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quarta-feira, 11 março, 2026
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Brasil e EUA fazem treinamento militar em meio a tensão sobre facções

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Por Cleber Lourenço e Jamil Chade

Militares brasileiros e norte-americanos participarão nos próximos dias de um treinamento conjunto no Brasil em meio ao aumento da tensão política e diplomática envolvendo a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

O exercício faz parte da operação Cooperación XI, treinamento multinacional coordenado no âmbito da cooperação aérea entre países das Américas. A fase de planejamento da operação foi concluída na última sexta-feira (6), segundo informações divulgadas pela Força Aérea Brasileira (FAB).

A operação será realizada entre os dias 16 e 27 de março, na Base Aérea de Campo Grande (MS), e reunirá delegações de 15 países do continente. Participam do treinamento representantes das forças aéreas de Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Brasil.

Resposta a desastres naturais

O exercício simula um cenário multinacional de resposta a desastres naturais de grande escala, com foco em incêndios florestais e operações de assistência humanitária. As atividades envolvem planejamento operacional conjunto, coordenação logística, missões aéreas integradas e operações de busca e salvamento.

Segundo a FAB, o objetivo central do treinamento é desenvolver mecanismos de interoperabilidade entre as forças aéreas das Américas, com foco em sistemas de comando e controle e na capacidade de coordenação de missões conjuntas em cenários complexos.

Cooperação em segurança no nível tático – Foto: Site oficial do governo americano

Testar integração

Embora o cenário do exercício seja humanitário, o treinamento também serve para testar a integração entre diferentes forças militares, permitindo que pilotos, comandos e centros de operações aprendam a atuar de forma coordenada em operações multinacionais.

A cooperação entre os dois países também foi destacada recentemente pelo próprio Exército dos Estados Unidos. Em dezembro do ano passado, militares norte-americanos publicaram uma reportagem institucional ressaltando o histórico de cooperação entre as forças armadas brasileiras e americanas e a frequência de exercícios conjuntos realizados ao longo dos últimos anos.

No texto, os militares norte-americanos destacam que os treinamentos bilaterais envolvem diferentes cenários operacionais, incluindo missões humanitárias, operações de paz, integração de sistemas de comando e controle e treinamento de combate em zonas urbanas. Esse tipo de treinamento é considerado estratégico pelas forças armadas por permitir a padronização de doutrinas e o aprimoramento da interoperabilidade entre tropas de diferentes países.

Debate sobre facções brasileiras

A participação de militares dos Estados Unidos ocorre em um momento em que cresce naquele país o debate sobre a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A medida ampliaria os instrumentos legais e operacionais disponíveis para Washington no combate ao crime transnacional.

A legislação norte-americana prevê que grupos classificados como Foreign Terrorist Organizations (FTO) podem ser alvo de sanções financeiras internacionais, bloqueio de ativos, cooperação ampliada de inteligência e operações internacionais de combate ao terrorismo.

O treinamento da próxima semana ocorre dentro de um histórico mais amplo de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos, que inclui exercícios conjuntos, intercâmbio de oficiais e treinamentos multinacionais realizados ao longo das últimas décadas.

Entre as atividades recentes estão exercícios aéreos realizados ao longo de 2025 entre militares norte-americanos e pilotos da FAB, voltados para operações aéreas combinadas e integração operacional entre as forças. Esse tipo de treinamento inclui simulações de combate aéreo, controle do espaço aéreo, integração de sistemas de comunicação e coordenação de missões conjuntas.

Além das atividades aéreas, Brasil e Estados Unidos participam regularmente de exercícios multinacionais no continente. Um dos principais é o UNITAS, considerado um dos maiores treinamentos navais das Américas, que envolve tiro real, operações anfíbias, inspeção naval e treinamento de combate marítimo.

Outro exercício bilateral planejado para 2025 foi a Operação CORE, um treinamento conjunto entre o Exército Brasileiro e o Exército dos Estados Unidos, previsto para ocorrer em Pernambuco com a participação de cerca de 350 militares dos dois países. O exercício acabou sendo suspenso em meio a tensões diplomáticas registradas naquele período.

A cooperação militar também costuma incluir a participação de militares norte-americanos na Operação Formosa, tradicional exercício anfíbio organizado pela Marinha do Brasil. Em algumas edições, o treinamento reúne mais de 2.500 militares e simula cenários de força de reação rápida, operações expedicionárias e coordenação de fogos e armamentos.

Em 2025, no entanto, a edição do exercício também acabou cancelada após sinalizações de que os Estados Unidos não participariam da operação.

Além dos treinamentos operacionais, a cooperação entre as forças armadas dos dois países inclui reuniões periódicas de planejamento estratégico entre oficiais de alto escalão. Essas conferências de estado-maior discutem planejamento de exercícios futuros, integração doutrinária e troca de experiências operacionais.

Nos últimos anos, os exercícios conjuntos têm abordado cenários como guerra anfíbia, operações urbanas, missões de paz, combate ao narcotráfico e assistência humanitária.

A realização do exercício Cooperación XI ocorre agora em um momento de crescente debate sobre o papel dos Estados Unidos no combate ao crime organizado na América Latina e sobre os limites da cooperação militar entre os países do continente.

Cooperación XI
Delegações das Américas concluem fase de planejamento do Exercício Cooperación XI – Foto: Força Aérea Brasileira

Mal-estar militar

O contexto diplomático recente ajuda a explicar a sensibilidade do tema. Durante o governo de Jair Bolsonaro, a relação entre as Forças Armadas brasileiras e os Estados Unidos passou por um período de mal-estar institucional. Nos meses que antecederam as eleições de 2022, comandantes militares norte-americanos viajaram a Brasília para alertar a cúpula militar brasileira de que o governo de Joe Biden não daria respaldo a qualquer tentativa de ruptura institucional no país.

Na mesma época, parlamentares no Senado dos Estados Unidos chegaram a apresentar uma proposta de lei prevendo que, caso houvesse uma ruptura democrática no Brasil, o governo americano deveria suspender programas de cooperação militar com as Forças Armadas brasileiras.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022 e o reconhecimento rápido do resultado eleitoral por Washington abriram um período de distensão diplomática entre os dois países. O diálogo entre autoridades militares e diplomáticas foi retomado e a cooperação voltou a ganhar tração em diferentes áreas.

Esse cenário, no entanto, começou a mudar após a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em novembro de 2024. Desde então, a relação entre Washington e Brasília voltou a registrar momentos de tensão, especialmente em temas relacionados à segurança regional e ao combate ao crime organizado.

É nesse ambiente que ocorrem agora os exercícios militares no Brasil. A Casa Branca avalia a possibilidade de classificar organizações criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas.

Caminho para sanções financeiras

Pela legislação norte-americana, a designação de grupos como organizações terroristas abre caminho para sanções financeiras globais, ampliação das operações de inteligência e a possibilidade de justificar ações contra estruturas dessas organizações, inclusive fora do território dos Estados Unidos.

O governo brasileiro se opõe a essa classificação e, desde maio de 2025, vem alertando diferentes delegações americanas de que rejeita esse caminho. A avaliação em Brasília é de que o enquadramento de facções como terrorismo poderia abrir espaço para ações unilaterais e representar uma interferência em assuntos internos do país.

Diante desse cenário, a estratégia do governo Lula tem sido ampliar canais de cooperação internacional no combate ao crime organizado. A intenção seria evitar que o tema seja apropriado politicamente por setores da extrema direita brasileira e por aliados do governo Trump.

Em outubro de 2025, o Brasil chegou a apresentar aos Estados Unidos uma proposta concreta de cooperação bilateral para enfrentar o crime organizado transnacional. O projeto, porém, não avançou e o tema passou a ser considerado um dos principais pontos de uma eventual reunião entre Trump e Lula, inicialmente prevista para março.

No governo brasileiro, cresce a avaliação de que o debate sobre o combate ao crime organizado pode estar sendo utilizado também como instrumento de pressão diplomática. Nos bastidores do governo, há a suspeita de que a discussão sobre terrorismo e facções criminosas possa servir para legitimar uma maior ingerência nos assuntos domésticos brasileiros e, ao mesmo tempo, influenciar o ambiente político interno às vésperas das eleições de 2026.





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