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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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A Brasilidade Afronta o Brasil

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Certa feita, no meu trabalho como professor de História, escutei de uma aluna que o Grito do Ipiranga, consagrado oficialmente como marco da independência do Brasil, não tinha a menor graça. No embalo do debate na sala de aula, a Proclamação da República entrou no mesmo balaio de acontecimentos destituídos, na linguagem dos alunos, da graça referida.

Não tive como discordar. Não há patriotismo de ocasião que sustente meu apreço por um processo de independência que preservou a escravidão, o latifúndio e a monarquia. É difícil também defender uma República que restringiu o exercício da cidadania e colocou-se a serviço dos interesses oligárquicos mais espúrios.

Ao mesmo tempo, fiz um cobtraponto. Nas fendas, poros e frestas da História oficial, há um Brasil que inventou vida no vazio, manifestado em corpos que transitaram o tempo todo na desafiadora negação da morte e insistem em continuar. E é aí que as festas populares adquirem uma dimensão fundamental.

Ao longo da nossa história, festejar foi afrontar o individualismo e a decadência da vida em grupo. Nos folguedos populares, fortaleceram-se laços contra a diluição comunitária, foram construídos pertencimentos e redes de proteção social e a vida foi afirmada diante do desencanto.

Há um pais que vai muito além dos gabinetes do poder. É aquele que vem da praia sagrada de Morená, morada do sol e da lua, vive nas canções praieiras de Caymmi e no fole de Luiz Gonzaga. É o país em que o João Valentão percorre uma Légua Tirana para ouvir Ivone Lara. É dele que precisamos também falar nas nossas salas de aula.

Escrevi certa feita que, nos meus alumbramentos, acho um drible do Mané Garrincha mais elegante que desfile de moda, a feira de Caruaru mais sofisticada que uma loja de grife, a dança do mestre sala tão nobre quanto o plié de um bailarino clássico e o gibão de couro dos vaqueiros do sertão mais imponentes que fardas e galardões dos maiores generais.

Esse meu Brasil, talvez inventado em miradas de encantamentos do que já não há, é minha terra miúda, chão de querer desmensurado, raiz melhor do que eu sou, fincada no chão de onde vim. A minha pátria fulorada – cheia de fulô, como a minha avó dizia – de afetos profundos.

Aviso logo, todavia, que não sei qual é – ou mesmo se existe – um Brasil autêntico. Desconfio das identidades fixas. Tenho pouquíssimo apreço, ou mesmo interesse, pelo Brasil oficial, ou institucional, como queiram. Eu gosto da brasilidade, essa comunidade de sentidos e modos de vida que o Brasil institucional costuma odiar.

O que me instiga e fascina não é estudar e entender como o poderoso discursa (e ainda bem que há quem estude e disseque as articulações dos donos do poder). O que me instiga e fascina é registrar e entender como uma baiana gira enquanto os tambores tocam.

Somos um país que constituiu o estado-nação como um empreendimento de exclusão, privilégio e ódio. É a brasilidade que o afronta enquanto canta, brinca, sonha, resiste, inventa e, soberanamente, dança.



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