A partir desta sexta-feira (1º), entra em vigor de forma provisória o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O tratado, negociado ao longo de 25 anos, é considerado o maior já firmado pelo bloco europeu em termos de redução tarifária e chega ao cenário internacional em um momento de forte reconfiguração das rotas globais de comércio.
A implementação, no entanto, ocorre sob um ambiente de divisões internas na própria UE e de incertezas externas, especialmente diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump e da crescente presença da China em mercados estratégicos.
O acordo divide os países europeus. Alemanha e Espanha defendem que o tratado pode ajudar a compensar o impacto das tarifas norte-americanas e reduzir a dependência de insumos estratégicos chineses, especialmente minerais essenciais.
Em sentido oposto, França e outros críticos alertam para possíveis efeitos negativos sobre a agricultura europeia, com aumento das importações de carne bovina e açúcar a preços mais baixos. Organizações ambientais também apontam riscos de intensificação do desmatamento em biomas sensíveis, como a Amazônia.
Impacto econômico limitado no curto prazo
Apesar das expectativas políticas, economistas avaliam que os ganhos econômicos do acordo tendem a ser modestos. Estimativas da Comissão Europeia indicam que o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) do bloco seria de cerca de 0,05% até 2040.
Outros acordos recentes negociados pela UE — com países como Índia, Indonésia, Austrália e México — seguem a mesma lógica de diversificação comercial, mas especialistas alertam que nenhum deles deve substituir o peso dos Estados Unidos na economia europeia.
Segundo analistas, a perda de até 15% das exportações para o mercado americano e o impacto estimado de 0,3% no PIB europeu em um único ano não serão compensados no curto prazo por novos tratados comerciais.
Já o governo brasileiro projeta um aumento de 13% nas exportações do país até 2038 com a implementação plena do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). A estimativa foi apresentada pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, recentemente.
Segundo Alckmin, a abertura tarifária será gradual, mas já terá efeitos imediatos. “A degravação é gradual, mas você tem aí perto de 5 mil produtos que a partir do dia 1º de maio estão zerados o imposto, então você vai ter aí um impacto importante”, afirmou em entrevista a agências internacionais.
Corrida global por novos mercados
A aceleração dos acordos comerciais da UE ocorre em um contexto de disputa geopolítica mais ampla. As tarifas norte-americanas e as restrições chinesas à exportação de minerais críticos levaram o bloco europeu a intensificar sua busca por novos parceiros.
Além do tarifaço de Trump, a China aparece como um dos principais fatores de pressão sobre a indústria europeia. Com forte expansão de exportações em setores como veículos e máquinas, o país asiático tem ampliado sua presença em regiões estratégicas da América Latina, África e Sudeste Asiático.
Dados citados por instituições de pesquisa indicam que as tarifas norte-americanas contribuíram para redirecionar cerca de US$ 150 bilhões em exportações chinesas, intensificando a concorrência global em mercados que também são alvo da UE.
A avaliação de analistas é que, além da disputa externa, o bloco europeu precisará avançar em reformas internas.
Hoje, cerca de 60% das exportações da UE ocorrem entre países do próprio bloco, o que indica que ganhos de eficiência no mercado interno podem ter impacto relevante na competitividade global.



