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terça-feira, 24 março, 2026
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União terá de reassumir prédio do antigo IML no RJ para conservar acervo da ditadura

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Por Gabriel Gomes

A Justiça Federal determinou que o governo federal retome, em até seis meses, a posse antigo prédio do Instituto Médico Legal (IML), no Centro do Rio de Janeiro, para o acervo histórico da ditadura militar localizado no imóvel. A decisão é favorável a um pedido do Ministério Público Federal (MPF), apoiado pelo Coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, grupo composto por descendentes de perseguidos pelo regime.

A decisão ocorre após uma série de alertas sobre a situação de abandono do imóvel. O estado do Rio de Janeiro deverá garantir a segurança do prédio e impedir novas invasões até a conclusão da transferência. Também terá que providenciar a remoção do acervo para um local adequado, com estrutura de climatização e condições para higienização e catalogação.

A remoção e o tratamento da documentação deverão ser acompanhados e fiscalizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na decisão, a Justiça determinou, ainda, que a União elabore um planejamento para a ocupação adequada do prédio após a retomada, garantindo que o acervo higienizado seja destinado a arquivos públicos estaduais e nacionais.

O descumprimento das medidas poderá resultar em multa ao estado. Os valores arrecadados deverão ser destinados a instituições ligadas à preservação do patrimônio histórico.

“É uma notícia muito positiva. Primeiro, pelo período a que se referem os documentos que estão lá. E, segundo, porque existe um grande potencial de encontrar informações que levem à identificação de pessoas desaparecidas ou esclareçam o que aconteceu com elas. A decisão possibilita que familiares, não só de desaparecidos, mas também de pessoas que foram presas, torturadas, possam ter mais informações e entender melhor o que ocorreu”, comemorou Felipe Lott, historiador, cientista social e integrante do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça.

“Mostra que o país se importa com o seu passado, especialmente com um passado que muitas vezes foi escondido ou negado. Esse trabalho é fundamental para construir uma democracia mais sólida e evitar a repetição de crimes e violações de direitos humanos”, completou.

União deve retomar posse do antigo prédio do IML do RJ para conservar acervo da ditadura
Documentos no prédio do antigo IML no Rio de Janeiro. (Foto: Foto: Marcelo Del Negri/Comunicação/MPF)

Entenda o caso

O caso teve origem em um inquérito civil que investigava a criação de um centro de memória no antigo prédio do Dops.  O MPF identificou que em outra edificação, o antigo prédio do IML, desativado há 16 anos, havia cerca de 440 mil itens iconográficos e quase 3 mil metros lineares de documentos da Polícia Civil datados de 1930 a 1960. O acervo contém registros cruciais sobre o período da ditadura militar, incluindo informações sobre violações de direitos humanos e desaparecidos políticos.

“O acervo é fundamental para a memória e para o direito à verdade. Muitos familiares e descendentes só podem ter acesso a informações por meio desses documentos. Esses registros ajudam a comprovar que essas pessoas foram vítimas do Estado. Muitas vezes, o próprio Estado não reconhece a violência que praticou durante a ditadura”, explica Felipe Lott.

Relatórios de inspeções técnicas realizadas pelo MPF, pelo Arquivo Nacional e pelo Iphan descreveram um cenário de abandono crítico. De acordo com os relatórios, foram encontrados documentos dispersos entre fezes de pombos, janelas quebradas e ausência de energia elétrica, além da presença constante de invasores e usuários de drogas no prédio, que vinha sendo utilizado como “banheiro público”.

O imóvel foi transferido ao estado em 1965, com a condição de uso exclusivo para atividades do IML. Como o serviço foi transferido em 2009 para a Avenida Francisco Bicalho, a Justiça entendeu que houve perda de finalidade, o que justifica a reversão à União.

“O IML foi transferido de local, e o prédio acabou ficando abandonado. Os documentos foram encontrados em salas com janelas abertas, havia grande quantidade de fezes de pombos. O prédio passou a ser invadido, sendo utilizado por moradores de rua e até como banheiro público. O estado de deterioração é muito grande, tanto do prédio quanto dos documentos, que já têm décadas. Isso é muito negativo, porque impede que a justiça de transição seja feita de forma adequada e que as famílias tenham acesso a essas informações”, salientou Felipe Lott.

Ditadura militar completa 62 anos neste ano

No dia 31 de março, completam-se 62 anos do golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura militar no Brasil (1964–1985). Durante esse período, o país viveu sob um regime autoritário, marcado pela censura à liberdade de expressão, repressão política contra opositores e diversas violações de direitos humanos.





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