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quinta-feira, 12 fevereiro, 2026
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Vacina desenvolvida na USP protege contra infecção por Zika e previne danos cerebrais

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*Por Gustavo Cabral

As doenças infecciosas emergentes continuam sendo uma ameaça significativa à saúde pública global. A pandemia de COVID-19 evidenciou o impacto devastador que esses agentes infecciosos podem causar, afetando não apenas sistemas de saúde, mas também estruturas econômicas e sociais. Em anos recentes, surtos de doenças como Mpox (Monkeypox), Ebola e o contínuo desafio representado pelo HIV demonstram que o enfrentamento de novas epidemias e pandemias exige vigilância constante e investimentos em ciência e tecnologia.

De forma semelhante, arboviroses (doenças virais transmitidas principalmente por artrópodes, como mosquitos) como a dengue têm se intensificado em países tropicais como o Brasil, trazendo desafios persistentes para o controle vetorial e o tratamento das complicações clínicas.

Nesse contexto, o vírus Zika se destaca como uma arbovirose emergente com relevantes implicações para a saúde pública. O Brasil vivenciou há uma década um expressivo surto da doença entre os anos de 2015 e 2016, período em que foi registrado um aumento significativo nos casos de microcefalia entre recém-nascidos cujas mães foram infectadas durante a gestação.

Embora a infecção pelo vírus Zika possa ser assintomática ou manifestar sintomas leves, há evidências de que, em situações mais graves, pode provocar complicações neurológicas, como a microcefalia em fetos e a Síndrome de Guillain-Barré (condição em que o sistema imunológico ataca os nervos, levando à fraqueza muscular e, às vezes, à paralisia) em adultos. Pesquisas recentes têm ampliado o entendimento sobre a patogênese do vírus, apontando também para possíveis danos testiculares como consequência da infecção.

Diante desse desafio, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) desenvolveram uma vacina experimental baseada em partículas semelhantes a vírus (VLPs, do inglês virus-like particles), que demonstrou ser capaz de prevenir camundongos trangênicos da infecção pelo vírus Zika, assim como de proteger contra danos neurológicos e reprodutivos.

O estudo, desenvolvido por esse grupo de pesquisa que coordeno e publicado na revista Nature pj Vaccines (doi:10.1038/s41541-025-01163-4), representa um avanço relevante no desenvolvimento de vacinas eficazes, seguras e acessíveis.

A vacina testada mostrou ser capaz de induzir uma resposta imune robusta, especialmente por meio da ativação de células T específicas contra o ZIKV. Além disso, os animais imunizados produziram anticorpos neutralizantes que conferiram proteção eficaz após serem desafiados com o vírus.

Achados do estudo que são notáveis são a prevenção de lesões cerebrais e testiculares em camundongos machos vacinados, evidenciando a abrangência protetiva da vacina, pela capacidade abrangente de indução da resposta imunológica.

Outro ponto de destaque é a ausência de adjuvantes (substância usada em vacinas para reforçar a resposta do sistema imunológico) na formulação vacinal, o que reduz custos, tornando a vacina uma alternativa mais viável para aplicação em larga escala, sobretudo em contextos de recursos limitados.

Essa tecnologia também tem se mostrado versátil: o mesmo grupo de pesquisa aplicou a plataforma de VLPs no desenvolvimento de uma vacina contra a COVID-19, igualmente promissora, conforme publicado no artigo científico “A self-adjuvanted VLPs-based Covid-19 vaccine proven versatile, safe, and highly protective” (doi:10.1038/s41598-024-76163-w), também na revista Nature, mas neste caso, na Scientific Report.

Esses avanços científicos reforçam o papel fundamental da pesquisa nacional no enfrentamento de desafios globais em saúde. Apesar das recorrentes limitações de financiamento e da pouca visibilidade que muitos grupos de pesquisa enfrentam, os resultados obtidos demonstram a capacidade da ciência brasileira de desenvolver soluções inovadoras, com potencial impacto internacional.

É importante ressaltar que esses estudos só foram possíveis graças ao apoio de instituições de fomento à pesquisa, em especial a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que investiu de forma decisiva no projeto aqui apresentado (FAPESP 19/14526-0).

O desenvolvimento da vacina contra o vírus Zika — e a versatilidade dessa plataforma tecnológica para outras viroses emergentes — evidencia a importância de fortalecer a infraestrutura científica no Brasil. Valorizar e apoiar de forma contínua os pesquisadores comprometidos com a promoção da saúde pública é essencial para que o país possa responder com eficiência a ameaças sanitárias presentes e futuras.

 

*Imunologista PhD pela USP, Pós-Doutor pelo Instituto Jenner da Universidade de Oxford, Inglaterra e Pós-Doutor Sênior pelo Hospital Universitário de Bern, Suíça.

Atualmente é Coordenador de Pesquisa para o Desenvolvimento Tecnológico de Vacinas no Departamento de Infectologia e Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP.

 



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