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Desde que o bolsonarismo surgiu, os brasileiros decentes se perguntam como foi possível a ascensão de um grupo político tão desonesto, violento e mistificador. Para além de Jair Bolsonaro, seus familiares, militares e demais cúmplices, a resposta para esse enigma passa por instituições e pessoas que em nada se parecem com as tropas do fascismo.
Grupos e personagens importantes, de quem se esperava defesa da democracia, observaram com enorme condescendência o avanço do projeto autocrata. Toparam engolir algumas grosserias bolsonaristas para evitar a volta do petismo ao poder.
Idealizaram Bolsonaro, imaginando que poderiam controlá-lo, e, apesar de terem asco da figura, aceitaram algumas de suas botinadas com a intenção de preparar terreno para chegada de alguém afinado com o mercado, que o sucederia.
A imprensa foi, em especial, agente desse projeto. Ajudou a naturalizar Bolsonaro, evitou o quanto pôde classificá-lo como alguém de extrema direita (certo, Folha de S. Paulo?) e abriu generosamente os microfones — e continua abrindo — para as declarações bizarras dos bolsonaristas, banalizando mentiras e ofensas. Abusou e continua abusando da falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro.
Deu no que deu: o país quase foi tomado por um golpe de Estado.
Mesmo depois de todos os dissabores experimentados nos últimos anos, a receita para o caos continua a ser cozinhada, especialmente no jornalismo.
Um bom exemplo foi a “análise” feita pelo comentarista Joel Pinheiro, da GloboNews, sobre a absurda repressão determinada por Hugo Motta contra o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), que ocupou a Mesa Diretora da Câmara em protesto contra a iminente cassação de seu mandato.
Formado em Economia e Filosofia, nascido no Reino Unido, oriundo de família de classe média alta e com aparência de bom moço, ele emitiu uma opinião digna do brucutu Capitão Nascimento, apoiando a ordem de Hugo Motta que levou a Polícia Legislativa a arrancar Glauber da Mesa de forma violenta. Além disso, Motta impediu o acesso de outros deputados e expulsou do recinto os jornalistas (ainda por cima cortou o sinal da TV Câmara).
Joel reconheceu que o presidente da Casa foi leniente com os deputados de extrema direita que ocuparam aquela mesma Mesa por 48 horas, meses atrás, mas que agora fez o certo. “Foi uma decisão correta”, disse. O comentarista pregou que daqui para frente haja “tolerância zero” e que esse “mal” seja “cortado pela raiz”.
A fala levou o companheiro de programa, Fernando Gabeira, a pedir aparte para discordar. Gabeira, que viveu a repressão do Regime Militar, observou que Motta deveria ter usado a negociação, recurso inerente à política.
Joel ainda atacou Glauber, praticamente justificando sua cassação por simplesmente empurrar um militante do MBL que o vinha provocando há meses e que ofendeu sua mãe, que estava internada com a doença que a levou a falecer pouco tempo depois. O filósofo e economista chegou ao cúmulo de classificar a greve de fome que o deputado fez em protesto contra a ameaça de cassação de “ato autoritário” (!).
Algum tempo depois, no mesmo canal, outro colega de Joel, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, disse não ter nenhuma simpatia por Glauber mas admitiu que ele está sendo perseguido por Motta. Falou claramente que a cassação do parlamentar do PSOL não se justifica.
O posicionamento reacionário de Joel Pinheiro não é novidade. Foi também ele que há 5 anos defendeu o comércio de órgãos para transplantes (e depois disse que foi mal interpretado) e mais recentemente lançou o improvável conceito de “bolsonarismo moderado”. Só vale destacar este último comentário absurdo porque ele o fez em emissora de grande audiência, capaz de influenciar muitos telespectadores.
O episódio é ilustrativo de como as práticas antidemocráticas não são adubadas somente por gente mal encarada e grosseira como Jair Bolsonaro. Também jovens com aparência de mauricinho e que manejam bem a Língua Portuguesa podem ser (e são) incentivadores de condutas truculentas.
Nem todo reaça usa coturno. Alguns usam sapatênis.
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ICL Notícias



