O calote na saúde do Amazonas voltou a atingir diretamente a população mais vulnerável. A paralisação parcial dos médicos ultrassonografistas nas maternidades da rede estadual expõe uma crise de pagamentos que o governo insiste em ignorar. O impacto é imediato: menos exames, mais insegurança e gestantes penalizadas por uma gestão que não cumpre obrigações básicas.
Desde a zero hora desta segunda-feira, 15 de dezembro de 2025, os profissionais reduziram as atividades após meses sem receber por plantões já realizados. O débito se aproxima de R$ 2 milhões, envolvendo médicos contratados por meio da empresa ALS Soluções, responsável pela intermediação dos serviços nas unidades públicas.
Trata-se de trabalho executado, comprovado e entregue. Mesmo assim, o pagamento não chegou.
Calote assumido e paralisação deliberada
A decisão foi tomada em assembleia do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam). Os profissionais chegaram ao limite financeiro. Segundo a entidade, a inadimplência atualizada soma R$ 1.926.005,63, valor referente a plantões médicos regularmente cumpridos nas maternidades estaduais por profissionais vinculados à ALS Soluções.
Não é ameaça política. Não é greve ideológica. É falta de pagamento.
Mesmo diante do descaso, os médicos mantêm 40% do atendimento, respeitando a legislação de serviços essenciais. Enquanto isso, o governo do Amazonas segue sem apresentar qualquer solução concreta.

Ultrassom é essencial, mas o governo trata como detalhe
Ultrassonografia é exame fundamental no pré-natal. Ela permite identificar riscos, prevenir complicações e salvar vidas. A redução desse serviço significa assumir conscientemente o risco de atrasar diagnósticos e ampliar danos à saúde materno-fetal.
O Simeam reforça que a paralisação ocorre de forma pacífica, sem bloqueio de unidades. O problema é simples e grave: quem trabalhou não recebeu.
Governo descumpre decisão que garantia pagamento
Mesmo diante de orientações que asseguravam o pagamento dos serviços já executados, o governo do Amazonas não cumpriu a determinação. A regra era clara: contratos poderiam ser interrompidos, mas os plantões realizados deveriam ser pagos.
Ao ignorar isso, o Estado provocou um efeito em cadeia. Médicos ficaram sem renda. A ALS Soluções ficou sem repasse. O atendimento à população foi reduzido.
Unimais também aponta dívida milionária
A crise não se restringe à ALS Soluções. A empresa Unimais também afirma enfrentar inadimplência grave por parte do governo do Amazonas. Segundo a empresa, os atrasos ultrapassam 11 meses, com valores em aberto desde 2024.
Somente a dívida acumulada supera R$ 3,6 milhões, somando cerca de R$ 800 mil referentes a 2024 e mais de R$ 400 mil de períodos anteriores, além de valores recentes ainda não quitados.
A Unimais relata que salários, férias e décimo terceiro de funcionários foram pagos com atraso e que contratos estão suspensos por absoluta falta de condições financeiras.
ALS Soluções confirma colapso financeiro
Em nota, a ALS Soluções afirmou que presta serviços à população amazonense há anos, mas que enfrenta um colapso financeiro provocado pela falta de repasses do Estado. Segundo a empresa, o valor em aberto ultrapassa R$ 11,5 milhões desde julho deste ano.
A empresa reconhece que não conseguiu pagar seus colaboradores, majoritariamente médicos, e reforça que isso ocorre exclusivamente pela ausência de repasses governamentais.
Silêncio oficial enquanto gestantes pagam a conta
Até o fechamento desta reportagem, o governo do Amazonas não se manifestou oficialmente sobre os atrasos, nem apresentou cronograma de pagamento à ALS Soluções ou à Unimais.
Enquanto isso, gestantes enfrentam atendimento reduzido nas maternidades públicas. O calote na saúde do Amazonas não atinge números abstratos. Ele atinge mulheres grávidas, bebês e profissionais que sustentam o SUS sem receber.
Crise estrutural que se repete
Entidades médicas avaliam que atrasos em contratos terceirizados se tornaram rotina na saúde estadual. Médicos são empurrados ao limite enquanto o governo se esconde atrás de burocracias e do silêncio institucional.
O que está em jogo não é apenas dinheiro. É a dignidade do trabalho médico e o direito básico à saúde. Sem pagamento, não há normalidade possível.



