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sexta-feira, 20 fevereiro, 2026
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Uma lição de história para Silas Malafaia

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Por Igor Mello

Em seu discurso no ato bolsonarista neste domingo (7), o pastor Silas Malafaia deu uma nova volta no ponteiro do revisionismo histórico da extrema direita brasileira. Em um show de autoindulgência, o líder religioso –dono da igreja evangélica Advec (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) – reforçou o discurso de que o Brasil se tornou uma ditadura.

Malafaia encerrou seu longo pronunciamento com um momento teatral: avisou que mandaria uma mensagem para seu “amigo Bolsonaro”. Com a voz chorosa –ainda que sem uma lágrima sequer no rosto– Malafaia destacou como absurdas as medidas cautelares impostas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a Jair Bolsonaro (PL). “Um ex-presidente da República com uma tornozeleira eletrônica? Um ex-presidente da República que não pode usar telefone e redes sociais? Um ex-presidente da república que não pode sair de casa?”, questionou.

Logo em seguida, o pastor passou a se vitimizar, em referência ao mandado de busca e apreensão do STF contra ele, por sua suposta participação no plano para coagir o tribunal e obstruir o julgamento de Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado de 2022.

“E o meu nível [de perseguição] é muito, muito, muito menor que o dele. Um pastor que tem o passaporte apreendido? Os meus cadernos de anotações bíblicas? Meu telefone apreendido? Brasileiros fora porque se estivessem aqui seriam presos? Que democracia é essa? Senhores deputados, senhores senadores, senhores jornalistas. Que país é esse? Que covardia e maldade é essa?”

O monólogo terminou com uma afirmação incisiva: “Nunca vimos isso na história do Brasil”.

Não dá para saber se Malafaia faltou às aulas de história na época de escola ou apenas decidiu ignorá-las por proselitismo político. O fato é que no passado do Brasil não faltam casos de perseguição política brutal tanto contra ex-presidentes, quanto contra líderes e sacerdotes cristãos.

Apeado do poder pelo golpe militar de 1964, João Goulart foi perseguido sistematicamente pela repressão e acabou morrendo no exílio, na Argentina, 12 anos depois. Sem ter sequer o direito de passar seus últimos momentos em vida no país ao qual dedicou sua vida. Nenhum outro presidente havia morrido enquanto exilado.

Malafaia também acusou o ministro Alexandre de Moraes, a quem insistentemente chama de “ditador da toga”, de censura. “Nós temos brasileiros exilados que tiveram que sair do Brasil para não ser preso por causa de opinião”, argumentou o pastor.

É sempre bom lembrar: não há notícias de nenhum bolsonarista preso sem devido processo legal e colocado num pau de arara por ordens de Moraes.

Enquanto Malafaia esperneia por ter tido o passaporte e alguns cadernos apreendidos em um processo legítimo dentro do Estado de Direito, dezenas de religiosos –entre bispos, padres e freiras–foram vítimas dos porões da Ditadura. Não faltam episódios de monitoramentos, prisões arbitrárias e sessões de tortura contra esses membros da igreja.

Talvez o caso mais emblemático seja o do padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife. O sacerdote foi sequestrado na noite de 26 de maio de 1969, ao deixar uma reunião com jovens e pais ligados à pastoral. Seu corpo foi encontrado jogado ao lado de uma cerca de arame farpado na madrugada de 27 de maio. Havia notórios sinais de tortura, além de marcas de tiros na cabeça do religioso.

Padre Antônio não tinha relação com a luta armada, que era a justificativa oficial da Ditadura para prender, torturar e matar. Sua sentença de morte foi selada pelo regime por atuar, sob designação de Dom Helder Câmara – de quem era auxiliar direto– junto à juventude pernambucana tratando de questões sociais. Assim como o bispo, ele denunciava sistematicamente a violência dos porões da Ditadura.

A Comissão da Verdade de Pernambuco constatou que padre Antônio foi sequestrado e morto por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas –grupo paramilitar de extrema direita que apoiava a Ditadura– e por agentes da Polícia Civil de Pernambuco. Já na época, as investigações comandadas pelo Ministério Público pernambucano constataram a motivação política do crime. Prova disso é um documento produzido pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) em 1970.

Segundo o informe, o promotor responsável pelo caso havia procurado a polícia política da Ditadura para relatar sua preocupação com os rumos da investigação, que estava prestes a acabar. “São imprevisíveis as consequências maléficas que certamente advirão, devido ao fato de estarem implicados elementos da polícia civil no assassínio do padre, haja vista que os opositores do governo irão explorar o fato ao máximo, talvez mesmo no âmbito internacional”, conclui o relatório do SNI.

O sistema de Justiça, as autoridades pernambucanas e até mesmo a cúpula da Ditadura sabiam que o religioso era vítima da repressão. Mesmo assim, o MP acabou sustentando a tese estapafúrdia de que a morte do padre havia sido um crime comum.

Na ditadura imaginária da qual Malafaia se diz vítima, o pastor pode –dia sim, dia também– conceder entrevistas atacando aqueles que comandariam o tal regime autoritário. Também está liberado para postar vídeos nas redes sociais e até organiza e financia manifestações da oposição à luz do dia, sem precisar de qualquer subterfúgio.

Na ditadura de verdade —aquela mesma lembrada com saudade por muitos dos companheiros de trio elétrico do pastor– a banda tocava bem diferente. O já citado Dom Helder Câmara foi prova viva disso.

Líder da ala progressista do clero brasileiro, o bispo tornou-se um dos principais inimigos do regime militar.

Após a imposição do AI-5, em dezembro de 1968, Dom Helder Câmara tornou-se um proscrito no debate público nacional: a censura deu ordens expressas para que ele não fosse ouvido ou tivesse seu nome sequer citado na imprensa.

A perseguição, no entanto, não impediu que Dom Helder seguisse denunciando os crimes do governo brasileiro no exterior. A atuação do bispo foi crucial para uma mudança na opinião pública internacional, que resultou em crescente pressão contra os militares brasileiros.

Dom Helder Câmara passou para os livros de história da melhor forma possível. Recentemente, em julho, a Câmara aprovou a inclusão do nome dele no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

Tudo leva a crer que o nome de Silas Malafaia figurará em documentos bastante distintos. Estes, escritos pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República.



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