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segunda-feira, 1 junho, 2026
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Entre Flores e Ruínas: o que os cemitérios revelam sobre nós

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Os cemitérios são lugares que, à primeira vista, costumam provocar arrepios. Seus portões de ferro e o silêncio lúgubre que os envolvem parecem afastar a efervescência da vida que corre nas ruas adjacentes. No entanto, quando cruzamos essas fronteiras, descobrimos que esses espaços revelam muito mais do que o medo da morte e o fascínio pelo macabro. Eles são, na verdade, espelhos precisos da sociedade que os construiu. Ao caminharmos por suas alamedas arborizadas e entre seus mausoléus de pedra, o que lemos – além dos nomes e datas – são a própria narrativa da cultura, da estratificação social e das transformações de uma época.

A morte, assim como a vida, possui uma história, e suas representações não são estáticas ao longo do tempo. O historiador francês Philippe Ariès, em sua obra clássica “O Homem Diante da Morte”, demonstrou de forma brilhante como as atitudes do Ocidente perante a finitude mudaram drasticamente. Se na Idade Média a “morte domada” era encarada com naturalidade, inserida no cotidiano e nos ritos coletivos, a modernidade transformou-a na “morte interdita”. No século XX, ela foi varrida para debaixo do tapete hospitalar, escondida da vista pública em nome de um hedonismo que recusa o sofrimento. Contudo, entre a morte medieval e o tabu contemporâneo, houve o período da “morte do outro” – os séculos XVIII e XIX -, quando a perda se tornou intolerável, romântica, e os cemitérios se converteram em monumentos à memória individual e familiar.

Nesse contexto, o Cemitério do Père-Lachaise, em Paris, ergue-se como o mais emblemático do Ocidente. Inaugurado em 1804 por ordem de Napoleão Bonaparte, sob a égide de que “todo cidadão tem o direito de ser enterrado independentemente de raça ou religião”, o espaço foi projetado pelo arquiteto Alexandre-Théodore Brongniart como um garden cemetery, inspirado nos jardins ingleses. Inicialmente rejeitado pelos parisienses por estar distante do centro, ganhou prestígio após a transferência estratégica dos restos mortais de figuras como Molière e Jean de La Fontaine.

O Père-Lachaise acabou sintetizando, em seu cosmopolitismo, a história dos séculos XIX e XX. Seus 44 hectares são uma verdadeira enciclopédia de pedra. Lá repousam desde os pilares da literatura, como Honoré de Balzac e Oscar Wilde, até gênios da música como Frédéric Chopin e Georges Bizet. O cemitério abraça também os grandes nomes da cultura pop e da boemia: é possível cruzar com o túmulo de Edith Piaf, eternamente coberto de flores, e logo adiante encontrar a sepultura de Jim Morrison, ponto de peregrinação para roqueiros do mundo inteiro. Cada jazigo conta uma história, cada escultura representa a estética de sua época, e o conjunto da obra narra a efervescência cultural de uma Paris que já foi a capital cultural do mundo.

Atravessando o oceano, encontramos em São Paulo lógicas dessa mesma dinâmica. O Cemitério da Consolação, fundado em 1858, guarda imensas semelhanças com o seu par francês. Nascido de preocupações sanitaristas para evitar que os corpos continuassem a ser sepultados nas igrejas durante epidemias, o espaço logo foi apropriado pela aristocracia cafeeira e pela nascente burguesia paulistana. O Consolação tornou-se um museu a céu aberto da arte tumular brasileira, adornado por esculturas de Victor Brecheret e mausoléus projetados por Ramos de Azevedo.

Assim como em Paris, a Consolação é a morada de personagens fundamentais da nossa história e cultura. Lá repousam os artífices do Modernismo, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, além de figuras populares como Monteiro Lobato e José Alcântara Machado. Caminhar por suas quadras é percorrer a história da elite intelectual e econômica que forjou a identidade de São Paulo.

Contudo, a comparação entre as duas necrópoles esbarra em uma realidade incômoda. Enquanto o Père-Lachaise é regularmente preservado, recebendo mais de três milhões de visitantes anuais que passeiam por seus caminhos bem cuidados, o Cemitério da Consolação encontra-se em um acelerado processo de precarização. Especialmente após os recentes processos de concessão à iniciativa privada, acumulam-se denúncias de abandono, lixo espalhado, violação de ossuários e até desapropriação de jazigos históricos.

É interessante – e trágico – notar como as nossas elites tratam a sua própria memória. Se em Paris a preservação do Père-Lachaise é um atestado do valor que a sociedade francesa atribui à sua história, o abandono da Consolação revela uma face cruel da nossa formação social. No Brasil, o descarte da memória parece ser a regra. Se as nossas elites sequer conseguem preservar os túmulos monumentais de seus próprios pares – obras de arte que supostamente deveriam ser patrimônio de todos -, o que dirá do tratamento dispensado aos mortos esquecidos, marginalizados e invisibilizados nas periferias da vida e da morte?

Os cemitérios, portanto, não nos falam apenas sobre como morremos, mas sobretudo narra como vivemos. O Père-Lachaise e a Consolação, em seus contrastes atuais, narram a diferença entre uma sociedade que monumentaliza a sua história e outra que a deixa ruir. Afinal, a forma como cuidamos daqueles que já partiram é o imagem mais exata do respeito que temos por nós mesmos…e se o leitor ou a leitora acharam a última frase um tanto conservadora, dou-lhe dois piparotes:

1. Sim, é fácil preservar seus monumentos roubando o dinheiro do mundo com seu imperialismo colonialista…Mas que boniteza o Père-Lachaise, não?!

2. A classe trabalhadora deveria valorizar um patrimônio que não é seu? Vou reformular: Por que preservar um patrimônio que ao fim e ao cabo nos explora? Ora, essa é a grande pergunta desde que em 1789 a fúria dos populares detonou o patrimônio dos reis da França…viver (e morrer) para derrubar tiranos, eis a questão.

 

“Monumento aos mortos”, cemitério Père-Lachaise , Paris, 20º arrondissement. Escultor: Paul-Albert Bartholomé .





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