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terça-feira, 14 abril, 2026
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Quando o poder derruba fronteiras

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Por Aziz Filho

Há um século, o nazismo ainda não governava a Alemanha nem representava ameaça à Europa. Não havia guerra no horizonte, mas foi exatamente no ano de 1926 que o movimento deixou de ser uma força política fragmentada para se organizar como um projeto de poder centralizado.

Na Conferência de Bamberg, Adolf Hitler consolidou sua liderança sobre as correntes do partido, sufocou dissidências e fortaleceu o princípio de autoridade. A partir dali, o espaço para divergência diminuiu, e a estrutura partidária passou a operar de forma mais hierárquica.

A ascensão do nazismo envolveu um processo gradual, com regras tensionadas, instituições pressionadas e limites testados. Parte desse avanço ocorreu sem enfrentamento decisivo, o que contribuiu para a normalização de práticas antes consideradas excepcionais.

A mensagem era simples: a nação enfrentava um declínio atribuído a elites distantes, estruturas ineficientes e uma imprensa desalinhada dos interesses nacionais. Hitler ostentava a promessa de restaurar a grandeza da Alemanha ferida pelo Tratado de Versalhes — algo que poderia ser traduzido como “Germany First” ou “Make Germany Great Again”.

Outro elemento recorrente foi a identificação de parcelas da população como ameaça à coesão nacional. Minorias étnicas e outros segmentos tornavam-se fatores de instabilidade. A narrativa simplificava problemas complexos para canalizar insatisfações.

A relação com a imprensa e outras instituições também se transformou. Durante o Terceiro Reich, veículos críticos foram deslegitimados, e a atuação de tribunais e parlamentos passou a ser condicionada ao alinhamento com o poder central.

Na política externa, o regime nazista adotou uma estratégia de avanço gradual. A remilitarização da Renânia ocorreu com pouca ou nenhuma reação das potências europeias. A anexação da Áustria e o desmembramento da Tchecoslováquia evidenciaram a dificuldade de resposta coordenada diante de violações sucessivas de acordos internacionais.

A Segunda Guerra não sepultou as tentações de líderes que testam os limites do aceitável nas relações internacionais. Donald Trump, expressão maior da extrema direita mundial, já associou imigrantes latinos à criminalidade, defendeu restrições à entrada de muçulmanos, referiu-se à imprensa como “inimiga do povo” e — aberração suprema — afirmou que poderia matar “uma civilização inteira”. Em outro episódio, ao comentar protestos, descreveu manifestantes pró-Venezuela como “as pessoas mais feias” que já viu.

No plano externo, suas ações e declarações também tensionaram princípios consolidados. Capturou o presidente de uma nação estrangeira, a Venezuela, e afirmou que teria a “honra de tomar Cuba”, explicitando o interesse econômico nesses países. No Oriente Médio, prometeu transformar a Faixa de Gaza na ‘Riviera do Oriente Médio’ e chegou a compartilhar um vídeo de IA com praias, hotéis de luxo e arranha-céus em uma região hoje devastada pela guerra.

É um erro enxergar isoladamente essas ações e falações como retórica política, estratégia ou demonstração de força. Elas ilustram um padrão permanente de relativização de normas, tensionamento de princípios e deslocamento do debate para o terreno do absurdo: a normalização do inaceitável e a alteração do que se considera possível no exercício do poder. Não são eventos isolados, mas um processo. E processos desse tipo não começam quando tudo já está perdido — começam quando ainda parecem improváveis.

Questionamentos recentes sobre a capacidade de julgamento de Donald Trump também encontram eco nos fatos que precederam a Segunda Guerra. Diplomatas, analistas e militares descreviam Adolf Hitler como impulsivo, isolado e desconectado da realidade — percepções que, infelizmente, não se converteram em mecanismos de contenção.

A história mostra que o custo impagável não está apenas nos excessos de um líder, mas na demora em reconhecê-los como problema: quando sinais são relativizados ou tratados como excentricidade, o atraso tende a ser pago mais adiante, em escala maior do que se imaginava no início.

 

*Aziz Filho é jornalista e pós-graduado em Políticas Públicas





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