Por Bruno Falci – Brasil de Fato
A Universidade Renmin, em Pequim, recebeu na quarta-feira (15) um auditório cheio para uma apresentação que reuniu jovens músicos do Brasil e da China. Estudantes e professores ocupavam o espaço antes mesmo do início da apresentação, com bandeiras dos dois países distribuídas pelo ambiente.
No palco, dezenas de músicos brasileiros e chineses se apresentaram ao longo da noite. Em vários momentos, a reação do público foi imediata, especialmente quando as formações se encontravam em cena.
O ponto mais marcante foi “Canto de Xangô”, interpretado pela Orquestra Forte de Copacabana, em uma performance que cruzou africanidade brasileira, ópera de Pequim e robôs pianistas.
O encontro integra a programação do chamado Ano Cultural Brasil–China 2026, inserido no contexto de aproximação diplomática entre Brasil e China, reforçada em agendas recentes entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente chinês Xi Jinping, incluindo a visita de Estado do líder chinês ao Brasil em 2024, com passagens pelo Rio de Janeiro durante a Cúpula do G20 e reuniões em Brasília, quando foram reafirmados compromissos de ampliação da cooperação cultural, educacional e entre povos.
A atividade foi organizada pela Associação de Amizade do Povo Chinês com os Países Estrangeiros, em parceria com a Embaixada do Brasil na China, além da Universidade Renmin da China, do Governo Municipal de Pequim e do Comitê da Liga da Juventude Comunista da China.
A apresentação contou ainda com a presença do embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão, que acompanhou o evento ao lado de autoridades chinesas e representantes das instituições organizadoras.
Ópera de Pequim, instrumentos tradicionais e tecnologia
Um dos momentos centrais da noite foi a apresentação do grupo artístico da Universidade Renmin com trechos da ópera de Pequim, uma das expressões mais tradicionais do teatro musical chinês, marcada pela combinação de música, dança e interpretação cênica altamente codificada.
O gênero se apresentou com figurinos tradicionais, gestualidade precisa e uma construção vocal característica, diferente das formas operísticas ocidentais. A base musical foi sustentada por instrumentos tradicionais chineses como o erhu, o pipa e percussões típicas, que ajudam a compor a narrativa dramática das cenas.
Ao longo da apresentação, esses elementos dialogaram com o repertório brasileiro e com intervenções contemporâneas no palco, criando um contraste entre tradição e experimentação tecnológica.
O espetáculo foi estruturado em três partes.
Na primeira, “Atravessando Montanhas”, foram executadas obras como “Tico-Tico no Fubá”, “Flor de Jasmin” e “Cavalo Hui Liu”, marcando a abertura do encontro musical entre os dois países.
Na segunda, “Cenários em Transformação”, o grupo chinês apresentou peças tradicionais e contemporâneas, enquanto a Orquestra Forte de Copacabana interpretou “Garota de Ipanema”, “Canto de Xangô” e trechos de ópera de Pequim, em momentos de maior integração entre as formações.
Na terceira, “Caminhando Juntos”, a presença da tecnologia ganhou destaque com a participação da banda robótica Linkerbot, que executou obras como “Íris”, “Desejo”, “Mar de Estrelas” e “Auld Lang Syne”, ampliando o diálogo entre música, inovação e performance.

Formação comunitária, bastidores e projeto social
A Orquestra Forte de Copacabana é um projeto de base comunitária de formação musical no Rio de Janeiro, ligado ao Instituto Rudá e à Rio Monte, e voltado à inserção de jovens de territórios populares, incluindo favelas, em processos de formação artística e circulação cultural internacional.
A iniciativa completa 15 anos e se consolidou como um espaço de formação e intercâmbio cultural, tendo sido reconhecida como patrimônio cultural imaterial do estado do Rio de Janeiro.
A diretora do projeto, Márcia Melchior, é uma das responsáveis pela condução da orquestra desde sua criação e define a trajetória da orquestra como um processo contínuo de formação e expansão.
Segundo ela, a Rio Monte surgiu com o objetivo de ampliar o diálogo cultural entre os dois países. “A Rio Monte nasceu com o objetivo de divulgar a cultura chinesa. Não é só a orquestra, também promovemos exposições e outros eventos ligados à China, realizados dentro do Forte de Copacabana”, conta.
Durante a pandemia, o projeto enfrentou dificuldades financeiras e chegou a um momento crítico de continuidade. “Estivemos próximos de encerrar as atividades, mas conseguimos retomar com apoio de parceiros chineses”, relata.
Desde então, a orquestra ampliou suas atividades, fortalecendo seu papel como espaço de formação musical para jovens de origem popular e de territórios periféricos, ao mesmo tempo em que expande sua atuação internacional.
“A música é universal. Você não precisa entender a língua para sentir”, diz.
Juventude, periferia e experiência internacional
A violista Nathália Garcia tem 21 anos e integra uma geração de jovens músicos formados em projetos sociais e orquestras de formação no Rio de Janeiro, que hoje participam de intercâmbios internacionais.
“Eu toco viola e tenho 21 anos. Estou na música desde os 16 anos, quando comecei a participar de projetos sociais e orquestras jovens”, conta, em entrevista ao Brasil de Fato.
Ela relata que não tinha formação musical anterior e que o contato com a música aconteceu ainda na adolescência. “Eu não tocava nada, mas comecei a me interessar, peguei o violão e passei a estudar todos os dias.”
No ano seguinte, ingressou na Academia Juvenil da Orquestra Petrobras Sinfônica, programa de formação que reúne aulas de teoria musical, percepção e prática orquestral em conjunto. “A gente tinha muita aula de teoria e também prática em conjunto, dentro da orquestra”, explica.
Durante a passagem por Beijing, Nathália destaca o impacto do intercâmbio cultural e da convivência com músicos chineses em diferentes etapas da apresentação.
“A gente aprende muito na troca. Isso aqui não pode ser restrito”, afirma.
Do palco, ela descreve o ambiente como intenso, com auditório cheio de estudantes e professores, além de forte reação do público durante as apresentações.



