Quem lê a pesquisa Datafolha pode pensar que a eleição presidencial de 2026 começa a revelar um componente decisivo: o voto motivado não pela preferência, mas pela rejeição ao adversário. Um voto contra. Um voto pela negativa. Certo ou errado, voto contra. O que significa, sociologicamente, quando milhões de pessoas entram numa cabine eleitoral pensando primeiro em quem não querem ver no poder? É sinal de um país que já não se suporta? De uma cisão radical da sociedade brasileira? Ou estamos diante de um comportamento eleitoral muito mais comum do que parece?
Para quem olha com receio estes números é preciso lembrar que este sentimento é vulgar e corresponde a um fenômeno bem estudado pela ciência política: o partidarismo negativo. O eleitor já não precisa amar seu candidato. Basta considerar intolerável a vitória do outro. Sua identidade política passa a ser definida menos pela pergunta “quem me representa?” e mais por outra: “quem eu preciso impedir de chegar ao poder?”. Numa linguagem menos acadêmica, alguns cientistas políticos americanos descrevem este sentimento como um “fuck-you vote”: não necessariamente um voto de esperança ou entusiasmo, mas um gesto de recusa, protesto ou enfrentamento. A expressão é coloquial; o conceito acadêmico mais preciso é partidarismo negativo.
E no entanto devemos ter presente que votar contra alguém não significa necessariamente odiar metade do país. Em qualquer democracia competitiva, impedir a vitória de uma alternativa considerada pior é uma decisão perfeitamente racional. O problema começa quando o adversário deixa de ser visto como adversário legítimo e passa a ser percebido como inimigo moral, ameaça existencial ou alguém com quem já não é possível compartilhar o mesmo espaço político. Nesse ponto, sim, nesse ponto a eleição deixa de ser apenas uma competição entre projetos e torna-se uma disputa entre identidades. Não me parece, para ser sincero, que esse seja o caso do Brasil. Já vi isto acontecer noutras geografias – e sem consequências de maior para a saúde democrática.
Na verdade uma democracia consegue razoavelmente conviver com o voto contra. O que ela dificilmente consegue suportar por muito tempo é uma sociedade na qual cada metade passe a acreditar que a outra metade é intolerável. Assim sendo, é preciso sublinhar que se a pesquisa Datafolha oferece um número provocador, 30% dos eleitores dizem escolher seu candidato para impedir que outro seja eleito, ao mesmo tempo traz também um número animador, 61% dos entrevistados afirmam votar naquele que consideram mais preparado e com as melhores propostas. Não, não me parece certo concluir que o Brasil inteiro passou a votar movido pela aversão.
Os números mostram que a polarização continua tendo peso relevante, embora não explique sozinha o comportamento do eleitor. A eleição de 2026 parece ser como as outras foram – uma batalha pela preferência e uma batalha pela rejeição, as duas ao mesmo tempo. A capacidade de transformar o medo da vitória do adversário em voto no nosso candidato é importante como sempre foi, mas convencer o eleitor com propostas ainda é essencial para a vitória – em particular se nos lembramos que a maioria das vitórias eleitorais dependem da mobilização da própria base eleitoral. Nesta eleição, em última análise, vencerá quem for capaz de atrair o centro moderado. Já foi assim na última eleição – será assim nesta. Os moderados vão decidir a eleição. E os moderados não se alimentam do ódio, mas de confiança. Este é o meu palpite.



