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A internet gratuita está morrendo. Não pela falta de acesso e sim pelo excesso de lixo. Já estamos vendo feeds inteiros com conteúdo gerado por inteligência artificial, um caça-clique infinito, com propaganda disfarçada de conteúdo e algoritmos que empurram qualquer coisa para manter você grudado na tela.
Em paralelo, cresce um movimento para escapar dessa dinâmica. A chamada Cozy Web, a Rede Aconchegante, é uma forma de fugir do caos digital e encontrar algo que valha a pena consumir. O conceito de Rede Aconchegante é sobre cantos da web menores, mais íntimos, que as pessoas buscam intencionalmente.
A parte mais visível disso é o ecossistema de newsletters pagas, podcasts com assinatura, fóruns de debate e grupos fechados formados por comunidades com um propósito claro, geralmente em torno de um tema ou assunto. Em vez da corrida pela performance constante das redes sociais, esses ambientes priorizam qualidade sobre quantidade, profundidade sobre viralização.

As grandes plataformas seguem um ciclo previsível que Cory Doctorow batizou de enshittification (merdalização, numa tradução livre), um processo onde serviços começam excelentes para atrair usuários, depois se deterioram para maximizar lucros. Já vimos isso acontecer com Facebook, Instagram, YouTube, Netflix: todas as grandes plataformas passaram por essa transformação. Sai a conexão entre pessoas, entra a corrida para vender produtos e capturar dados pessoais.
Com a chegada da IA generativa, problema cresceu. As plataformas começam a ser inundadas por conteúdo sintético, como textos, imagens e vídeos criados por algoritmos para gerar engajamento barato. É o que alguns chamam de slop de IA, uma papinha digital sem sabor, feita para preencher espaço e gerar cliques. Feita por robôs, para robôs.
A resposta está na curadoria humana e na disposição de pagar por ela. Quem pode custear assinaturas migra para ambientes controlados, onde editores reais filtram o ruído e oferecem perspectivas únicas. Quem não pode, fica preso no ciclo vicioso do conteúdo gratuito — que nunca foi realmente gratuito, apenas financiado por vigilância e manipulação.
Essa quantidade de porcaria sendo publicada em escala industrial dificulta a vida de quem produz e de quem consome conteúdo. Fica mais difícil encontrar o que presta no meio de tanto lixo. Nesse cenário, o trabalho de curadoria e filtragem do que realmente vale a pena ser consumido torna-se crucial para navegar a rede.
Por isso alguns criadores independentes, em vez de competir pela atenção nas redes sociais, estão criando audiências diretas através de newsletters, podcasts, clubes de leitura e grupos de debates para assinantes pagos. É o que estou fazendo com meu podcast e newsletter RESUMIDO. É mais trabalhoso e chega a menos pessoas, porém gera conexões genuínas e sustentabilidade financeira.
O lado negativo disso é que se cria uma internet de duas camadas. Uma para quem pode pagar por conteúdo de qualidade, feito por humanos, e outra para quem não pode pagar e vai consumir o que sobra, provavelmente muita porcaria sintética. No Brasil, onde muitos acessam a internet apenas através de aplicativos “gratuitos” incluídos nos planos de celular, essa divisão pode se tornar uma barreira de classe. O que puder ser acessado grátis em canais como WhatsApp, Facebook, Instagram e YouTube irá moldar a percepção de realidade de milhões de pessoas excluídas do acesso a informação confiável.
O paradoxo é que, ao fugir das plataformas gratuitas, acabamos pagando duas vezes. Primeiro com nossos dados e atenção, depois com dinheiro real para escapar do que criamos. Talvez seja esse o preço de manter espaços digitais que ainda se parecem com conversas humanas, não com campanhas publicitárias disfarçadas.



