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sexta-feira, 1 maio, 2026
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como a China busca garantir refeições acessíveis para a 3ª idade

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Por Mauro Ramos – Brasil de Fato

A China conta hoje com mais de 320 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 23% da população total do país. Para dar conta de um envelhecimento populacional acelerado, o programa Bem Viver, do Brasil de Fato, mostra como o governo vem construindo, bairro a bairro, uma rede de serviços comunitários que tem nas cantinas um de seus pilares centrais.

O modelo começou como projetos piloto em cidades como Xangai, Hangzhou e Pequim, ainda na década de 2010, e ganhou escala nacional a partir de 2022, quando foi incorporado ao 14° Plano Quinquenal como parte da estratégia de cuidados para a terceira idade. Hoje, o país estima ter quase 80 mil pontos de serviço de alimentação para idosos, entre cantinas comunitárias completas, com cozinha própria, e locais simplificados de distribuição que apenas entregam refeições prontas. Do total, entre 13 mil e 15 mil são cantinas autônomas.

Os espaços oferecem refeições com baixo teor de óleo, sal e açúcar, voltadas para as necessidades nutricionais da terceira idade. Os preços variam conforme a localidade e o perfil do usuário: idosos pagam menos, graças a subsídios governamentais, enquanto os demais clientes pagam preço de mercado. Em muitos municípios, cada refeição recebe um repasse direto do governo de 3 a 5 yuans, cerca de 2 a 4 reais. Pessoas com menos recursos, com deficiência, ou idosos que perderam filhos únicos podem pagar apenas 2 yuans (cerca de R$ 1,50), ou até comer gratuitamente, dependendo da localidade.

A abertura para um público mais amplo, como entregadores e trabalhadores do bairro, é também uma estratégia de viabilidade: os recursos públicos cobrem parte dos custos, mas não todos.

Não apenas alimentação

Em Pequim, uma das experiências mais completas do modelo fica na rua Wu Lao Xin Jie, cujo nome pode ser traduzido como “Nossa Rua dos Idosos”, em Beicaochang, no distrito de Xicheng. Em apenas 510 metros, a rua concentra 12 unidades de serviço voltadas para a terceira idade: cantina comunitária, apartamento para idosos, posto de saúde, escola para idosos, salão de beleza com corte por um yuan e um centro cultural e de lazer, além de restaurantes tradicionais da culinária de Pequim. O espaço foi visitado pelo presidente Xi Jinping em fevereiro de 2026, durante a véspera do Ano Novo Lunar.

Yang, proprietário da cantina que funciona na rua, explica que a eficiência do serviço passa pelo controle da cadeia de abastecimento. A maior parte dos insumos é comprada diretamente no Mercado Atacadista Xinfadi, o maior centro de distribuição agrícola de Pequim, eliminando intermediários e reduzindo os custos entre 15% e 20%. Nos horários de menor movimento, um balcão de macarrão opera no mesmo espaço, e o lucro gerado ajuda a cobrir o desconto de 20% oferecido aos idosos. “Não se trata apenas de economizar dinheiro. Trata-se de redirecionar valor para quem mais importa: nossos idosos”, diz Yang.

Sang Lanhua, moradora do bairro, frequenta a cantina regularmente. Para ela, a rua representa mais do que uma série de serviços. “Em 15 minutos a pé, consigo comprar alimentos frescos, fazer uma refeição quente, consultar um médico, cortar o cabelo, pegar um livro emprestado ou encontrar amigos para tomar chá. Não é só comodidade. É tranquilidade”, afirma.

Metas para o próximo quinquênio

O 15° Plano Quinquenal, aprovado no início de 2026, estabelece indicadores concretos para a expansão dos serviços. Entre as metas: que 70% das comunidades urbanas e rurais tenham cobertura de serviços de cuidado a idosos até 2030, e que todo idoso tenha acesso a refeição e assistência médica a até 15 minutos de casa. O plano prevê ainda a construção de uma rede integrada de serviços nos níveis municipal, de bairro e comunitário.

O modelo das cantinas comunitárias foi testado e implementado em diferentes localidades ao longo do 14° Plano. Agora, o objetivo é consolidar e expandir a política, com metas quantitativas claras. Muitas políticas na China funcionam dessa maneira: são implementadas e testadas em nível local durante alguns anos para depois, com ajustes, se tornarem referência nacional.

Para Sang Lanhua, o que já existe na Wu Lao Xin Jie é uma antecipação do que o plano busca levar para todo o país. “Essa rua melhora a cada ano. Para nós, idosos, a Wu Lao Xin Jie não é apenas um lugar para morar, é um lugar para viver bem. O que temos aqui, todo idoso na China merece”, conclui.





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