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Vereadora quilombola de Salvador denuncia perseguição de jornal, após embate com ‘Rei do Gás’

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Por André Uzêda

Primeira quilombola eleita na história de Salvador, a vereadora Eliete Paraguassu (PSOL) registrou um boletim de ocorrência para, segundo ela, denunciar uma campanha de perseguição com calúnia, difamação, misoginia e racismo feita pelo tradicional jornal baiano A Tarde.

A queixa foi protocolada na delegacia especializada em combate ao racismo e intolerância religiosa, no dia 4 de agosto, na capital baiana.

No registro policial, ao qual a ICL Notícias teve acesso, a vereadora narra uma sequência de ataques, que vão desde “falsas acusações de crime de corrupção”, imputações de que a vereadora “cometeu fraude relacionada ao Seguro Defeso”, além de ofensas ao chamá-la de “pseudo-quilombola”. As notas são escritas em um tom jocoso e sem apresentar provas das acusações feitas.

Eliete conta que virou alvo do jornal A Tarde ainda em 2021, antes mesmo de vencer a disputa para a Câmara Municipal de Salvador. Desde então, ofensas e ataques passaram a ser veiculadas contra ela na coluna ‘O Carrasco’, publicada sempre às segundas-feiras (na versão impressa e online) de maneira apócrifa  – ou seja, sem assinatura que identifique o jornalista responsável pelo texto.

“Tudo começou quando, representando as mulheres marisqueiras e quilombolas como eu, me engajei na luta contra a construção de um porto privado na baía de Aratu. Foram destruídos mais de 7 hectares de manguezais neste processo. Denunciamos esse absurdo, que culminou na paralisação das obras. Agora, estou sendo novamente vítima de fake news”, diz, em entrevista à reportagem.

vereadora

Notas publicadas no impresso e no digital da coluna ‘O Carrasco’, do Jornal A Tarde, com ofensas à vereadora Eliete Paraguassu. Crédito: Reprodução

A nova onda de ataques, iniciada no mês passado, coincide com a apresentação de dois novos projetos da parlamentar – um deles para regulamentar leis municipais que projetam a natureza como sujeita de direitos e outro para criar, em Salvador, o dia de preservação dos manguezais. Os dois projetos ainda tramitam nas comissões especiais da casa.

“É um conjunto de leis que tentam impedir que empresas degradem o meio ambiente sem responsabilização, como o que vem acontecendo com a Bahia Terminais, no Porto de Aratu”, pontua a Eliete.

Os interesses de Carlos Suarez

A Bahia Terminais é a empresa que almeja construir um terminal de uso privado (TUP) dentro da baía de Aratu – uma pequena enseada localizada na própria Baía de Todos os Santos, em uma área compartilhada por três municípios: Salvador, Simões Filho e Candeias.

A área funciona como ponto comercial estratégico, cercado por indústrias químicas, petroquímicas, metalúrgicas e de alimentos. Em 2020, o governo federal concedeu a autorização para instalação de um porto privado na região, com a finalidade de armazenar e transportar cargas líquidas e gasosas.

Na composição de capital da Bahia Terminais consta que 83% das cotas pertencem à CS Participações, empresa cujo sócio-administrador é o mega empresário Carlos Suarez. O documento foi levantado pela reportagem junto à Superintendência de Desenvolvimento Industrial e Comercial da Bahia (Sudic).

Suarez é conhecido no mundo dos negócios como o ‘Rei do Gás’, pelo controle que detém sobre oito empresas distribuidoras no país, com autorização de transporte por gasoduto em estados do Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil.

De perfil discreto, mesmo quando é citado em reportagens que o enaltecem, o ‘Rei do Gás’ não costuma se deixar fotografar, preservando sua imagem. Em março de 2021, a 3ª Vara Federal Cível, em ação movida pelo MPF e pelo MP-BA, provocada pelas comunidades quilombolas, suspendeu em caráter liminar a licença ambiental para a construção do porto privado em Aratu.

Área de manguezal devastada para construção do porto privado de Aratu – Crédito: Conselho Pastoral dos Pescadores

Mesmo com a decisão, o Grupo Ambientalista Gambá denunciou, a partir de vídeos e fotos de moradores, que as obras prosseguiram. Em razão disso, o grupo passou a ser sistematicamente citado, entre ataques e menções irônicas, na coluna ‘O Carrasco’, do Jornal A Tarde – mesmo método adotado contra a vereadora Eliete Paraguassu.

O Jornal A Tarde foi procurado, mas não respondeu os questionamentos feitos pela reportagem. A empresa Bahia Terminais também foi contactada, assim como Carlos Suarez, por meio do seu advogado Roberto Podval, mas ambos não deram resposta.

Atualmente, as obras do terminal privado de Aratu estão paralisadas por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Crise do Jornal A Tarde

Principal jornal da Bahia até meados da última década, o centenário A Tarde entrou  em crise, depois que a aristocrática família Simões, antiga proprietária, se endividou e teve problemas na condução do periódico. A empresa foi posta à venda e um dos interessados pela compra foi o próprio Carlos Suarez.

Um grupo de investidores de São Paulo adquiriu a publicação em 2016, mas por quebra de contrato, a administração retornou à família de origem. Hoje, no papel, o jornal pertence aos fundadores, mas, segundo fontes informaram ao ICL Notícias, receberia apoio de um grupo de empresários.

Suarez não admite qualquer tipo de relação com o grupo e tem ameaçado de processo quem insinua o contrário. A coluna ‘O Carrasco’, no entanto, segue promovendo ataques aos desafetos do ‘Rei do Gás’.

Conhecido como ‘Rei do Gás’, Suarez raramente é fotografado em reportagens que o citam. Crédito: Arquivo ICL Notícias

Os alvos preferenciais têm sido procuradores e promotores, do MPF e do MPE-BA, que atuam em defesa do meio ambiente, além de ONGs e grupos que representam comunidades quilombolas e tradicionais.

Isso porque, além da distribuição de gás e participação na Bahia Terminais, Suarez atua também na compra de terrenos em Salvador e mantém ligações, por meio de sua filha (Isabela Suarez), comoa Fundação Baía Viva – organização que se diz preocupada em recuperar a Baía de Todos os Santos.

Em agosto de 2022, Suarez e a Fundação Baía Viva – além de outros nove réus – foram condenados na Justiça Federal a pagar danos morais coletivos no valor de R$ 5 milhões por uma série de degradações ambientais causadas à Ilha dos Frades, área paradisíaca pertencente a Salvador. Na ação é citada a destruição de Mata Atlântica nativa e o impedimento dos moradores de frequentar espaços públicos, no intuito de explorar o espaço como um ativo turístico.

Vereadora Eliete Paraguassu registrou boletim de ocorrência na delegacia especializada em combate ao racismo – Crédito: Divulgação

“Nós registramos o boletim de ocorrência e já estamos estudando ações penais e cíveis para demonstrar a perseguição engendrada contra a vereadora Eliete Paraguassu, além de quais tipos de crimes esse conjunto de práticas incorre. É uma campanha sórdida e também covarde, pois nem sequer têm coragem de assinar as notas de ataque”, diz Marcos Brandão, advogado do mandato da psolista.

“Psicológico abalado”

Aos 45 anos, Eliete Paraguassu está em seu primeiro mandato como vereadora. Filiada ao PSOL desde 2019, antes de ocupar um cargo legislativo, primeiro ingressou na militância de mulheres negras e marisqueiras.

Ela é natural do quilombo Porto dos Cavalos, em Ilha de Maré, situado em frente à antiga Refinaria Landulpho Alves, vendida em 2021 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao grupo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos.

Vista da obra da Bahia Terminais, a partir do quilombo Boca do Rio. Crédito: Conselho Pastoral dos Pescadores

Em 2021, quando iniciou o embate com a empresa Bahia Terminais, Eliete Paraguassu chegou a ser processada pela organização, que a acusava de destruição de patrimônio. O processo, no entanto, prescreveu.

Desde que os ataques mais recentes do jornal A Tarde se intensificaram, a parlamentar diz estar com o psicológico abalado. “Isso tem mexido muito comigo, porque é a continuidade de uma série de ataques que venho sofrendo há um tempo. Já me processaram, me ameaçaram – o que me fez deixar de morar em Porto dos Cavalos – e agora querem destruir minha reputação com uma campanha de mentiras para jogar meu nome na lama”, afirma.



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