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sábado, 4 abril, 2026
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Um desejo impossível

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Matinta – Ilustração: Ana Clara Martins

Do alto do majestoso angelim-pedra, a velha coruja escutou o canto do jacu-cigano, o grasnado do tucano e o piado do gavião real. Próximo dali uma jaguatirica avançou sobre um caititu do mato, uma vez pego, este esperneou ferozmente, sem chances de escapar das garras do felino. Aquela era a toada das matas: bela, selvagem e inclemente. Dentro daquela grande orquestra, havia algo especial, uma música de vai-e-vêm, que impediu-a de deixar o Amazonas por séculos: o som do banzeiro do rio.

As águas subiam e desciam em determinados períodos do ano, era o que os ribeirinhos chamavam de cheia e vazante. Um povo humilde que mantinha uma relação estreita com a palavra trabalho, construíam suas casas sobre altas palafitas para resistir ao regime das águas.

Na época da cheia o rio subia, as terras iam para o fundo e as pessoas viviam isoladas em suas casas, alimentando-se da pesca e de qualquer outra coisa que fosse capaz de ser armazenada por meses.

Na vazante, o nível da água descia, dando vista para quilômetros de uma terra fertilizada por sedimentos depositados pela correnteza, perfeita para o plantio. O recuo da água criava um cenário lamacento, recheado de cavidades — pequenas poças onde os pés chafurdavam —, mas que era morada de pequenos animais e a natureza aflorava em seus charcos. A várzea era desse jeito, a vida tinha sua própria maneira de se moldar ao ambiente.

Após três mil anos de existência, empoleirada no alto da árvore, a velha coruja sentia que o mundo ainda era capaz de cativar-lhe a atenção. O Amazonas em especial, era belo! Bastava um bater de asas para explorar cada pedacinho daquele paraíso.

Em meio aos sons magníficos da várzea, algo chamou sua atenção. Era baixinho como uma oração, uma prece entremeada por lágrimas e súplicas:

— Por favor, aceite minha oferenda, oh dona. Por favor, por favor.

Homens mais tolos a chamavam para pedir saúde, prosperidade, ouro, amores perdidos, muitos e tantos mais, em um tempo onde o mundo era súdito de reis e rainhas. A coruja  sacolejou a cabeça para desanuviar os pensamentos de outro tempo, outra era. Agora vivia no Amazonas sob uma nova alcunha, ali os ribeirinhos invocavam seu nome em troca dos seus préstimos. Contudo, era a primeira vez que uma criança o fazia.

O cheiro do café mal feito denunciou a falta de traquejo da cunhantã, o aroma do tabaco queimado também alcançou seu olfato. Era uma oferenda das ruins, mas não deixava de ser um convite.  Quando a noite caiu e a lua se tornou uma foice, ela arqueou as asas e pousou sobre o telhado da casa, movida pela curiosidade.

Gritou a primeira vez. Depois outra, aguardando alguma reação. Por fim, uma terceira. Desta vez, pés correram sobre o assoalho abaixo.

A entidade desceu em rodopios mergulhando por uma janela aberta. Suas asas esticaram, dando espaço para braços e dedos, as pernas cresceram, o manto cheio de remendos materializou-se sobre seu corpo, o cajado surgiu ao seu lado dando apoio à aparência daquele corpo envelhecido.

Fosse por susto ou surpresa, a cunhantã saltou, estava aguardando a entidade sob a luz de duas lamparinas. A coruja, gerada em gente, deu um passo sobre o chão de madeira, fazendo o assoalho ranger.

— Que quer de mim, cunhatã? Menina espevitada, ninguém nunca te ensinou que não se deve pedir coisa alguma de entidade?

— Ensinou sim senhora, em nome de Nossa Senhora que eu sei disso dona, mas ninguém me ouvia. Então fiz uma oferenda e tu apareceu. Me ajuda!

— Desembucha, o que quer de mim?

Uma coragem inconsequente se apoderou da menina, pois ela correu na direção da entidade, segurando sua mão sem medo ou receio, puxando-a para o quarto; o caboclo do Amazonas, embora pobre, era muito acolhedor. Sobre a rede engatada no esteio da casa, estava o corpo de uma senhora morta, o recinto exalava podridão.

— Traz ela de volta pra mim, traz? Eu não tenho mais ninguém não. Minha mãe e meu pai foram embora daqui pra cidade, porque a vida no interior é difícil. Ficou só eu e meus avós. Mas veio essa doença que tira o ar das pessoas. Meu vozinho foi na frente, tive que ajudar vovó a enterrar ele no fundo do terreno, foi preciso enrolar seu corpo num lençol velho.

A cunhantã arfava, pálida, nervosa, magricela.

— Vovó disse para eu sair daqui e procurar ajuda quando ela começou a tossir, mas os vizinhos foram tudo embora para a cidade em busca de socorro — ela começou a chorar e a tossir — E tamo na vazante, a beira do rio tá longe… eu tô com medo de pegar… a canoa pra remar até na cidade… nunca fui sozinha… eu… nunca fui… sem minha vozinha.

— Eu não trago os mortos de volta. Quem desencostou, só vai numa direção.

— Não! A dona pode, sei que pode. Faz esse favor.

A menina desabou.

— Cunhatã teimosa! Tem quanto tempo que tu não come?!

— Eu tenho fome, mas tenho falta de ar também. Quando as pessoas começaram a morrer, ninguém veio ver eu e meus avós. Ficamos sozinhos, todo mundo sabia que a gente morava só. Eu achava que as pessoas estavam morrendo de falta de ar, mas a doença parece que prejudica o coração também.

A entidade tocou sua tez morena e sentiu o calor de uma febre alta. A cunhantã não passaria daquela noite.

— Por que tu não pede para ser como eu? Eu posso te encantar, tu vira entidade feito eu.

— A dor vai passar?

— Sim.

— E vou poder ver meus avós?

A entidade meneou negativamente a cabeça.

— Quero não, dona. Meu desejo é voltar para as manhãs em que ninguém tava doente. Minha vó fazia café na lenha, meu vô me levava pra ordenhar a vaca cedinho para garantir o leite. Cê sabe o que é ser só? Eu acho que sei, por isso não quero viver sem eles não.

A entidade depositou a mão sobre os olhos da pequena e sussurrou baixinho.

— Eu não posso trazer os mortos de volta, mas posso te fazer sonhar com esses dias felizes antes da tua partida. Dorme. Dorme e sonha com um mundo melhor, onde as pessoas estão vivas e sadias, não existe briga, apenas o som do banzeiro, o vento no rosto e um pouco de café bem coado.

O último suspiro da menina foi tranquilo, seu lábio contraído lembrava um sorriso de alegria. A Matinta assumiu sua forma de coruja novamente e retornou para a copa do angelim-pedra.

Meses a finco se passaram, a doença devastou os humanos, principalmente os esquecidos pelos beiradões. O rio voltou a encher, gradualmente, era assim que funcionava o regime das águas. Num dia de tempestade, quando o banzeiro ficou forte, a Matinta bateu suas asas agitando o vento, até fazer a casa de palafita desabar. Os restos da menina foram engolidos pelo rio, entranhados pelas raízes das árvores que cresceram ao redor, onde seus ossos descansam para sempre.

Aquela foi a única vez que a Matinta não pediu nada em troca por um favor.

Conto: Eber Bentes
Revisora Textual: Deuziane Sackamulth
Ilustração: Ana Clara Martins

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