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quarta-feira, 8 julho, 2026
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A tradição milenar que rouba o Egito

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Na tarde do dia 7 de julho de 2026, o Atlanta Stadium (Mercedes-Benz Stadium), nos EUA, foi palco – segundo os diversos memes das redes – de mais um capítulo de uma tradição milenar: o saqueamento sistemático do Egito. Em partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, a seleção egípcia vencia a Argentina por 2 a 0, após gols de Yasser Ibrahim e Mostafa Zico. Contudo, uma sucessão de decisões de arbitragem controversas conduzidas pelo árbitro francês François Letexier – incluindo um gol de Zico anulado pelo VAR aos 58 minutos por uma falta ocorrida muito antes no início da jogada, e um pênalti ignorado sobre Hamdy Fathy no fim do jogo –  culminou na virada dos sul-americanos para 3 a 2 nos acréscimos. O técnico egípcio, Hossam Hassan, revoltado com a arbitragem, declarou que não assistiria a mais nenhum jogo do torneio, enquanto o atacante Mostafa Zico afirmou categoricamente que a competição estava “direcionada”.

Foi nesse contexto que surgiu o meme perfeito. Em uma troca de mensagens no WhatsApp, uma pessoa avisa: “roubaram o Egito”. O “pai”, em um lapso de genialidade histórica, responde secamente: “Fazem isso desde a antiguidade”. Para coroar a obra de arte digital, um usuário no X (antigo Twitter) corrigiu a afirmação com um trocadilho cirúrgico: “Artefatos*”. O humor do meme reside na sua precisão acadêmica. A História do Egito é, também, a história de pessoas roubando o Egito.

A prática do saque às riquezas egípcias começou muito antes da chegada da equipe de arbitragem à Atlanta. No próprio Egito Antigo, a pilhagem de tumbas não era uma exceção, mas uma verdadeira indústria paralela. Os faraós enterravam fortunas incalculáveis sob a terra, enquanto a população ao redor frequentemente enfrentava crises econômicas, fome e invasões, especialmente durante os chamados Períodos Intermediários e no fim do Novo Império (c. 1550 a 1069 a.C.).

Os documentos jurídicos da 20ª Dinastia (c. 1189 a 1077 a.C.), conhecidos como os Papiros de Roubo de Tumbas (que incluem o Papiro Abbott, o Papiro Leopold II-Amherst e o Papiro Mayer A), são essencialmente as “súmulas do VAR” da Antiguidade, registrando investigações e julgamentos de saqueadores. O Papiro Leopold II-Amherst, por exemplo, documenta a confissão detalhada do pedreiro Amenpanufer, que admitiu ter usado ferramentas de cobre para invadir a pirâmide do rei Sobekemsaf II e da rainha Nubkhaas para roubar ouro, prata e joias. Ironicamente, os saqueadores eram frequentemente os próprios construtores das tumbas – os artesãos da vila de Deir el-Medina, que conheciam os segredos estruturais dos sepulcros – além de embalsamadores que furtavam adornos valiosos dos corpos durante o processo de mumificação. Se a arbitragem de 2026 ignorou lances capitais, os guardas das necrópoles tebanas também fechavam os olhos para os roubos na Antiguidade, frequentemente comprados por subornos.

A tradição de espoliar o Egito ganhou contornos internacionais na Antiguidade Clássica. Quando o Império Romano anexou o Egito em 30 a.C., iniciou-se a prática de exportar obeliscos colossais para a capital imperial. Atualmente, a cidade de Roma possui treze obeliscos antigos de grande porte; destes, pelo menos oito são monumentos egípcios autênticos esculpidos na era faraônica, um número que, por si só, supera a quantidade de obeliscos do mesmo período que restaram de pé no próprio Egito. O saque deixou de ser um crime clandestino para se tornar uma verdadeira política de Estado.

O roubo atingiu o seu ápice institucionalizado com o colonialismo europeu moderno. A expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito (1798-1801) inaugurou a egiptomania europeia, desencadeando a extração em massa de patrimônio histórico. A famosa Pedra de Roseta, descoberta pelos franceses em 1799 e confiscada pelos britânicos em 1801, repousa até hoje no British Museum, em Londres, apesar dos constantes pedidos de repatriação liderados por figuras como o arqueólogo Zahi Hawass. O icônico busto de Nefertiti, de posse controversa pelo Neues Museum em Berlim, foi retirado pelo arqueólogo alemão Ludwig Borchardt em 1912 de forma escusa na partilha oficial de achados; o pesquisador deliberadamente declarou a obra como sendo de gesso ordinário e utilizou fotografias desfavoráveis dentro de caixas escuras para enganar os inspetores egípcios na época.

Portanto, a frustração do técnico Hossam Hassan e dos jogadores egípcios em 2026 ecoa um lamento que ressoa há milênios no “Vale dos Reis”. Seja por pedreiros munidos de ferramentas de cobre na 20ª Dinastia, por imperadores romanos obcecados por obeliscos sagrados, por impérios coloniais europeus enchendo seus museus universais –  o Louvre em Paris que o diga – ou por decisões tecnológicas controversas em um estádio na Geórgia, a História aponta que o patrimônio egípcio – seja ele ouro, granito ou uma classificação na Copa do Mundo – raramente fica nas mãos dos próprios egípcios. Como bem pontuou o “pai” no meme, “fazem isso desde a antiguidade”. São, efetivamente, “arte-fatos históricos”.

***
“Eu falei faraó
Ê, faraó
Ê, faraó
Ê, faraó
Ê, faraó
Que mara-mara-mara-maravilha, ê
Egito, Egito, ê
Que mara-mara-mara-maravilha, ê
Egito, Egito, ê
Faraó, ó-ó-ó
Faraó, ó-ó-ó
Faraó, ó-ó-ó
Faraó, ó-ó-ó”

O chiste com a “tradição” de roubo contra o Egito. Fonte: “X”.





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