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Brasil tem 8,4 milhões que não sabem ler nem escrever, mais da metade no Nordeste

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Por Isabela Palhares

(Folhapress) – O Brasil registrou, na última década, quedas consecutivas na taxa de analfabetismo da população acima de 15 anos, mas ainda tinha 8,4 milhões que não sabem ler e escrever em 2025. Mais da metade dessas pessoas (57,4%) estavam no Nordeste.

Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e foram divulgados nesta sexta-feira (19).

Em 2025, a taxa de analfabetismo no Brasil para a população com 15 anos ou mais de idade foi de 4,9% —é a primeira vez que o país fica abaixo da marca de 5% para esse grupo. Em 2016, início da série histórica do indicador, a proporção era de 6,7%, o que representava mais de 10,6 milhões de pessoas.

Em relação a 2024, houve uma redução de 0,4 ponto percentual na taxa nacional, o que representa uma diminuição de cerca de 592 mil pessoas analfabetas no país.

A quantidade de analfabetos no Nordeste (4,8 milhões) supera, como comparação, a população inteira do Amazonas estimada na Pnad (pouco mais de 4,1 milhões).

A pesquisa considera como analfabetos aqueles que não conseguem ler e escrever um bilhete simples. O Brasil tinha como meta, estabelecida pela lei do PNE (Plano Nacional de Educação), erradicar a taxa de analfabetismo nessa faixa da população até o fim de 2024.

Depois do Nordeste, o Sudeste concentra a maior parte dos analfabetos do país, 20,4%. Em seguida, aparece o Sul (14,8%), Norte (8,2%) e o Centro-Oeste (7,9%).

“Todas as unidades da federação, com exceção do Amapá, conseguiram reduzir a taxa de analfabetismo nesse período, mas os estados com percentuais mais elevados continuam no Nordeste. Alagoas e Piauí têm maiores índices”, diz William Kratochwill, pesquisador do instituto.

A exemplo de outras pesquisas, como o Censo Demográfico 2022, a Pnad também indica que o problema atinge sobretudo as gerações mais velhas. Isso ocorre em razão da existência de gargalos mais intensos para o acesso ao ensino no passado.

Enquanto a taxa de analfabetismo na população acima de 15 anos é de 4,9%, na faixa etária acima dos 60 anos o índice é de 13,8%. Apesar de ser ainda bastante elevada, a taxa era de 20,5%, em 2016.

Eles representam 58% do total de analfabetos no país. Dos 8,4 milhões que não sabem ler e escrever, 4,8 milhões têm mais de 60 anos.

Pela primeira vez houve uma inversão em relação ao gênero, com a taxa de analfabetismo entre as mulheres menor do que a dos homens com mais de 60 anos. Em 2025, ela foi de 13,7% para elas e de 14,1% para eles.

“Historicamente a taxa de analfabetismo era maior entre as mulheres. Essa inversão, especialmente entre os mais velhos, sugere avanço na escolarização feminina e aponta para uma possível reversão do legado de desigualdade educacional do passado”, diz Kratochwill.

Apesar da redução da desigualdade de gênero na escolarização dessa faixa etária, os dados mostram a persistência da desigualdade racial.

A taxa entre pessoas pretas ou pardas com 60 anos ou mais permanece quase três vezes superior à observada entre pessoas brancas da mesma faixa etária, evidenciando um legado estrutural de exclusão educacional

Como mostrou a Folha, apesar do grande contingente de adultos não alfabetizados no país, a oferta de EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade para aqueles que não tiveram garantido o direito de estudar na idade certa, caiu ao menor patamar de matrículas desde o início da série histórica, em 1996.

A Constituição define que a oferta de turmas de EJA é obrigatória no Brasil. Há anos, no entanto, professores e estudantes denunciam o esvaziamento da modalidade nos estados e municípios.

Em muitas redes de ensino, governos têm concentrado as turmas dessa modalidade em poucas escolas, o que dificulta o acesso da população que precisa.

Bragança (PA), 13/06/2025 – Crianças da Vila dos Pescadores de Ajuruteua participam da Alfamangue, atividade de alfabetização baseada na temática do manguezal do Projeto Mangues da Amazônia, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 13/06/2025 – Crianças da Vila dos Pescadores de Ajuruteua participam da Alfamangue, atividade de alfabetização baseada na temática do manguezal do Projeto Mangues da Amazônia, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nível de instrução

A pesquisa mostra também avanço do nível de instrução da população adulta brasileira. A proporção de pessoas com mais de 25 anos que terminaram a educação básica obrigatória, ou seja, concluíram ao menos o ensino médio, chegou a 57,4%, em 2025. Uma década atrás esse índice era de 46%.

Os dados mostram ainda que 59,4% das mulheres com 25 anos ou mais de idade haviam completado, ao menos, a educação básica obrigatória, enquanto entre os homens esse percentual era de 55,2%.

Esse indicador também aponta para a persistência da desigualdade racial no avanço da trajetória escolar. Enquanto 64,9% das pessoas de cor branca haviam concluído o ciclo básico educacional, 51,3% das pessoas de cor preta ou parda terminaram o ensino médio, uma diferença de 13,6 pontos percentuais. Em 2016, a diferença entre os dois grupos era de 16,4 pontos percentuais.

Apesar da persistente desigualdade, é a primeira vez que o Brasil consegue ultrapassar a marca de ter mais da metade da população preta e parda tendo concluído a educação básica.

Bragança (PA), 13/06/2025 – A professora Pamela Gonsalves atua com crianças da Vila dos Pescadores de Ajuruteua na Alfamangue, atividade de alfabetização baseada na temática do manguezal do Projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 13/06/2025 – A professora Pamela Gonsalves atua com crianças da Vila dos Pescadores de Ajuruteua na Alfamangue, atividade de alfabetização baseada na temática do manguezal do Projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Anos de estudo

Os dados indicam ainda que os brasileiros estão conseguindo dedicar mais anos de vida aos estudos. Em 2025, a média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais de idade no Brasil foi de 10,2 anos, apresentando crescimento em relação aos 9,1 anos observados em 2016.

As mulheres continuam com maior escolaridade média (10,4 anos) em comparação aos homens (10,0 anos). Quanto à cor ou raça, a diferença segue expressiva: pessoas brancas alcançaram 11,1 anos de estudo, enquanto pessoas pretas ou pardas atingiram 9,5 anos, resultando em uma diferença de 1,4 ano.

Um dos reflexos é a ampliação do ensino superior. A proporção de brasileiros de 25 anos ou mais com graduação completa aumentou de 15,4%, em 2016, para 21,4%, em 2025.

 





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