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segunda-feira, 6 julho, 2026
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A crise entre o eleitor e o Legislativo

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Em qualquer cidade do país, um eleitor comum é abordado sobre o Congresso. Ele responde com firmeza. A instituição não trabalha, os parlamentares são todos iguais, a política brasileira precisa de renovação. Em seguida, é convidado a citar o nome do senador do próprio estado. Silêncio. O deputado federal em quem votou em 2022. Silêncio. Qualquer parlamentar em exercício. Silêncio.

A cena que parece anedótica é retrato estatístico

Duas pesquisas divulgadas em intervalo de poucas semanas capturam o mesmo fenômeno por ângulos distintos. O Datafolha, ouvindo 2.004 pessoas em 139 cidades nos dias 17 e 18 de junho de 2026, com registro no TSE sob o número BR-09956/2026, mostra que 85% dos brasileiros lembram em quem votaram para presidente. Apenas 23% lembram o voto para deputado federal, deputado estadual ou senador. O PoderData, ouvindo 2.500 eleitores em 166 municípios entre 30 de maio e 1 de junho, revela que 48% reprovam a Câmara e 44% reprovam o Senado.
O eleitor tem opinião firme sobre uma instituição e não sabe identificar os seus membros.

O que os dados mostram?

A memória eleitoral segue uma hierarquia. Presidente 85%, governador 54%, parlamentares 23%. Quanto maior a visibilidade do cargo, maior a lembrança. Quando o Datafolha pergunta quem os representa hoje no Congresso, 68% do eleitorado não conseguem citar nenhum deputado em exercício. Para o Senado, o índice sobe para 75%.
Dos 513 deputados federais, apenas 6 foram citados por pelo menos 1% dos entrevistados. Dos 81 senadores, apenas 15 atingiram esse limite. Traduzindo, 98,8% da Câmara e 81,5% do Senado operam abaixo do limite de detecção pública. Essa é a invisibilidade mensurável.

Quem é lembrado e por quê?

Na Câmara, Nikolas Ferreira PL/MG lidera com 6%. Erika Hilton PSOL/SP tem 4%. Gustavo Gayer PL/GO, Kim Kataguiri Missão/SP, Lindbergh Farias PT/RJ e Sâmia Bomfim PSOL/SP registram 1% cada. No Senado, Flávio Bolsonaro PL/RJ aparece com 3%. Romário PL/RJ, Cleitinho Republicanos/MG e Sergio Moro PL/PR marcam 2% cada.
O que une os lembrados não é atuação legislativa. Não é relatoria de projeto, nem presidência de comissão, nem produção de emendas orçamentárias. É a presença digital. O reconhecimento parlamentar deixou de ser territorial e passou a ser midiático. Quem viraliza é retido pela memória. Quem legisla discretamente desaparece silenciosamente.

O paradoxo da reprovação sem identificação

É aqui que Datafolha e PoderData se cruzam. A reprovação institucional é alta. A identificação individual é quase nula. O eleitor rejeita uma abstração chamada Congresso. Não rejeita representantes concretos, porque não sabe quem são.
Essa desconexão tem manifestação recente e concreta. Nas últimas semanas, a hashtag #CongressoInimigodoPovo levantou as redes sociais após o Congresso derrubar vetos presidenciais. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre União/AP, subiu à tribuna. Anunciou que a Polícia Legislativa das duas Casas (Câmara e Senado) investiga a origem das ofensas. Prometeu revelar os autores.
O eleitor ecoa o slogan, mas não sabe nomear quem o motiva. Reprova o Congresso em bloco. Não sabe qual senador votou pela derrubada de qual veto. Não sabe qual deputado relatou qual jabuti. A crítica é potente na forma. Desarmada no conteúdo.

O que isso faz com o sistema?

As funções típicas do Legislativo ficam comprometidas.

Legislar torna-se atividade de baixo custo político para a maioria. Se 98,8% da Câmara opera abaixo de 1% de lembrança do eleitor, aprovar pauta polêmica não gera desgaste individualizado. Foi o que se viu na derrubada do veto da dosimetria. Decisões desse porte passam sem que o eleitor consiga identificar quem as tomou.
Representar exige vínculo identificável entre eleitor e eleito. Com 67% sem lembrar o próprio voto para deputado federal, esse vínculo está rompido para a maioria do eleitorado. O mandato proporcional, desenhado para produzir representação territorial, virou disputa por visibilidade nacional. Quem constrói base digital captura o mandato. Quem constrói base territorial discreta desaparece.
Fiscalizar depende de saber quem fiscalizar. Sem nome, sigla e UF na cabeça do eleitor, não há cobrança de voto em plenário, de presença em comissão, de relatoria de projeto. A fiscalização social fica concentrada em poucos parlamentares hipervisíveis. O resto opera em zona cega.

O curto-circuito democrático

O ponto que os dados revelam, e que raramente é dito, está no descompasso entre o instrumento simbólico e o instrumento institucional.
O slogan “Congresso Inimigo do Povo” é instrumento simbólico. Trata a instituição como bloco monolítico. Não distingue quem votou a favor de quem votou contra. Não separa quem operou emendas orçamentárias temerárias de quem tentou barrá-las. Não diferencia deputado atuante de deputado ausente. Generaliza. E, ao generalizar, protege exatamente os parlamentares que se beneficiam do anonimato.
O voto é instrumento institucional. Serve para substituir mal avaliados sem destruir a instituição. É preciso, individualizável, dirigido. Punir um deputado específico não exige derrubar o Congresso. Exige saber o nome do deputado.

A réplica do bolsonarismo
O eleitor brasileiro, hoje, opera no primeiro registro. Reprova em bloco. Compartilha hashtag. Marca posição pública. E, quatro anos depois, não lembra em quem votou. Reprova de novo. Compartilha de novo. E reelege, sem saber, quem sempre votou contra ele.
Essa é a assimetria que sustenta o paradoxo. A crítica é digital, coletiva e imediata. A substituição é eleitoral, individual, gradual e mediada por informação. Sem essa mediação, a crítica gira em falso. Aquece a rede. Não muda a composição do plenário.

O que vem em outubro

O ciclo de 2026 tende a aprofundar o padrão. As candidaturas ao Senado ganharam peso adicional porque a oposição bolsonarista indicou a Casa como prioridade, dado que senadores podem pautar impeachment de ministros do STF. A disputa se nacionaliza. O reconhecimento territorial perde espaço. Vence quem já é rosto conhecido em ambiente digital.
Sem trabalho sistemático de mediação, seja por jornalismo, sindicatos, associações ou escolas, o eleitor chegará à urna repetindo o gesto de 2022. Votará por afinidade presidencial, por afinidade ideológica ou por exposição digital. E, em 2030, quando for perguntado em quem votou para deputado federal, dará a mesma resposta que dá agora. Não lembra.
O problema apontado pelas pesquisas não é o eleitor desatento. É um sistema desenhado para produzir desatenção. Três em cada quatro eleitores não sabem o nome do próprio senador. A pergunta relevante deixa de ser quem está sendo mal representado. Passa a ser quem está sendo, de fato, representado.
O Congresso brasileiro não tem crise de aprovação. Tem crise de existência pública.

Em outubro, o eleitor decidirá entre duas atitudes. Manter a crítica institucional em bloco, chamando o Congresso de inimigo do povo. Ou substituir parlamentar por parlamentar, com base nos valores que pretende ver representados. A primeira é conforto simbólico. A segunda altera a composição do poder.





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