A professora brasileira Célia Maria Cassiano morreu na última quarta-feira (15), em Zurique, na Suíça, após recorrer ao procedimento de morte assistida. Diagnosticada com atrofia muscular progressiva (AMP), uma doença degenerativa do neurônio motor, ela enfrentava a perda gradual dos movimentos e optou por encerrar a própria vida diante do avanço do quadro clínico.
A docente estudou Ciências Sociais e fez mestrado em Multimeios na Unicamp, atuando como educadora na área de artes no Sesc e na Esamc, em Campinas (SP).
Célia recebeu o diagnóstico há cerca de um ano e meio, com isso, encontrou nas redes sociais uma forma de compartilhar sua rotina, dialogar sobre a doença e mostrar as dificuldades motoras do quadro.
A AMP é caracterizada pela perda dos movimentos físicos mantendo as funções cognitivas preservadas. A doença compromete progressivamente a autonomia do paciente, podendo levar à dependência total de cuidados, o que era o caso da docente.
“É uma doença incapacitante, progressiva. Eu vivo meus piores pesadelos, porque não tenho ideia de como eu estarei amanhã. Você está presa dentro do seu corpo, seu corpo está perdendo os movimentos, e toda essa dificuldade ‘pra’ sair e se movimentar em casa”, relatou Célia em um vídeo publicado em dezembro de 2025.
Além da saúde, a doença impactou diretamente a vida social da professora. “Eu consigo fazer alguns passeios, dependendo da boa vontade de quem me convidou. A maior parte do tempo eu fico só com cuidadores, fisioterapeutas, farmacêuticos, médicos, terapeutas, pessoas para as quais estou pagando para cuidar de mim”, desabafou em vídeo.
O início do adeus
Em março, ao notar mudanças na voz, ela formalizou um documento de Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), no qual registrou que não desejava se submeter a intervenções invasivas para prolongar a vida.
Em 11 de abril, Célia compartilhou nas redes sociais fotos suas “turistando” na capital suíça, Zurique. Para os amigos, ela contou que iria ao país para participar de um tratamento experimental.

Porém, na última quarta-feira (15), ela revelou o real motivo da viagem: realizar o suicídio assistido. Segundo Célia, o procedimento foi organizado ao longo de sete meses com uma ONG especializada.
Antes da intervenção, Célia gravou um vídeo de despedida no qual explicou a decisão. Na mensagem, afirmou que a escolha foi tomada após um período de reflexão e destacou o desejo de evitar o agravamento do sofrimento físico e a perda completa de independência.
“Vou ter duas enfermeiras do meu lado e não vou sentir dor nenhuma. Estou no limite da minha dignidade. Vivi uma vida deliciosa e os últimos dias aqui foram os melhores da minha vida. Daqui a pouco vou descansar para sempre, como todos nós vamos”, relatou.
O suicídio assistido é legal na Suíça desde que não haja motivação egoísta de terceiros e que o paciente manifeste, de forma consciente, a vontade de morrer. O processo envolve avaliação médica e acompanhamento por organizações especializadas.
No Brasil, a prática é proibida. O Código Penal enquadra como crime o auxílio ao suicídio, com pena de reclusão. A legislação brasileira permite, no entanto, a chamada ortotanásia — quando tratamentos que prolongam artificialmente a vida são suspensos em pacientes terminais, com foco em cuidados paliativos.
Nos últimos anos, brasileiros com doenças graves têm buscado países onde o procedimento é permitido, para realizar a morte assistida. O acesso, no entanto, envolve custos elevados e uma série de exigências legais.
Ao tornar pública sua decisão, a professora também manifestou apoio à discussão sobre a regulamentação do tema no Brasil. “Lutem por esse direito no Brasil, uma lei que permita uma escolha para quem assim desejar”, finalizou.
Luciana Dadalto, da ‘Eu Decido’, escreve carta aberta à brasileira
Leia abaixo o texto de Luciana Dadalto, advogada e presidente da associação Eu Decido, que defende o direito à morte assistida no Brasil, escreveu uma carta aberta a Célia Maria Cassiano.
Querida Célia,
Nossa última conversa foi quase como todas as outras: formal. Você me disse que havia conseguido resolver toda a documentação e que em breve iria para a Suíça. Você não me contou, no entanto, quando e nem para qual organização iria. Como presidente da Eu Decido, eu não pude te ajudar. É aquilo que eu te expliquei: a nossa associação não fornece meios para a morte assistida e nem intermedia tratativas com entidades internacionais. Nossa missão é buscar a legalização da morte assistida aqui no Brasil.
Para a minha sorte, tivemos uma conversa informal, um momento em que eu não estava exercendo o meu papel institucional. E você me contou sobre a sua história de vida, o diagnóstico, as dificuldades em fazer os médicos “acreditarem” que você estava lúcida. Me contou sobre os médicos que duvidaram do seu diagnóstico porque você “estava bem demais”, a médica paliativista que te ajudou a fazer suas diretivas antecipadas de vontade, mas disse que não te ajudaria em mais nada porque você tinha “ideias suicidas”. Me contou sobre o receio do que seus familiares achariam da sua decisão, o quão difícil estava viver perdendo diariamente as funcionalidades do seu corpo. Me contou do desejo de deixar um legado para o Brasil.
Este desejo, inicialmente, se traduzia num legítimo interesse em entender mais sobre a possibilidade de ajuizar uma ação pedindo que o Poder Judiciário brasileiro reconhecesse seu direito à morte digna. Você procurou uma advogada (defensora da autonomia em fim de vida), ela olhou seus documentos médicos, pediu para que alguns amigos médicos analisassem e te informou que não poderia aceitar seu caso: os tais amigos médicos disseram que você não tinha a doença que os documentos diziam ter — e sobre a qual seu corpo não deixava dúvidas.
Depois dessa conversa, voltamos a nos falar institucionalmente em dezembro de 2025. Como presidente da Eu Decido, te pedi para conceder uma entrevista para um veículo de imprensa que nos procurou, e você me disse que não queria se expor naquele momento. Mais pra frente, consideramos falar sob anonimato, mas você havia piorado muito, e toda a energia que restava era dedicada aos infindáveis trâmites burocráticos para ter a morte que você acreditava ser digna, na Suíça. E me disse: “no momento certo vou fazer um depoimento em vídeo a respeito.”. Este vídeo foi postado no seu Instagram no dia da sua morte: 15 de abril de 2026. Nele deu para sentir sua leveza, sua altivez e sua indignação por não ter direito a uma morte assistida em seu país.
Sabe, Célia, desde quando comecei a estudar sobre autonomia e dignidade no fim da vida, tive certeza de que queria ajudar pessoas como você a terem o direito à morte assistida no Brasil. Mas, para isso, precisaria entender muito bem os caminhos que os países que já permitem a prática percorreram. Inquieta, comecei pela Suíça; lá conheci pessoalmente todas as associações — inclusive, em uma delas acompanhei, na condição de pesquisadora, uma morte assistida.
Tornei-me especialmente próxima de uma dessas organizações — e quis o destino que fosse a mesma que viria a te acolher anos depois. A Dignitas é a mais antiga, mais conhecida e mais rígida de todas.
Lá em 2017, na minha primeira ida, tinha para mim que o estrangeiro com acesso ao procedimento na Suíça teria uma morte digna. Contudo, ao falar sobre essa minha percepção para um dos representantes da Dignitas, ouvi dele a seguinte resposta: “Eu não acho digno que para exercer o direito a uma morte pacífica uma pessoa precise viajar para outro país e morrer em uma cama que não é a dela, falando um idioma que não é o dela, comendo uma comida que não é a dela. O que vocês, que vivem em países em que a morte assistida é proibida, chamam de — dignidade –, para mim, é humilhação”.
Com o tempo, atravessada pelas minhas vivências, pelos meus estudos, por conversas com pessoas como você, eu reinterpretei essa resposta. Hoje, vejo a morte assistida na Suíça não como humilhação, mas como privilégio de poucas pessoas; privilégio de, diante de um sofrimento intolerável, poder ter um mínimo de dignidade na morte — mesmo em outra terra, em outra cama e em outro idioma. Porque para quem não tem nada onde nasceu, o mínimo, em outro país, é muito.
Graças à sua luta, à sua condição socioeconômica e aos seus amigos que te acompanharam você teve uma morte digna, Célia. E deixou um enorme legado para todos nós que acreditamos e lutamos diariamente para que, um dia, todas as brasileiras e todos os brasileiros que assim desejarem e se enquadrarem em critérios definidos por lei ou pela jurisprudência não precisem passar por tudo o que você passou para ir embora desta vida de forma que entendeu como digna.
Obrigada por sua generosidade.
Bom voo,
Luciana Dadalto.



