francesconi Foundation. A formação aconteceu entre os dias 16 e 18 de abril de 2026, dentro da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental da comunidade, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu.
Diferente da primeira edição, realizada em 2023 e voltada para mais de 300 professores da rede municipal, desta vez o foco foi aprofundar as práticas pedagógicas dentro da própria escola e do território onde ela está inserida.
Durante três dias, professores, gestores, auxiliares, merendeiras, comunitários e parceiros participaram de oficinas, vivências e atividades construídas a partir da realidade amazônica. Ao todo, 21 participantes integraram a formação conduzida por cinco consultoras.
A chamada Pedagogia da Floresta parte do princípio de que o aprendizado não acontece apenas dentro da sala de aula. O conhecimento também está nos modos de plantar, pescar, remar, cozinhar, brincar, colher e viver em comunidade.

Segundo a coordenadora do projeto, Lia Mandelsberg, a proposta representa um amadurecimento da atuação da Casa do Rio junto à educação pública amazônica.
Esse modelo de ensino já faz parte da rotina da comunidade desde 2017, quando a Casa do Rio contribuiu para a construção da escola com foco em práticas alinhadas aos modos de vida locais.
As atividades reuniram práticas artísticas, corporais, lúdicas e conceituais em um processo que dialogou diretamente com os ritmos da floresta e das águas amazônicas.
Entre os conteúdos trabalhados estiveram a Pedagogia da Onça Pintada, jogos inspirados no Teatro do Oprimido e atividades voltadas à compreensão das infâncias e identidades construídas no território.

A consultora Annie Martins, docente de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), destacou o impacto da experiência.
“Como mulher, mãe e indígena Tikuna em retomada, vivenciar e estimular trocas sobre uma educação mais sensível foi profundamente transformador”, afirmou.
Segundo ela, os jogos teatrais ajudaram os participantes a redescobrir conexões com o próprio território.
“Com os jogos teatrais, redescobrimos nosso corpo-bicho, corpo-rio, corpo-território, impregnado pela floresta e pelo modo de viver no Igapó”, completou.
Além das práticas pedagógicas, o encontro também reforçou a importância das brincadeiras tradicionais como parte essencial do aprendizado. Na comunidade, atividades como subir em árvores, remar, brincar com sementes, mergulhar no rio e reconhecer plantas e animais fazem parte da construção do conhecimento das crianças.
A programação também incluiu debates sobre alimentação, cuidado e cultura alimentar amazônica. A atividade de encerramento foi conduzida pela consultora Renata Peixe-Boi, por meio da Cozinha Boca da Mata, com foco no preparo de alimentos utilizando ingredientes locais e sem agrotóxicos.
Para a coordenadora, o apoio da Katia Francesconi Foundation foi essencial para garantir a continuidade e o aprofundamento do projeto dentro da comunidade.
Em Igapó-Açu, onde crianças crescem aprendendo entre rios, árvores e saberes compartilhados entre gerações, a escola vem mostrando que educação e território não precisam caminhar separados e que, na Amazônia, a floresta também ensina.


