Por Bruno Falci – Brasil de Fato
A China voltou a rechaçar nesta terça-feira (12) as sanções impostas pelos Estados Unidos contra empresas chinesas do setor de tecnologia espacial, acusadas por Washington de suposto envolvimento no fornecimento de imagens de satélite ao Irã.
“A China se opõe firmemente a sanções unilaterais que não têm base no direito internacional nem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Vamos proteger firmemente os direitos e interesses legítimos e legais das empresas chinesas”, afirmou o porta-voz da Chancelaria, Guo Jiakun.
Ainda nesta segunda-feira (11), em coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, Guo já havia rejeitado as acusações, criticando o uso recorrente de sanções unilaterais por parte dos EUA. Ele acrescentou que o cenário internacional exige contenção. “A prioridade urgente é evitar o retorno dos combates e não usar a guerra como pretexto para difamar outros países”, disse.
As sanções foram anunciadas em 9 de maio de 2026 pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e atingem três empresas chinesas: Meentropy Technology (Hangzhou) Co., também conhecida como MizarVision, The Earth Eye e Chang Guang Satellite Technology Co.
Segundo Washington, as companhias teriam fornecido imagens de satélite e dados que poderiam ter sido utilizados por forças iranianas em operações militares no Oriente Médio, incluindo o monitoramento de posições de tropas dos Estados Unidos e aliados na região.
As autoridades norte-americanas afirmam ainda que a Meentropy publicou imagens de código aberto relacionadas a atividades militares no contexto da chamada “Operação Epic Fury”, enquanto a The Earth Eye teria fornecido imagens diretamente ao Irã, e a Chang Guang Satellite Technology teria coletado dados sobre forças militares dos EUA e parceiros a pedido de Teerã. A empresa já havia sido alvo de sanções anteriores.
Pequim, no entanto, contesta o enquadramento das medidas e sustenta que não há divulgação pública de evidências técnicas detalhadas que comprovem as acusações. Autoridades chinesas argumentam ainda que empresas de observação terrestre operam em um mercado global de uso dual, civil e potencialmente militar, amplamente utilizado em setores como agricultura, meio ambiente, logística e planejamento urbano, e que a responsabilização seletiva faz parte da disputa tecnológica entre grandes potências.
A nova rodada de sanções atinge ao todo 11 entidades e três indivíduos em países como Irã, China, Belarus e Emirados Árabes Unidos, segundo o governo estadunidense.
O anúncio ocorre em um contexto de intensificação das disputas estratégicas entre Washington e Pequim, às vésperas da esperada cúpula entre Trump e Xi Jinping, que deve tratar de comércio, tecnologia e segurança internacional, além de tensões paralelas envolvendo Taiwan e o Oriente Médio.
Até o momento, o governo chinês não anunciou medidas formais de retaliação.
Cúpula Trump–Xi em contexto de tensões globais
A medida ocorre em um momento de sensibilidade diplomática às vésperas da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping. O encontro está programado para ocorrer entre os dias 13 e 15 de maio de 2026, em Pequim, em uma visita de Estado que reunirá as duas maiores economias do mundo em meio a um ciclo de crescente tensão bilateral.
A relação tem sido marcada por um processo de desacoplamento seletivo em setores sensíveis da economia, ao mesmo tempo em que se mantém a interdependência comercial em áreas como energia, manufatura e bens de consumo.
Taiwan permanece como o principal ponto de atrito político. A ilha é considerada por Pequim, pela ONU e pela maior parte do mundo como território chinês, enquanto Washington mantém relações informais e cooperação em defesa, incluindo fornecimento de armamentos, o que sustenta um dos focos mais sensíveis da relação bilateral.
O cenário também é influenciado por disputas mais amplas no campo tecnológico, especialmente em semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura espacial, setores considerados centrais para a segurança econômica e militar das duas potências.
O Oriente Médio aparece como um vetor adicional de tensão indireta, especialmente em torno do Irã, que surge como elemento de divergência na relação entre Washington e Pequim. Enquanto os Estados Unidos expressam preocupações sobre conexões tecnológicas e militares envolvendo Teerã, a China mantém relações diplomáticas e energéticas com o país no âmbito de sua estratégia de diversificação de parcerias no Oriente Médio.
No plano global, o encontro também é atravessado por preocupações com estabilidade econômica e comercial internacional, em um momento de reorganização das cadeias produtivas e maior competição por influência tecnológica.



