Ao menos é o que disse o deputado federal Amom Mandel (Cidadania – nota: ele é
do Cidadania, embora o bloco seja com o PSDB) no dia 22 de abril de 2026, quando
apontou que sempre buscou uma forma de fazer a diferença. Dessa maneira, viu na
eleição de 2020 uma sina para cumprir sua vocação. Durante o mandato de dois
anos, observou sinceras dificuldades sobre o ofício do vereador, visto que existem
profundas limitações no que a ação da vereança pode realmente fazer. Assim,
sustentou posteriormente a frase comparando o cargo a dejetos em suas redes
sociais.
Além desse pequeno contexto, proponho uma reflexão sobre o que de fato ocorreu,
contrastando a fala com a realidade à luz da sociologia política.
Antes, quero recordar como eu entendia politicamente o que seria um vereador.
Lembro-me de que, enquanto criança, nunca entendi muito bem o que ele fazia;
apenas sabia que era algo importante. Quando me tornei adolescente, descobri que
eles “davam” emprego. Aliás, sou do interior do Amazonas, e a época de eleição era
o tempo de conseguir postos de trabalho segurando-se em um político: se ele
ganha, você está dentro; caso perca, continua fora. Esse foi o meu imaginário
político, da minha família e de conhecidos, sobre o papel do vereador.
Entretanto, o vereador tem um papel fundamental e que, segundo nossa
Constituição — em sua função legislativa e fiscalizadora -, consiste em fiscalizar o
Executivo, legislar e assessorar o governo municipal por meio de indicações. Ou
seja, existe uma diferença clara entre o papel normativo (o que é esperado) e como
esse poder opera na realidade.
Uma das grandes obras sociológicas brasileiras chama-se Os Donos do Poder, de
Raymundo Faoro. A tese central dessa obra dialoga com o conceito de Max Weber
chamado “patrimonialismo”, que é uma forma de dominação tradicional onde não há
distinção clara entre o público e o privado. Assim, esse patronato veio de Portugal
na forma de burocracia e se transformou em uma casta no Brasil: a burocracia
estamental, que controla o desenvolvimento das classes sociais. Esse controle do
Estado – isto é, de cargos que dominam as facetas estatais – passa por
pessoalidades entre atores; dessa forma, são relações hierarquizadas e
assimétricas.
Essas relações assimétricas podemos nomear como clientelismo, como nos salienta
Nunes Bahia. Significa um plano onde uma pessoa dá algo, por conta de seu grau
elevado, e a outra, por não dispor das mesmas condições, paga com sua lealdade.
A partir dessas categorias sociológicas, discuto com o leitor a seguinte questão: se
existe um Estado patrimonialista onde a relação clientelista é a gramática que vai de
Brasília ao interior do Amazonas, podemos inferir que a lógica do Estado é o
desnível entre atores representativos.
Mas e a população?
Onde fica nisso tudo?
Na antropologia, existe o conceito de “tempo da política”, desenvolvido por Moacir Palmeira e Beatriz Heredia. Elas apontam que esse período é quando a assimetria de poder diminui, permitindo que o cidadão comum negocie termos, favores e promessas em troca da legitimidade que o político busca. Eu acredito que esse tempo é, na verdade, durante todos os quatro anos. Visto que, no imaginário popular, político bom é aquele que favorece o
eleitor com alguma benesse em troca do voto recebido.
Mas e então, onde entra a questão do Amom nisso tudo? É uma lógica simples:
para o vereador ter acesso a recursos e bens do Estado “patrimonial” que está sob
o domínio do prefeito, ele precisa estar alinhado nessa relação assimétrica. Ao
mesmo tempo, para ser um “bom político” perante a base, precisa trazer esses
recursos para a população. A conta é simples, mas o preço que se paga é uma
Câmara que apenas faz indicações e age de forma passiva frente ao Executivo.
É uma grande questão que contorna tudo isso. Mesmo que Amom diga que
vereador “não serve para nada”, a vereança é uma das formas, nessa formação do
Estado patrimonialista, pelas quais a população consegue acessar recursos.
Portanto, a fala de Amom Mandel não deve ser lida apenas como um desabafo
isolado ou uma ofensa gratuita, mas como o sintoma de um sistema onde a função
teórica do cargo foi engolida pela prática patrimonialista. Quando ele compara o
ofício a dejetos, ele denuncia a impotência do legislador que, ao tentar seguir a
norma constitucional de fiscalizar e legislar de forma independente, colide com a
burocracia estamental brasileira. No fim das contas, para o sistema funcionar como
está posto, o vereador acaba sendo reduzido a um mero intermediário que precisa
se submeter ao Executivo para garantir que o “favor” chegue à ponta, sacrificando
sua autonomia em nome da manutenção do poder.
Dessa forma, o que eu via na infância no interior do Amazonas – a política como
balcão de empregos e moedas de troca – é a aplicação viva do “tempo da política”
em um Estado que nunca deixou de ser patronal. A “merda” apontada pelo
deputado é, na verdade, o conflito ético de um cargo que foi desenhado para ser um
pilar da democracia, mas que na realidade do Brasil profundo sobrevive como uma
peça de engrenagem do clientelismo. Refletir sobre esse momento histórico é
entender que, enquanto a população precisar acessar direitos básicos através da
“benesse” do político e não através das instituições, o cargo de vereador continuará
preso a essa lógica de sobrevivência que Amom, com sua crueza, expôs para todo
o país.

Sobre o autor: André Luiz Melo da Silva, 5º período de Ciências Sociais – UFAM
Bolsista do Programa de Educação Tutorial – Etno Pet
Sobre o Etno Pet: O PET, Programa de Educação Tutorial, é um programa gerenciado pela CAPES/MEC e, no âmbito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é desenvolvido em grupos e organizado a partir de cursos de graduação das unidades acadêmicas, orientados pelo princípio da indissociabilidade entre o ensino, pesquisa, inovação e extensão. As atividades extracurriculares que compõem o programa devem proporcionar aos alunos oportunidades de vivenciar experiências que atendam plenamente às necessidades dos cursos de graduação e/ou ampliar e aprofundar os objetivos e os conteúdos programáticos que integram sua grade curricular, além de contribuir para a sociedade onde atuam. O Etno Pet é tutoriado pelo Prof Bruno Oliveira.



